XXXVII - Em que fica provado que Phileas Fogg nada ganhou fazendo a volta ao mundo, a não ser a felicidade

Sim! Phileas Fogg em pessoa.

Devemos nos lembrar de que às oito horas da noite – vinte e cinco horas mais ou menos depois da chegada dos viajantes a Londres – Passepartout tinha sido encarregado por seu patrão de avisar o reverendo Samuel Wilson a respeito de certo casamento que deveria se realizar no dia seguinte mesmo.

Passepartout tinha então partido, encantado. Ele se dirigiu a passos rápidos à residência do reverendo Samuel Wilson, que ainda não tinha voltado. Naturalmente, Passepartout esperou, mas esperou uns vinte bons minutos pelo menos.

Resumindo, eram oito horas e trinta e cinco quando saiu da casa do reverendo. Mas em que estado! Os cabelos em desordem, sem chapéu, correndo, correndo como nunca se viu ninguém correr, derrubando os que passavam, se precipitando como um vendaval sobre as calçadas!


Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

Em três minutos, estava de volta à casa de Saville Row, e tombou, sem ar, no quarto de Mr. Fogg.

Não podia falar.

– Que aconteceu? perguntou Mr. Fogg.

– Meu patrão... balbuciou Passepartout, casamento... impossível.

– Impossível?

– Impossível... para amanhã.

– Por quê?

– Porque amanhã... é domingo!

– Segunda, respondeu Mr. Fogg.

– Não... hoje... sábado.

– Sábado? Impossível!

– É, é, é, é! exclamou Passepartout. Enganou-se em um dia! Chegamos vinte e quatro horas antes... mas não restam mais que dez minutos!...

Passepartout tinha agarrado seu patrão pelo colete, e o arrastava com uma força irresistível.

Phileas Fogg, assim levado, sem ter tempo para refletir, deixou seu quarto, deixou sua casa, saltou para um cab, prometeu cem libras ao cocheiro, e após ter esmagado dois cães e colidido com cinco veículos, chegou ao Reform Club.

O relógio marcava oito horas quarenta e cinco, quando apareceu no grande salão.

Phileas Fogg tinha completado a volta ao mundo em oitenta dias!...

Phileas Fogg tinha ganho sua aposta de vinte mil libras!

E agora, como é que um homem tão exato, tão meticuloso, tinha podido cometer este erro de dia? Como se acreditava no sábado à noite, 21 de dezembro, ao desembarcar em Londres, quando estava na sexta, 20 de dezembro, setenta e nove dias somente após sua partida?

Eis a razão deste erro. Bem simples.

Phileas Fogg tinha, “sem dúvida” ganho um dia sobre seu itinerário – e isto unicamente porque tinha feito a volta ao mundo indo para leste, e teria, pelo contrário, perdido este dia indo em sentido inverso, ou seja para oeste.

Com efeito, andando para o leste, Phileas Fogg ia à frente do sol, e, por conseguinte os dias diminuíam para ele tantas vezes quatro minutos quanto os graus que percorria naquela direção. Ora, temos trezentos e sessenta graus na circunferência terrestre, e estes trezentos e sessenta graus, multiplicados por quatro minutos, dão precisamente vinte e quatro horas – isto é, o dia inconscientemente ganho. Em outros termos, enquanto Phileas Fogg, andando para leste, viu o sol passar oitenta vezes pelo meridiano, seus colegas que tinham ficado em Londres só o viram passar setenta e nove vezes. Eis porque, naquele dia, que era sábado e não domingo, como supunha Mr. Fogg, eles o esperaram no salão do Reform Club.

E é o que o famoso relógio de Passepartout – que tinha sempre conservado a hora de Londres – teria constatado se, ao mesmo tempo que os minutos e as horas, tivesse marcado os dias!

Phileas Fogg tinha portanto ganho as vinte mil libras. Mas como tinha gasto pelo caminho cerca de dezenove mil, o resultado pecuniário era medíocre. Todavia, e isso já foi dito, o excêntrico gentleman só tinha, nesta aposta, procurado a luta, não a fortuna. E mesmo, as mil libras restantes, as dividiu entre o honesto Passepartout e o infeliz Fix, a quem era incapaz de querer mal. Apenas, e por respeito às regras, descontou do seu servidor o preço das mil e novecentas horas do gás consumido por sua culpa.

Naquela mesma noite, Mr. Fogg, tão impassível, tão fleumático, dizia a Mrs. Aouda:

– O casamento ainda lhe convém, madame?

– Mr. Fogg, respondeu Mrs. Aouda, é a mim que cabe fazer essa pergunta. Estava arruinado, agora está rico...

– Me desculpe, madame, esta fortuna lhe pertence. Se não tivesse tido a idéia do casamento, meu criado não teria ido à casa do reverendo Samuel Wilson, eu não teria sido avisado do meu erro, e...

– Querido senhor Fogg... disse a jovem.

– Querida Aouda... respondeu Phileas Fogg.

Como é fácil supor o casamento se realizou quarenta e oito horas mais tarde, e Passepartout, soberbo, resplandecente, deslumbrante, figurou como padrinho da jovem. Não a tinha salvo, não lhe deviam aquela honra?

Somente, no dia seguinte, ao alvorecer, Passepartout bateu com insistência na porta de seu patrão.

A porta se abriu, e o impassível gentleman apareceu.

– O que é que há, Passepartout?

– Isso, senhor! É que acabo de perceber agora há pouco...

– O quê?

– Que poderíamos ter feito a viagem a volta ao mundo em setenta e oito dias apenas.

– Sem dúvida, respondeu Mr. Fogg, não atravessando a Índia. Mas se eu não tivesse atravessado a Índia, não teria salvo Mrs. Aouda, ela não seria minha mulher, e...

E Mr. Fogg fechou tranquilamente a porta.

Assim pois Phileas Fogg tinha ganho sua aposta. Tinha feito em oitenta dias a viagem ao redor do mundo! Tinha empregado para fazê-la todos os meios de transporte, paquetes, railways, carruagens, iates, navios mercantes, trenós, elefante. O excêntrico gentleman tinha desenvolvido nesta empresa suas maravilhosas qualidades de sangue frio e de exatidão. Mas afinal? O que tinha ganho neste deslocamento? O que alcançara com esta viagem?

Nada, diriam? Nada, vá lá, a não ser uma sedutora mulher, que – por mais inverossímil que possa parecer – o tornou o mais feliz dos homens!

Na verdade, não faríamos, por menos que isso, a Volta ao Mundo?

XXXVI - Em que Phileas Fogg volta a subir no mercado

É tempo de dizer aqui que reviravolta de opinião tinha acontecido no Reino Unido, quando se soube da prisão do verdadeiro ladrão do Banco – um certo James Strand – prisão que tinha acontecido em 17 de dezembro, em Edimburg.

Três dias antes, Phileas Fogg era um criminoso que a polícia perseguia de todo jeito, e agora era o mais honesto gentleman, que realizava matematicamente sua excêntrica viagem ao redor do mundo.

Que efeito, que repercussão nos jornais! Todos os apostadores a favor ou contra, que tinham já esquecido este caso, ressuscitaram como por magia. Todas as transações voltavam a ter valor. Todos os comprometimentos reviviam, e, é preciso dizer, as apostas recomeçavam com uma nova energia. O nome de Phileas Fogg foi novamente preferencial no mercado.

Os cinco colegas do gentleman, no Reform Club, passaram estes três dias em uma certa inquietação. Phileas Fogg, que eles tinham esquecido, reaparecia a seus olhos! Onde estaria neste momento? Em 17 de dezembro – dia em que James Strand foi preso – havia setenta e sete dias que Phileas Fogg tinha partido, e nenhuma notícia dele! Teria sucumbido? Teria renunciado à luta, ou continuaria seu caminho seguindo o roteiro combinado? E sábado 21 de dezembro, às oito e quarenta e cinco da noite, iria aparecer, como o deus da exatidão, sobre a soleira do salão do Reform Club?

Temos que renunciar a pintar a ansiedade em que, durante três dias, viveu todo este mundo da sociedade inglesa. Expediram-se despachos para a América, para a Ásia, para se ter notícias de Phileas Fogg! Mandaram vigiar de manhã à noite a casa de Saville Row... Nada. A própria polícia não sabia mais o que tinha acontecido ao detetive Fix, que se tinha tão atabalhoadamente lançado sobre uma falsa pista. O que não impediu que se fizessem novas apostas em maior escala. Phileas Fogg, como um cavalo de corrida, chegava à última rodada. Não o cotavam mais a cem, mas a vinte, a dez, a cinco, e o velho paralítico, lord Albermale, esse, ao par.

Assim, sábado à noite, havia multidão em Pall Mall e nas ruas visinhas. Era como que uma imensa aglomeração de corretores, estabelecidos permanentemente nas proximidades do Reform Club. A circulação estava impedida. Discutiam, disputavam, apregoavam os “Phileas Fogg” como títulos dos fundos ingleses. Os policemen tinham muita dificuldade em conter os populares, e à medida em que se aproximava a hora em que Phileas Fogg deveria chegar, a emoção tomava proporções inacreditáveis.

Nesta noite, os cinco colegas do gentleman estavam reunidos desde as nove da manhã no grande salão do Reform Club. Os dois banqueiros, John Sullivan e Samuel Fallentin, o engenheiro Andrew Stuart, Gauthier Ralph, administrador do Banco da Inglaterra, o cervejeiro Thomas Flanagan, todos esperavam com ansiedade.

No momento em que o relógio do grande salão marcou oito e vinte e cinco, Andrew Stuart, levantando-se, disse:

– Senhores, em vinte minutos o prazo combinado entre Mr. Phileas Fogg e nós terá expirado.

– A que horas chegou o último trem de Liverpool? perguntou Thomas Flanagan.

– Às sete e vinte e três, respondeu Gauthier Ralph, e o trem seguinte só chega à meia noite e dez.

– Ora, senhores, retomou Andrew Stuart, se Phileas Fogg tivesse chegado pelo trem das sete e vinte e três, já estaria aqui. Podemos pois considerar a aposta como ganha.

– Esperemos, não nos pronunciemos, respondeu Samuel Fallentin. Sabe que o nosso colega é um excêntrico de primeira. Sua exatidão é bem conhecida. Não chega jamais nem muito tarde nem muito cedo, e se aparecesse aqui no último minuto, eu não ficaria nada surpreso.

– E eu, disse Andrew Stuart, que estava, como sempre, muito nervoso, eu veria e não acreditaria.

– Com efeito, retomou Thomas Flanagan, o projeto de Phileas Fogg era insensato. Qualquer que fosse sua exatidão, não poderia impedir os atrasos inevitáveis de se produzirem, e um atraso de dois ou três dias somente bastariam para comprometer sua viagem.

– Devem notar, além disso, acrescentou John Sullivan, que não recebemos nenhuma notícia de nosso colega, e entretanto os fios telegráficos não faltavam no seu percurso.

– Perdeu, senhores, retomou Andrew Stuart, cem vezes perdeu! Sabem, além disso, que o China – o único paquete de Nova York que ele poderia ter pego para chegar a Liverpool em tempo hábil – chegou ontem. Ora, eis a lista dos passageiros, publicada pela Shipping Gazette, e o nome Phileas Fogg não figura nela. Admitindo as possibilidades as mais favoráveis, nosso colega está apenas na América. Avalio em vinte dias, pelo menos, o atraso que sofrerá em relação à data combinada, e o velho lord Albermale sofrerá, ele também, por suas cinco mil libras!

– É evidente, exclamou Gauthier Ralph, e amanhã só teremos que apresentar no Baring Irmãos o cheque de Mr. Fogg.

Neste momento o relógio do salão soou oito e quarenta.

– Ainda cinco minutos, disse Andrew Stuart.

Os cinco colegas se entreolharam. Podemos supor que os batimentos de seus corações tivessem sofrido uma pequena aceleração, porque afinal, mesmo para excelentes jogadores, a partida era forte! Mas nada queriam deixar transparecer, porque, por proposta de Samuel Fallentin, sentaram-se a uma mesa de jogo.

– Não daria minha parte de quatro mil libras na aposta, disse Andrew Stuart, sentando-se, nem mesmo se me oferecessem três mil novecentos e noventa e nove!

O ponteiro marcava, neste momento, oito e quarenta e dois.

Os jogadores tinham pego as cartas, mas, a cada instante, seus olhares se voltavam para o relógio. Podemos afirmar que, qualquer que fosse sua segurança, jamais minutos lhes tinham parecido tão longos!

– Oito e quarenta e três, disse Thomas Flanagan, cortando as cartas que lhe apresentava Gauthier Ralph.

Depois um minuto de silêncio se fez. O vasto salão do clube estava tranquilo. Mas, lá fora, ouviu-se a barulheira da multidão, em que dominavam às vezes gritos agudos. O pêndulo do relógio marcava os segundos com uma regularidade matemática. Cada jogador poderia contar as divisões sexagesimais que feriam seus ouvidos.

– Oito e quarenta e quatro! disse John Sullivan numa voz em que se percebia uma emoção involuntária.

Não mais que um minuto, e a aposta estaria ganha. Andrew Stuart e seus colegas não jogavam mais. Tinham abandonado as cartas! Contavam os segundos!

Ao quadragésimo segundo, nada. Ao quinquagésimo, nada ainda!

Ao quinquagésimo quinto segundo, ouviram uma espécie de trovoada lá fora, aplausos, hurrahs, e até imprecações, que se propagaram em maremoto contínuo.

Os jogadores se levantaram.

Ao quinquagésimo sétimo segundo, a porta do salão se abriu, e o pêndulo não tinha marcado o sexagésimo segundo, quando Phileas Fogg apareceu, seguido por uma multidão em delírio que tinha forçado a entrada do clube, e com a sua voz calma:

– Aqui estou, senhores, disse.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

XXXV - Em que Passepartout não pede para seu patrão repetir duas vezes uma ordem dada

No dia seguinte, os moradores de Saville Row teriam ficado bem surpresos, se lhes tivessem dito que Mr. Fogg tinha voltado para casa. Portas e janelas, tudo estava fechado. Nenhuma mudança se tinha produzido exteriormente.

Com efeito, após ter deixado a estação, Phileas Fogg tinha mandado Passepartout comprar algumas provisões, e tinha voltado para casa.

O gentleman tinha recebido com sua impassividade habitual o golpe que o ferira. Arruinado! e por culpa deste inspetor de polícia trapalhão! Após ter caminhado a passos seguros durante um longo percurso, após ter ultrapassado mil obstáculos, arrostado mil perigos, tendo ainda tempo para fazer algum bem pelo caminho, morrer na praia por um fato brutal, que não poderia prever, e contra o qual estava desarmado: era terrível! Da soma considerável que tinha levado ao partir, só lhe restava um saldo insignificante. Sua fortuna era só as vinte mil libras depositadas no Baring Irmãos, e essas vinte mil libras, ele as devia aos seus colegas do Reform Club. Após tantas despesas, ganhar a aposta não o teria enriquecido sem dúvida, e é provável que não tivesse procurado se enriquecer – sendo desses homens que apostam por honra – mas a aposta perdida o arruinava totalmente. E mais, a decisão do gentleman estava tomada. Sabia o que lhe restava fazer.

Um quarto da casa de Saville Row tinha sido reservado para Mrs. Aouda. A jovem estava desesperada. Por certas palavras pronunciadas por Mr. Fogg, compreendera que este meditava algum plano funesto.

Sabemos, com efeito, a que deploráveis extremos são levados às vezes esses ingleses monomaníacos sob a pressão de uma idéia fixa. Também Passepartout, sem parecer, vigiava seu patrão.

Mas, assim que chegou, o honesto rapaz tinha subido ao seu quarto e apagado o bico que brilhava há oitenta dias. Tinha encontrado na caixa do correio uma conta da companhia do gás, e pensou que era mais que tempo de parar com esta despesa pela qual era responsável.


Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

A noite passou. Mr. Fogg tinha deitado, mas teria dormido? Quanto a Mrs. Aouda, não pôde ter um só instante de repouso. Passepartout, este, tinha vigiado como um cão à porta de seu patrão.

No dia seguinte, Mr. Fogg o chamou e recomendou-lhe, em termos muito breves, que cuidasse do almoço de Mrs. Aouda. Para ele, ele se contentaria com uma xícara de chá e uma torrada. Mrs. Aouda que o desculpasse no almoço e no jantar, porque todo seu tempo estaria consagrado a colocar em ordem seus negócios. Não desceria. À noite somente, e pedia a Mrs. Aouda permissão para encontrá-la por alguns instantes.

Passepartout, tendo recebido o programa do dia, tinha que se conformar com ele. Olhava seu patrão sempre impassível, e não podia se decidir a deixar o quarto. Seu coração estava aflito, sua consciência torturada por remorsos, porque se acusava mais que nunca deste irreparável desastre. Sim! se tivesse avisado Mr. Fogg, se lhe tivesse revelado os projetos do agente Fix, Mr. Fogg não teria certamente arrastado o agente até Liverpool, e então...

Passepartout não pôde se conter.

– Meu patrão! senhor Fogg! exclamou, amaldiçoe-me. É por minha culpa que...

– Não acuso ninguém, respondeu Phileas Fogg no tom mais calmo. Vá.

Passepartout deixou o quarto e veio encontrar a jovem, à qual participou as intenções de seu patrão.

– Madame, acrescentou, por mim nada posso, nada! Não tenho nenhuma influência sobre o espírito de meu patrão. A senhora, talvez...

– Que influência teria, respondeu Mrs. Aouda. Mr. Fogg não sente influência alguma! Compreendeu alguma vez que o meu reconhecimento estava prestes a transbordar! Leu alguma vez em meu coração!... Meu amigo, é preciso não o deixar, um só instante. Disse que ele manifestou a intenção de falar comigo esta noite?

– Sim, madame. Trata-se sem dúvida de salvaguardar sua situação na Inglaterra.

– Esperemos, respondeu a jovem, que ficou toda pensativa.

Assim, durante todo o domingo, a casa de Saville Row esteve como se tivesse estado desabitada, e, pela primeira vez desde que morava nessa casa, Phileas Fogg não foi ao seu clube, quando onze e meia soaram na torre do Parlamento.

E por quê este gentleman teria se apresentado ao Reform Club? Seus colegas já não o esperavam mais. Pois que, na véspera à noite, naquela data fatal do sábado dia 21 de dezembro, às oito horas e quarenta e cinco, Phileas Fogg não tendo aparecido no salão do Reform Club, sua aposta estava perdida. Nem era necessário que fosse ao seu banqueiro retirar a soma de vinte mil libras. Seus adversários tinham em mãos um cheque assinado por ele, e bastaria um simples lançamento feito no Baring para que as vinte mil libras lhes fossem creditadas.

Mr. Fogg não tinha por quê sair, e não saiu. Ficou no seu quarto e pôs em ordem seus negócios. Passepartout não cessou de subir e descer a escada da casa de Saville Row. As horas não andavam para este pobre rapaz. Escutava à porta do quarto do patrão, e, fazendo isso, não julgava cometer a menor indiscrição! Olhava pelo buraco da fechadura, e imaginava ter esse direito! Passepartout temia a cada instante alguma catástrofe. Às vezes, pensava em Fix, mas uma reviravolta se tinha produzido em seu espírito. Não queria mais mal ao agente de polícia. Fix tinha se enganado como todo mundo a respeito de Phileas Fogg, e, seguindo-o, prendendo-o, não tinha feito mais que o seu dever, enquanto que ele... Esta idéia o oprimia, e ele se julgava o último dos miseráveis.

Quando, por fim, Passepartout se achava infeliz demais para ficar sozinho, batia à porta de Mrs. Aouda, entrava no quarto, sentava-se a um canto sem dizer palavra, e contemplava a jovem sempre pensativa.

Pelas sete e meia da noite, Mr. Fogg mandou perguntar a Mrs. Aouda se o podia receber, e alguns instantes depois, a jovem e ele estavam a sós no quarto.

Phileas Fogg pegou uma cadeira e sentou perto da lareira, de frente para Mrs. Aouda. Seu rosto não refletia nenhuma emoção. O Fogg do regresso era exatamente o Fogg da partida. Mesma calma, mesma impassibilidade.

Permaneceu sem falar por cinco minutos. Depois, erguendo os olhos para Mrs. Aouda:

– Madame, disse, me perdoa por tê-la trazido para a Inglaterra?

– Eu, Mr. Fogg!... respondeu Mrs. Aouda, comprimindo os batimentos de seu coração.

– Por favor, me deixe concluir, retomou Mr. Fogg. Quando tive o pensamento de levá-la para longe daquele país, que se tornara tão perigoso para si, era rico, e contava colocar uma parte da minha fortuna à sua disposição. Sua existência teria sido feliz e livre. Agora, estou arruinado.

– Eu sei, senhor Fogg, respondeu a jovem, e eu perguntarei do meu lado: Me perdoa por tê-lo seguido e – quem sabe? – ter talvez, o atrasando, contribuído para a sua ruína?

– Madame, não podia ficar na Índia, e sua salvação só estaria assegurada se se afastasse o suficiente para que aqueles fanáticos não a pudessem recapturar.

– Assim, senhor Fogg, retomou Mrs. Aouda, não contente de me livrar de uma morte horrível, se sentiu obrigado a assegurar minha posição no estrangeiro?

– Sim, madame, respondeu Fogg, mas os acontecimentos se viraram contra mim. Entretanto, do pouco que me resta, peço licença para dispor a seu favor.

– Mas, senhor Fogg, o senhor, que será feito do senhor? perguntou Mrs. Aouda.

– Eu, madame, respondeu friamente o gentleman, eu não preciso de nada.

– Mas como, senhor, encara a sorte que o espera?

– Como convém encarar, respondeu Mr. Fogg.

– Em todo caso, retomou Mrs. Aouda, a miséria não saberia alcançar um homem como o senhor. Seus amigos...

– Não tenho amigos, madame.

– Seus parentes...

– Já não tenho parentes.

– Eu o lamento então, senhor Fogg, porque o isolamento é coisa triste. Imagine! nem um coração onde lançar suas máguas. Dizem contudo que a dois a própria miséria é ainda suportável.

– Dizem, madame.

– Senhor Fogg, disse então Mrs. Aouda, que se levantou e estendeu sua mão para o gentleman, quer ao mesmo tempo uma parente e uma amiga? Me quer para sua mulher?

Mr. Fogg, a esta palavra, tinha também se levantado. Tinha um brilho não usual nos olhos, um tremor nos lábios. Mrs. Aouda o olhava. A sinceridade, a retidão, a firmeza e a doçura deste belo olhar de uma nobre mulher que tudo ousa para salvar aquele a quem tudo deve, o espantaram a princípio, depois o comoveram. Fechou os olhos por um instante, como que para evitar que aquele olhar lhe penetrasse mais fundo... Quando os reabriu:

– Eu a amo! disse simplesmente. Sim, na verdade, por tudo o que há de mais sagrado no mundo, eu a amo, e sou todo seu!

– Ah!... exclamou Mrs. Aouda, levando sua mão ao coração.

Passepartout foi chamado. Veio imediatamente. Mr. Fogg tinha ainda em sua mão a mão de Mrs. Aouda. Passepartout compreendeu, e seu grande rosto radiou como o sol no zênite das regiões tropicais.

Mr. Fogg lhe perguntou se não seria muito tarde para ir avisar o reverendo Samuel Wilson, da paróquia de MaryleBone.

Passepartout sorriu o seu melhor sorrir.

– Nunca muito tarde, disse.

Eram só oito e cinco.

– Será amanhã, segunda feira! disse.

– Amanhã, segunda feira? perguntou Mr. Fogg olhando a jovem.

– Amanhã, segunda feira! respondeu Mrs. Aouda. Passepartout saiu, correndo.

XXXIV - Que proporciona a Passepartout a oportunidade de fazer um trocadilho infame, mas talvez inédito

Phileas Fogg estava na prisão. Tinham-no trancafiado no posto policial da Custom House, a alfândega de Liverpool, e aí deveria passar a noite esperando ser transferido para Londres.

No momento da detenção, Passepartout tinha tentado se precipitar sobre o detetive. Os policemen impediram. Mrs. Aouda, aterrada pela brutalidade do fato, nada sabendo, nada compreendia. Passepartout lhe explicou a situação. Mr. Fogg, este honesto e corajoso gentleman, ao qual ela devia a vida, estava preso como ladrão. A jovem protestou contra tal alegação, seu coração se indignou, e as lágrimas correram de seus olhos, quando viu que nada podia fazer, nada tentar, para salvar seu salvador.

Quanto a Fix, tinha prendido o gentleman porque seu dever lhe comandava prendê-lo, fosse culpado ou não. A justiça decidiria.

Mas então um pensamento veio a Passepartout, o pensamento terrível de que ele era decididamente a causa de toda aquela desgraça! Com efeito, por quê tinha ocultado o que se passava de Mr. Fogg? Quando Fix tinha se revelado, revelado sua qualidade de inspetor de polícia e a missão de que tinha sido encarregado, por quê tinha decidido não avisar o patrão? Este, prevenido, teria sem dúvida dado a Fix provas de sua inocência; teria demostrado seu erro; em todo o caso, não teria levado às suas custas e nas suas costas este mal agradecido agente, cujo primeiro cuidado tinha sido prendê-lo, no momento em que punha o pé no solo do Reino Unido. Ao pensar em suas faltas, em suas imprudências, o pobre rapaz era tomado de irresistíveis remorsos. Chorava, dava pena vê-lo. Queria dar com a cabeça na parede!

Mrs.Apesar e ele tinham ficado, apesar do frio, no peristilo da alfândega. Não queriam nem um nem a outra deixar o lugar. Desejavam rever ainda uma vez Mr. Fogg.

Quanto a este gentleman, estava bem e em regra arruinado, e justo no momento em que ia alcançar seu objetivo. Esta detenção o perdia irrevogavelmente. Tendo chegado ao meio dia menos vinte em Liverpool, dia 21 de dezembro, tinha até as oito horas e quarenta e cinco minutos para se apresentar no Reform Clube, ou seja nove horas e quinze minutos – e não precisaria mais de seis para chegar a Londres.

Neste momento, quem tivesse penetrado no posto policial da alfândega, teria encontrado Mr. Fogg, imóvel, sentado num banco de madeira, sem cólera, imperturbável. Resignado, não sabemos, mas este último golpe não o tinha podido emocionar, pelo menos aparentemente. Teria se formado nele uma dessas tempestades secretas, terríveis porque são reprimidas, e que não eclodem senão no último momento com uma força irresistível? Não sabemos. Mas Phileas Fogg estava ali, calmo, aguardando... o quê? Conservaria alguma esperança? Confiaria ainda no sucesso, quando a porta desta prisão estava trancada sobre ele?

Fosse como fosse, Mr. Fogg tinha cuidadosamente posto seu relógio sobre uma mesa e olhava os ponteiros avançarem. Nem uma palavra escapava de seus lábios, mas seu olhar tinha uma fixidez ímpar.

Em todo caso, a situação era terrível, e, para quem não pudesse ler naquela consciência, ela se resumia assim:

Homem honesto, Phileas Fogg estava arruinado.

Homem desonesto, estava preso.

Teria então o pensamento de se salvar? Pensava em procurar se este posto apresentaria uma saída praticável? Pensava em fugir? Seríamos tentados a acreditar que sim, porque, em certo momento, inspecionou o quarto. Mas a porta estava solidamente fechada e as janelas guarnecidas de barras de ferro. Voltou a se sentar, e tirou da carteira o roteiro da viagem. Na linha que trazia estas palavras:

“21 de dezembro, sábado, Liverpool”, acrescentou:

“80.° dia, 11 h 40 da manhã”, e esperou.

Uma hora soou no relógio da Custom-house. Mr. Fogg constatou que o seu relógio estava dois minutos adiantado em relação a ele.

Duas horas! Admitindo que tomasse neste momento um expresso, poderia ainda chegar a Londres e ao Reform Club antes das oito e quarenta e cinco da noite. Sua testa enrugou-se ligeiramente...

Às duas e trinta e três, um barulho ressoou do lado de fora, um barulho tumultuoso de portas que se abriam. Ouviu-se a voz de Passepartout, ouviu-se a voz de Fix.

O olhar de Phileas Fogg brilhou um instante.

A porta do posto policial se abriu, e viu Mrs. Aouda, Passepartout, Fix, que se precipitaram para ele.

Fix estava sem fôlego, cabelos em desalinho... Não podia falar!

– Senhor, balbuciou, senhor... perdão... uma semelhança deplorável... Ladrão está preso há três dias... está... livre!...

Phileas Fogg estava livre! Foi até o detetive. Olhou diretamente para seu rosto, e, fazendo o único movimento rápido que jamais tinha feito em sua vida, recuou seus dois braços para trás, depois, com a precisão de um autômato, bateu com seus dois punhos no infeliz inspetor.

– Bem dado! exclamou Passepartout, que, se permitindo um infame trocadilho, bem digno de um francês, acrescentou:

– Cáspite! eis o que se pode chamar de um soco inglês bem aplicado!

Fix, derrubado, não pronunciou palavra. Levara o que tinha merecido. Mas de imediato Mr. Fogg, Mrs. Aouda, Passepartout deixaram a alfândega. Lançaram-se em um veículo, e, em alguns minutos, chegaram à estação de Liverpool.

Phileas Fogg perguntou se havia um expresso prestes a partir para Londres...

Eram duas e quarenta... O expresso tinha partido havia trinta e cinco minutos.

Phileas Fogg solicitou então um trem especial.

Havia diversas locomotivas a vapor de grande velocidade; mas, atendendo às exigências do serviço, o trem especial só poderia deixar a estação às três horas.

Às três horas, Phileas Fogg, depois de ter dito algumas palavras ao maquinista sobre uma certa gratificação, corria em direção a Londres, em companhia da jovem e do seu fiel servidor.

Era preciso percorrer em cinco horas e meia a distância que separa Liverpool de Londres – coisa muito fácil quando a via está livre em todo o percurso. Mas houve atrasos forçados, e, quando o gentleman chegou à estação, nove horas menos dez soavam em todos os relógios de Londres.

Phileas Fogg, depois de ter dado a volta ao mundo, chegava com um atraso de cinco minutos!...

Tinha perdido.

XXXIII - Em que Phileas Fogg se mostra à altura das circunstâncias

Uma hora depois, o vapor Henrietta ultrapassava o farol que sinaliza a entrada do Hudson, dobrava a ponta de Sandy Hook e dava ao mar. Durante a jornada, costeou Long Island, ao largo das luzes de Fire Island, e correu rapidamente para leste.

No dia seguinte, 13 de dezembro, ao meio dia, um homem subiu ao convés para determinar as coordenadas. Supõem, por certo, que este homem era o capitão Speedy! Nada disso. Era Phileas Fogg, esq.

Quanto ao capitão Speedy, estava fechado e bem fechado à chave no seu camarote, e soltava uivos que denotavam uma cólera, bem perdoável, levada ao paroxismo.

O que tinha acontecido era muito simples. Phileas Fogg queria ir a Liverpool, o capitão não quis conduzi-lo para lá. Então Phileas Fogg tinha aceitado comprar passagem para Bordeaux, e, nas trinta horas que esteve no navio, tinha manobrado tão bem recorrendo às suas bank-notes, que a tripulação, marinheiros e fogueiros – tripulação um pouco contrabandista, que estava em péssimos termos com o capitão – lhe pertencia. Eis por quê Phileas Fogg comandava em lugar do capitão Speedy, por quê o capitão estava trancado no camarote, e por quê enfim o Henrietta se dirigia para Liverpool. E bastava, era evidente, ver Mr. Fogg manobrar, para saber que Mr. Fogg tinha sido marujo.

E agora, como acabaria a aventura, é o que mais tarde se saberá. Contudo, Mrs. Aouda não deixava de se sentir inquieta, apesar de nada dizer. Fix, esse, tinha ficado estupefato a princípio. Quanto a Passepartout, achava simplesmente adorável.

– Entre onze a doze nós, tinha dito o capitão Speedy, e com efeito o Henrietta se mantinha nesta média de velocidade.

Se, pois – que ainda havia “se”! – se, pois, o mar não ficasse muito ruim, se o vento não saltasse para leste, se não sucedesse nenhuma avaria ao barco, nenhum acidente à máquina, o Henrietta, nos nove dias contados de 12 de dezembro a 21, poderia atravessar as três mil milhas que separam Nova York de Liverpool. É verdade que uma vez lá, o negócio do Henrietta somando-se ao do Banco, poderia levar o gentleman um pouco mais longe de onde queria.

Durante os primeiros dias, a navegação se fez em excelentes condições. O mar não estava muito duro; o vento parecia fixo a nordeste; largaram-se as velas, e, sob suas goletas, o Henrietta andou como um verdadeiro transatlântico.

Passepartout estava encantado. A última proeza de seu patrão, da qual não queria ver as consequências, o entusiasmou. Jamais a tripulação vira um rapaz mais alegre, mais ágil. Fazia mil gentilezas para os marinheiros e os assombrava por suas piruetas de malabarista. Com prodigalidade lhes dava os melhores nomes e as bebidas mais atraentes. Para ele, manobravam como gentleman, e os fogueiros atiçavam as fornalhas como uns heróis. Seu bom humor, muito comunicativo, contagiava todos. Esquecera o passado, os aborrecimentos, os perigos. Só pensava na meta da viagem, tão próxima, e às vezes ardia de impaciência como se tivesse sido aquecido nas fornalhas do Henrietta. Muitas vezes também, o digno rapaz rodeava Fix; o olhava com olho “que se diria comprido”! mas não lhe falava, porque já não existia nenhuma intimidade entre os dois antigos amigos.

Demais, Fix, cumpre dizer, já não compreendia nada! A conquista do Henrietta, a compra de sua tripulação, aquele Fogg manobrando como um marinheiro consumado, todo este conjunto de coisas o aturdia. Não sabia mais o que pensar! Mas, afinal, um gentleman que começava roubando cinquenta e cinco mil libras podia muito bem acabar por roubar uma embarcação. E Fix foi naturalmente levado a crer que o Henrietta, dirigido por Fogg, não iria de jeito nenhum para Liverpool, mas para algum ponto do mundo onde o ladrão, agora pirata, se poria tranquilamente em segurança! Esta hipótese, devemos confessar, não poderia ser mais plausível, e o detetive começava a arrepender-se muito seriamente de ter embarcado nessa.

Quanto ao capitão Speedy, continuava a uivar no camarote, e Passepartout, encarregado de lhe levar alimentos, não o fazia, apesar de ser muito vigoroso, sem as maiores precauções. Mr. Fogg, esse, nem mesmo parecia duvidar que houvesse um capitão a bordo.

No dia 13, passaram pela extremidade da Terra Nova. São más paragens. Durante o inverno sobretudo, os nevoeiros são frequentes, os furacões temíveis. Desde a véspera, o barômetro, que baixara repentinamente, fazia pressentir uma mudança próxima na atmosfera. Com efeito, durante a noite, a temperatura se modificou, o frio tornou-se mais intenso, e ao mesmo tempo o vento rodou para sudeste.

Era um contratempo. Mr. Fogg, para não se afastar de sua rota, teve de ferrar as velas e forçar o vapor. Contudo, o andamento do navio foi diminuindo, tendo em conta o estado do mar, cujas imensas ondas quebravam contra a roda de proa. O navio começou a arfar violentamente, em prejuízo da sua velocidade. O vento virava pouco a pouco furacão, e já se previa o momento em que o Henrietta não pudesse mais se manter sobre as ondas. Ora, se fosse preciso fugir diante do temporal, surgiria o desconhecido com todas as suas consequências.

O semblante de Passepartout carregou-se ao mesmo tempo que o céu, e, por dois dias, o excelente moço passou por transes mortais. Mas Phileas Fogg era um marinheiro ousado, que sabia resistir ao mar, e continuou o seu caminho sem sequer diminuir o vapor. O Henrietta, quando não podia levantar-se sobre a vaga, atravessava-a, o mar varria-lhe o convés, mas passava. Por vezes a hélice emergia, agitando suas pás no ar vertiginosamente, quando alguma montanha de água levantava sua popa para fora da superfície da água. Porém, o navio ia sempre em frente.

Contudo o vento não soprou tão forte quanto poderiam ter esperado. Não se tornou um destes tufões que passam a uma velocidade de noventa milhas por hora. Soprou suportavelmente, mas infelizmente soprou com obstinação do sudeste e não permitiu que se largasse o pano. E contudo, como veremos, teria sido muito útil que tivesse vindo em auxílio do vapor.

Dia 16 de dezembro, era o septagésimo quinto desde a partida de Londres. Em resumo, o Henrietta não tinha ainda um atraso inquietante. Metade da travessia, mais ou menos, já estava feita, e as piores paragens tinham sido vencidas. No verão, poderiam ter tido certeza de sucesso. No inverno, estavam à mercê do mau tempo. Passepartout não emitia sua opinião. No fundo, tinha esperanças, e, se faltasse vento, punha fé no vapor.

Ora, naquele dia, o maquinista tendo subido à coberta, encontrou Mr. Fogg e falou acaloradamente com ele.

Sem saber bem porque – por um pressentimento sem dúvida – Passepartout experimentou uma vaga inquietação. Teria dado uma de suas orelhas para ouvir com a outra o que era dito. Contudo, pôde apanhar algumas palavras, pronunciadas por seu patrão:

– Tem certeza do que disse? perguntou Mr. Fogg.

– Certeza absoluta, senhor, respondeu o maquinista. Não se esqueça de que, desde nossa partida, temos tido as fornalhas sempre acesas, e que se temos suficiente carvão para ir a pouco vapor de Nova York a Bordeaux, não temos o bastante para ir a todo o vapor de Nova York a Liverpool.

– Pensarei nisso, respondeu Mr. Fogg.

Passepartout tinha compreendido. Ficou mortalmente inquieto.

Ia faltar carvão!

– Ah! se meu patrão passa por esta, disse ele consigo, ficará famoso!

E tendo encontrado Fix, não conseguiu se conter de colocá-lo a par da situação.

– Pois então, lhe respondeu o agente com os dentes cerrados, julga mesmo que vamos para Liverpool!

– Claro que sim!

– Imbecil! respondeu o inspetor, que se afastou, encolhendo os ombros.

Passepartout esteve a ponto de fazê-lo engolir o qualificativo, cujo sentido verdadeiro não podia aliás compreender; mas disse para si que o infortunado Fix deveria estar muito desapontado, muito humilhado em seu amor próprio, depois de ter tão atabalhoadamdente seguido uma pista falsa em redor do mundo, e desculpou-o.

E agora que decisão iria tomar Phileas Fogg? Era difícil de imaginar! Entretanto pareceu que o fleumático gentleman tinha tomado uma, porque naquela mesma tarde mandou chamar o maquinista, e lhe disse:

– Atice o fogo e vá em frente até acabar completamente o combustível.

Instantes depois, a chaminé do Henrietta vomitava turbilhões de fumaça.

O navio continuou assim a andar a todo vapor; mas, como tinha sido avisado, dois dias mais tarde, dia 18, o maquinista fez saber que o carvão acabaria naquele dia.

– Que não deixem o fogo baixar, respondeu Mr. Fogg. Pelo contrário. Abram as válvulas.

Naquele dia, por volta do meio dia, depois de ter tomado a altura do sol, e calculado a posição do navio, Phileas Fogg fez vir Passepartout, e deu-lhe a ordem de ir buscar o capitão Speedy. Era como se tivessem mandado o bom moço desacorrentar um tigre, e ele desceu ao tombadilho, se dizendo:

– Positivamente ficará raivoso!

Com efeito, alguns minutos mais tarde, em meio a gritos e pragas, uma bomba chegava ao tombadilho. Esta bomba, era o capitão Speedy. E era evidente que ela iria explodir.

– Onde estamos? tais foram as primeiras palavras que pronunciou no meio das sufocações de cólera, e se não ficasse apoplético, jamais ficaria.

– Onde estamos? repetiu, a face congestionada.

– A setecentas e setenta milhas de Liverpool (300 léguas), respondeu Mr. Fogg com uma calma imperturbável.

– Pirata! exclamou Andrew Speedy.


Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

– Mandei-o chamar, senhor...

– Corsário!

– ...senhor, retomou Phileas Fogg, para pedir que me venda o seu navio.

– Não! por todos os diabos, não!

– É que vou ser obrigado a queimá-lo.

– Queimar meu navio!

– Sim, pelo menos seus altos, porque estamos sem combustível.

– Queimar meu navio! gritou o capitão Speedy, que já nem podia mais sequer pronunciar as sílabas. Um navio que vale cinquenta mil dólares (250.000 F).

– Aqui tem sessenta mil (300.000 F)! respondeu Phileas Fogg, oferecendo ao capitão um maço de bank-notes.

Isso teve um efeito mágico sobre Andrew Speedy. Não se é americano sem que a visão de sessenta mil dólares lhe cause uma certa emoção. O capitão esqueceu em um instante sua cólera, seu encarceramento, todos as queixas contra seu passageiro. O navio tinha vinte anos. Aquilo poderia vir a ser uma mina de ouro!... A bomba não poderia mais explodir. Mr. Fogg arrancara seu estopim.

– E o casco de ferro ficará para mim, disse em um tom singularmente doce.

– O casco de ferro e a máquina, senhor. Fechado?

– Fechado.

E Andrew Speedy, pegando o maço de bank-notes, contou e embolsou.

Durante esta cena, Passepartout estava lívido. Quanto a Fix, quase que teve um enfarto. Quase vinte mil libras gastas, e ainda por cima este Fogg abandonava ao vendedor o casco e a máquina, isto é, quase o valor total do navio! É bem verdade que a quantia roubada do Banco era de cinquenta e cinco mil libras!

Quando Andrew Speedy tinha embolsado o dinheiro:

– Senhor, disse Mr. Fogg, que tudo isso não lhe cause admiração. Saiba que perco vinte mil libras se não estiver em Londres dia 21 de dezembro, às oito e quarenta e cinco da noite. Ora, perdi o paquete de Nova York, e como se recusava a me levar a Liverpool...

– E fiz bem, pelos cinquenta mil diabos do inferno, exclamou Andrew Speedy, pois com isso ganhei pelo menos quarenta mil dólares.

Depois, mais pausadamente:

– Sabe uma coisa, acrescentou, capitão?...

– Fogg.

– Capitão Fogg, pois bem, há um yankee no senhor.

E depois de ter feito ao seu passageiro o que ele julgava um comprimento, ia embora, quando Phileas Fogg lhe disse:

– Agora este navio me pertence?

– Claro, da quilha até à ponta dos mastros; tudo o que for madeira, claro.

– Bem. Faça demolir as divisões internas e aquecer a caldeira com os destroços.

Imaginem o que foi preciso consumir de madeira seca para conservar o vapor com suficiente pressão. Naquele dia, o tombadilho, os camarotes de convés, as cabinas, os alojamentos, a falsa coberta, tudo foi abaixo.


Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

No dia seguinte, 19 de dezembro, queimou-se a mastreação, as peças de substituição, as antenas. Abateram-se os mastros, foram cortados a machadadas. Passepartout, rachando, cortando, serrando, fazia o trabalho de dez homens. Era um furor de demolição.

No dia seguinte, 20, os pavezes, as obras mortas, e a maior parte da coberta foram devorados. O Henrietta não era mais que uma embarcação rasa como um pontão.

Mas, nesse dia, foi avistada a costa da Irlanda e as luzes de Fastenet.

Contudo, às dez horas, o navio estava ainda na altura de Queenstown. Phileas Fogg não tinha mais de vinte e quatro horas para chegar a Londres! Ora, era o tempo necessário para o Henrietta chegar a Liverpool – mesmo navegando a todo o vapor. E o vapor iria faltar afinal ao audacioso gentleman.

– Senhor, disse então o capitão Speedy, que tinha acabado se interessando por seus projetos, lamento de verdade. Tudo está contra si! Não estamos senão diante de Queenstown.

– Ah! exclamou Mr. Fogg, é Queenstown, esta cidade de que vemos as luzes é Queenstown?

– Sim.

– Podemos entrar no porto?

– Não antes das três. Só com maré cheia.

– Esperemos! respondeu tranquilamente Phileas Fogg, sem revelar em seu rosto que, por uma suprema inspiração, iria tentar mais uma vez vencer a sorte adversa!

Com efeito, Queenstown é um porto da costa da Irlanda na qual os transatlânticos que vêm dos Estados Unidos deixam na passagem as suas malas postais. As cartas são levadas a Dublin por expressos sempre prontos para partir. De Dublin chegam a Liverpool por vapores de grande velocidade – precedendo em doze horas os barcos mais rápidos das companhias marítimas.

Estas doze horas que assim ganhava o correio da América, Phileas Fogg pretendia também ganhá-las. Em lugar de chegar no Henrietta, no dia seguinte à tarde, em Liverpool, chegaria ao meio dia, e, por conseguinte, teria tempo para estar em Londres antes das oito horas e quarenta e cinco minutos da noite.

Pela uma da madrugada, o Henrietta entrou com o mar alto no porto de Queenstown, e Phileas Fogg, depois de ter recebido um vigoroso aperto de mão do capitão Speedy, deixava-o no casco arrasado do seu navio, que ainda valia a metade do que tinha vendido!

Os passageiros desembarcaram depressa. Fix, neste momento, teve um desejo feroz de deter o senhor Fogg. Mas não o fez! Por quê? Que combate se travava nele? Teria mudado de idéias a respeito de Mr. Fogg? Compreendera afinal que se enganara? Todavia, Fix não abandonou Mr. Fogg. Com ele, com Mrs. Aouda, com Passepartout, que já nem gastava o tempo para respirar, subiu no trem de Queenstown à uma e meia da madrugada, chegou a Dublin com o dia nascendo, e embarcou logo num desses vapores – verdadeiros fusos de aço, só movidos por máquinas – que desdenhando elevar-se sobre as ondas, passam invariavelmente através delas.

Ao meio dia menos vinte, em 21 de dezembro, Phileas Fogg desembarcou afinal no cais de Liverpool. Não estava a mais de seis horas de Londres.

Mas neste momento, Fix se aproximou, pôs a mão no seu ombro, e, exibindo seu mandado:

– É o senhor Phileas Fogg? disse ele.

– Sim, senhor.

– Eu o prendo, em nome da Rainha!

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

XXXII - Em que Phileas Fogg trava uma luta direta contra a má sorte


Partindo, o China parecia ter levado com ele a última esperança de Phileas Fogg.

Com efeito, nenhum dos outros paquetes que fazem o serviço direto entre a América e a Europa, nem os transatlânticos franceses, nem os navios da “White Star Line”, nem os vapores da Companhia Imman, nem os da linha Hamburguesa, nem outros, poderiam servir para os propósitos do gentleman.

Com efeito, o Pereire, da Companhia transatlântica francesa – cujos admiráveis barcos igualam em velocidade e excedem em comodidades todos os das outras linhas, sem exceção – só partiria dali a dois dias, 14 de dezembro. Além disso, do mesmo modo que os paquetes da Companhia hamburguesa, não ia diretamente a Liverpool ou a Londres, mas ao Havre, e esta travessia suplementar do Havre a Southampton, atrasando Phileas Fogg, anularia seus últimos esforços.

Quanto aos paquetes Imman, um dos quais, o City of Paris, punha-se ao mar no dia seguinte, não se deveria nem pensar neles. Estes navios são particularmente destinados ao transporte de emigrantes, suas máquinas são fracas, navegam tanto a vela como a vapor, e a sua velocidade é medíocre. Gastam na travessia de Nova York para a Inglaterra mais tempo do que o que restava a Mr. Fogg para ganhar a aposta.

De tudo isto o gentleman se deu perfeitamente conta consultando seu Bradshaw, que lhe fornecia, dia por dia, os movimentos da navegação transoceânica.

Passepartout estava arrasado. Ter perdido o paquete por quarenta e cinco minutos, isso o matava. A culpa era sua, que, em vez de ajudar o patrão, não tinha parado de semear obstáculos em seu caminho! E quando revia em seu espírito todos os incidentes da viagem, quando sopesava as quantias despendidas em pura perda e só no seu interesse, quando pensava que aquela enorme aposta, com o acréscimo das despesas consideráveis desta viagem agora perdida, arruinava completamente Mr. Fogg, cobria-se de injúrias.

Mr. Fogg não lhe fez, contudo, nenhuma censura, e, ao deixar o embarcadouro dos paquetes transatlânticos, só disse estas palavras:

– Amanhã veremos o que se pode fazer. Vamos.

Mr. Fogg, Mrs. Aouda, Fix, Passepartout atravessaram o Hudson no Jersey City ferryboat, e subiram em um fiacre, que os conduziu ao hotel Saint Nicolas, na Broadway. Quartos foram postos à disposição deles, e a noite passou, curta para Phileas Fogg, que dormiu um sono perfeito, mas bem longa para Mrs. Aouda e seus companheiros, aos quais a agitação não permitiu repousar.

O dia seguinte era 12 de dezembro. Do dia 12, às sete da manhã, ao dia 21, às oito e quarenta e cinco da noite, havia nove dias, treze horas e quarenta e cinco minutos. Se, pois, Phileas Fogg tivesse partido na véspera pelo China, um dos melhores cruzadores da linha Cunard, teria chegado a Liverpool, depois a Londres, no prazo desejado.

Mr. Fogg deixou o hotel, sozinho, depois de ter recomendado ao criado que o esperasse e avisasse Mrs. Aouda para que estivesse pronta a qualquer momento.

Mr. Fogg dirigiu-se para as margens do Hudson, e entre os navios atracados ao cais, ou ancorados no rio, procurou atentamente os que estavam de partida. Muitas embarcações tinham o sinal de partida e se preparavam para se fazer ao mar na maré da manhã, porque neste imenso e admirável porto de Nova York, não há dia em que cem navios não façam rota para todos os pontos do globo; mas a maioria eram embarcações a vela, e não podiam convir a Phileas Fogg.

Este gentleman parecia dever falhar na sua última tentativa, quando avistou ancorado diante da Bateria, a 200 metros ou mais, um navio de comércio a hélice, de formas finas, e cuja chaminé, deixando sair grossas nuvens de fumaça, indicava que se preparava para partir.

Phileas Fogg chamou um bote, embarcou nele, e, em poucas remadas, achou-se na escada do Henrietta, vapor de casco de ferro,com todos os altos de madeira.

O capitão do Henrietta estava a bordo. Phileas Fogg subiu ao convés e pediu para chamarem o capitão. Este apareceu logo.

Era um homem de cinquenta anos, uma espécie de lobo marinho, um resmungão que não deveria ser tratável. Olhos grandes, raiados de cobre oxidado, cabelos vermelhos, pescoço encorpado – não tinha o aspecto de um homem delicado.

– O capitão? perguntou Mr. Fogg.

– Sou eu.

– Eu sou Phileas Fogg, de Londres.

– E eu, Andrew Speedy, da Cardiff.

– Vai partir?

– Em uma hora.

– Esta carregado para...

– Bordeaux.

– E sua carga?

– Pedras no porão. Sem frete. Parto em lastro.

– Tem passageiros?

– Sem passageiros. Jamais passageiros. Mercadoria que estorva e que discute.

– Seu navio anda bem?

– Entre onze a doze nós. O Henrietta é bem conhecido.

– Quer me transportar para Liverpool, a mim e três pessoas?

– Para Liverpool? Porque não para a China?

– Digo Liverpool.

– Não!

– Não?

– Não. Estou de partida para Bordeaux, e vou para Bordeaux.

– Não importa o preço?

– Não importa o preço.

O capitão tinha falado com um tom que não admitia réplica.

– Mas os armadores do Henrietta... retomou Phileas Fogg.

– Os armadores, sou eu, respondeu o capitão. O navio me pertence.

– Eu freto!

– Não.

– Eu compro.

– Não.

Phileas Fogg nem pestanejou. Entretanto a situação era grave. Não estava sendo em Nova York como tinha sido em Hong Kong; nem com o capitão do Henrietta como tinha sido com o patrão da Tankadère. Até então o dinheiro do gentleman tinha dado conta dos obstáculos. Mas desta vez o dinheiro falhava.

Entretanto, era preciso encontrar o meio de atravessar o Atlântico de navio – a menos que fosse atravessado de balão – o que seria muito arriscado, e, além disso, irrealizável.

Pareceu, contudo, que Phileas Fogg teve uma idéia, porque disse ao capitão:

– Pois bem, quer me levar até Bordeaux?

– Não, nem que me pagasse cem dólares!

– Ofereço dois mil.

– Por pessoa?

– Por pessoa.

– E são quatro?

– Quatro.

O capitão Speedy começou a coçar a testa, como se quisesse arrancar-lhe a epiderme. Ganhar oito mil dólares, sem alterar a viagem, aí estava uma coisa pela qual valia a pena pôr de lado sua antipatia declarada por qualquer espécie de passageiro. Passageiros a dois mil dólares, ademais, já não são passageiros, são mercadoria preciosa.

– Parto às nove horas, disse simplesmente o capitão Speedy, com o senhor e os seus, se estiverem aqui...

– Às nove horas, estaremos no navio! respondeu não menos simplesmente Phileas Fogg.

Eram oito e meia. Desembarcar do Henrietta, subir para um veículo, dirigir-se ao hotel Saint-Nicolas, trazer Mrs. Aouda, Passepartout, e até o inseparável Fix, a quem graciosamente ofereceu passagem, tudo isso foi feito pelo gentleman com a calma que não o abandonava em nenhuma circunstância.

No momento em que o Henrietta aparelhava, todos os quatro estavam a bordo.

Quando Passepartout soube quanto custaria esta última travessia, soltou um desses “Oh!” prolongados, que percorrem todos os intervalos da escala cromática descendente!

Quanto ao inspetor Fix, disse consigo que decididamente o Banco da Inglaterra não sairia incólume deste negócio. Com efeito; chegando e admitindo que o senhor Fogg não lançasse mais alguns punhados ao mar, mais de sete mil libras (175.000 F) faltariam na sacola de bank-notes.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...