Capítulo XXI

No dia seguinte, partimos cedinho. Tínhamos de andar depressa, pois estávamos a cinco dias de marcha da encruzilhada. Não detalharei os sofrimentos de nossa volta. Meu tio os suportou com a raiva de um homem que não se sente o mais forte. Hans, com a resignação de sua natureza pacífica, e eu, confesso, lamentando-me e desesperando-me; não conseguia ter coragem em meio a tanto azar.


Como eu previra, a água acabou no final do primeiro dia de caminhada. Nossa provisão líquida reduziu-se então à genebra, mas o licor infernal queimava a garganta, e eu nem aguentava mais vê-lo. Achava sua temperatura sufocante. O cansaço paralisava-me. Por mais de uma vez quase caí, inerte. Então parávamos; meu tio ou o islandês reconfortavam-me como podiam. Mas já constatava que o primeiro reagia penosamente contra a fadiga extrema e as torturas da privação da água.

Finalmente, na terça-feira, 7 de julho, arrastando-nos de joelhos, de quatro, chegamos semimortos ao ponto de encontro das duas galerias. Lá permaneci como uma massa inerte, estendido no chão de lava. Eram dez horas da manhã. Encostados na parede, Hans e meu tio tentaram mastigar alguns pedaços de biscoito. Seus lábios intumescidos soltavam longos gemidos. Caí desmaiado.

Depois de algum tempo, meu tio aproximou-se de mim e ergueu-me em seus braços:

– Pobre criança – murmurou, num tom de piedade.

Não estava habituado à ternura do selvagem professor; senti-me tocado por suas palavras. Tomei suas mãos trêmulas entre as minhas. Ele as abandonou, olhando-me. Seus olhos estavam úmidos. Então vi que pegava o cantil pendurado em seu ombro. Para meu grande estupor, aproximou-o de meus lábios.

– Beba – disse.

Será que eu tinha ouvido bem? Meu tio estava louco? Olhei-o com um ar embrutecido. Não queria compreendê-lo.

– Beba – repetiu.

E, erguendo o cantil, esvaziou-o inteiro entre meus lábios Oh, gozo infinito! Um gole de água umedeceu minha boca em fogo, só um, mas foi suficiente para trazer-me de volta à vida que se esvaía. Agradeci a meu tio unindo as mãos.


– Sim – disse ele –, um gole de água, o último! Você está ouvindo? O último! Guardei-o com todo o cuidado no fundo de meu cantil. Por vinte, cem vezes tive de resistir ao terrível desejo de bebê-lo! Mas não, Áxel, estava reservado para você!

– Tio! – murmurei, enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.

– Sim, pobre criança, sabia que, ao chegar nessa encruzilhada, você cairia, semimorto, e guardei minhas últimas gotas de água para reanimá-lo.

– Obrigado, obrigado! – exclamei.

Embora ainda estivesse com sede, recuperei-me um pouco. Os músculos de minha garganta, contraídos até então, relaxaram, e a inflamação de meus lábios passou a doer menos. Já conseguia falar.

– Bem – disse –, só nos resta um caminho. Estamos sem água. Temos de voltar atrás.

Enquanto eu falava, meu tio evitava me olhar; baixava a cabeça; seus olhos fugiam dos meus.

– Temos de voltar – gritei –, voltar ao topo do Sneffels. Que Deus nos dê forças para conseguir subir até o alto da cratera!

– Voltar! – murmurou meu tio, como se respondesse mais a si mesmo do que a mim.

– Sim, voltar e sem perder nem um instante.

Seguiu-se um momento de silêncio bastante longo.

– Então, Áxel – volveu o professor num tom estranho, essas poucas gotas de água não lhe devolveram a coragem e a energia?

– Coragem!

– Vejo que está abatido como antes e que ainda fala com desespero!

Com que tipo de homem eu estava lidando e quais os projetos de seu espírito audacioso?

– O quê? O senhor quer continuar?

– Desistir desta expedição quando tudo indica que ela pode dar certo? Nunca!

– Então devo resignar-me a perecer?

– Não, Áxel, não! Não quero que você morra! Hans vai acompanhá-lo. Deixe-me sozinho!

– Abandoná-lo!

– Deixe-me, eu estou dizendo! Comecei esta viagem e irei até o fim, mesmo que não volte nunca mais. Vá, Áxel, vá embora!

Meu tio parecia extremamente excitado. Sua voz, por um momento suave, voltava a ser dura, ameaçadora. Lutava contra o impossível com uma energia tenebrosa! Não queria abandoná-lo no fundo daquele abismo, mas, por outro lado, o instinto de conservação dizia-me para fugir.

O guia acompanhava a cena com sua indiferença costumeira, mesmo entendendo o que acontecia entre seus dois companheiros. Nossos gestos eram mais do que suficientes para indicar que queríamos arrastar um ao outro para caminhos opostos; Hans, porém, parecia pouco interessado naquele problema que colocava sua vida em risco, pronto para partir se déssemos o sinal de partida, pronto para ficar se seu patrão quisesse.

O que eu não daria naquele momento para que ele me compreendesse! Minhas palavras, meus gemidos, meu tom teriam convencido aquela natureza fria. Eu teria feito com que entendesse e sentisse os perigos de que mal suspeitava. Talvez nós dois conseguíssemos convencer o teimoso professor. Se houvesse necessidade, obrigá-lo-íamos a voltar ao topo do Sneffels!

Aproximei-me de Hans. Pousei minha mão sobre a sua. Ele não se mexeu. Mostrei-lhe o caminho da cratera. Continuou imóvel. Meu rosto ofegante falava de todos os meus sofrimentos. O islandês abanou a cabeça com suavidade, designando meu tio com tranquilidade.

– Master – murmurou

– Patrão! – gritei. – Louco! Não, ele não é o senhor de sua vida! É preciso fugir! É preciso arrastá-lo! Você está me ouvindo? Dá para você me entender?

Peguei Hans pelo braço. Queria obrigá-lo a levantar-se. Lutei com ele. Meu tio interveio.

– Calma, Áxel – disse. – Você nada conseguirá desse servidor impassível. Escute a minha proposta.

Cruzei os braços e encarei meu tio.

– A falta de água – disse – é o único obstáculo à realização de meus projetos. Na galeria leste, feita de lavas, xistos e hulha, não encontramos uma molécula líquida. Talvez tenhamos mais sorte no túnel oeste.

Abanei a cabeça com ar de profunda incredulidade.

– Escute-me até o fim – continuou o professor, forçando a voz. – Enquanto você jazia aqui sem movimento, fui examinar a conformação da segunda galeria. Ela penetra nas entranhas do globo e, em poucas horas, será capaz de levar-nos ao maciço granítico, onde deveremos encontrar muitas nascentes. Esse fato é determinado pela natureza da rocha, e o instinto está de acordo com a lógica para sustentar minha convicção. Eis o que quero propor-lhe. Quando Colombo pediu três dias à sua tripulação para encontrar novas terras, sua tripulação doente, apavorada aquiesceu a seu pedido, e ele descobriu o novo mundo. Eu, o Colombo destas regiões subterrâneas, só lhe peço mais um dia. Se, passado esse prazo ainda não tiver encontrado água, juro-lhe, voltaremos à superfície da terra.

A despeito de minha irritação, fiquei comovido com essas palavras e com a violência de meu tio contra si mesmo para falar daquela forma.

– Muito bem – exclamei –, que seja feita a sua vontade e que Deus recompense sua energia sobre-humana! O senhor só tem mais algumas horas para tentar a sorte. Em frente!

Capítulo XX

De fato, foi preciso racionar. Na hora do jantar, percebi que nossas provisões não durariam mais de três dias. E, terrível expectativa, tínhamos pouca esperança de encontrar qualquer nascente naqueles terrenos da época de transição.

Durante todo o dia seguinte, a galeria exibiu seus intermináveis arcos. Caminhávamos sem dizer quase nada. Estávamos sendo possuídos pelo mutismo de Hans. A estrada não subia, pelo menos de forma sensível. Por vezes, até parecia inclinar-se. Mas essa tendência, muito pouco marcada, não poderia tranquilizar o professor, pois a natureza das camadas não estava se modificando, o que reafirmava o período de transição.

A luz elétrica fazia os xistos, o calcário e os velhos grés vermelhos das paredes faiscarem com esplendor. Parecíamos estar num fosso aberto em Devonshire, que deu seu nome a esse tipo de terreno. As muralhas eram revestidas por magníficos gêneros de mármore, alguns de um cinza-ágata com veios brancos caprichosamente nítidos, outros encarnados ou de um amarelo manchado de vermelho; mais além, amostras de mármore raiado de vermelho-escuro, no qual o calcário se destacava em cores vivas.

A maioria desses mármores apresentava pegadas de animais primitivos. A criação progredira de forma evidente desde a véspera. Em vez de trilobites rudimentares, eu via vestígios de uma ordem mais perfeita; entre outras coisas, peixes ganóides e Sauropteris, nos quais a observação do paleontólogo soube descobrir as primeiras formas dos répteis. Os mares devonianos eram habitados por um grande número de animais daquela espécie, que foram depositados aos milhares nas rochas de nova formação.

Tornava-se evidente que estávamos subindo a escala da vida animal, cujo topo é ocupado pelo homem. Mas o professor Lidenbrock parecia não tomar conhecimento do fato. Esperava duas coisas: que um poço vertical se abrisse a seus pés para permitir-lhe continuar descendo ou que um obstáculo o impedisse de continuar por aquele caminho. Porém, a noite chegou sem que nenhum desses desejos se tornasse realidade.

Na sexta-feira, após uma noite em que comecei a sentir os tormentos da sede, nossa pequena tropa embrenhou-se de novo pelos labirintos da galeria. Após dez horas de caminhada, percebi que a reverberação das lâmpadas nas paredes diminuía singularmente. O mármore, o xisto, o calcário e o grés das muralhas cediam lugar a um revestimento escuro e sem brilho.

Num momento em que o túnel se tornara muito estreito, encostei-me na parede da esquerda. Quando retirei a mão, ela estava completamente negra. Olhei com mais atenção. Estávamos em plena hulheira.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/
– Uma mina de carvão! – gritei.
– Uma mina sem mineiros – respondeu meu tio.

– Como pode saber?

– Eu sei – replicou o professor num tom breve –, e estou certo de que essa galeria perfurada através das camadas de hulha não foi feita por homens. Mas pouco importa se foi construída ou não pela natureza. Está na hora de jantar. Vamos comer.

Hans preparou a refeição. Mal comi e bebi as gotas de água que compunham minha ração. O cantil do guia pela metade era tudo o que restava para matar a sede de três homens. Após terem comido, meus dois companheiros estenderam-se sobre seus cobertores e encontraram no sono o remédio para seu cansaço. Quanto a mim não consegui dormir e contei as horas até de manhã.

No sábado, às seis horas, começamos a caminhar. Vinte minutos depois chegamos a uma ampla escavação. Reconheci então que nenhuma mão humana poderia ter escavado aquela hulheira; teria escorado as abóbadas, que só se sustentavam por um milagre de equilíbrio.

Essa espécie de caverna tinha cem pés de largura por cento e cinquenta de altura. O terreno havia sido violentamente afastado por uma comoção subterrânea. Cedendo a algum impulso poderoso, o maciço terrestre deslocara-se, deixando aquele vasto vazio onde os habitantes da terra penetravam pela primeira vez.

Toda a história do período hulheiro estava inscrita naquelas paredes escuras, e um geólogo poderia acompanhar com facilidade as diversas fases. Os leitos de carvão eram separados por extratos de grés ou de argila compactos e como que esmagados pelas camadas superiores.

Nessa era do mundo que precedeu a era secundária, a Terra foi recoberta por uma vegetação compacta em virtude do calor tropical e da umidade persistente. Uma atmosfera de vapores envolvia todo o globo, escondendo ainda os raios do sol. Daí a conclusão de que as altas temperaturas não provinham desse novo centro. Talvez até mesmo o astro dos dias não estivesse pronto para desempenhar seu brilhante papel. Os “climas” ainda não existiam, e um calor tórrido espalhava-se por toda a superfície do globo, igual no equador e nos pólos. De onde vinha? Do interior do globo.

A despeito das teorias do professor Lidenbrock, um fogo violento espalhava-se pelas entranhas do esferóide; sua ação era sensível até nas últimas camadas da crosta terrestre; privadas da ação benéfica dos eflúvios do sol, as plantas não davam flores nem perfumes, mas suas raízes extraíam muita vida dos terrenos ardentes dos primeiros dias.

Havia poucas árvores, apenas plantas herbáceas, imensos gramados, fetos, licopódios, sigilariáceas, asterofilitas, famílias raras cujos espécimes contavam-se então aos milhares. Ora, deve-se a origem do carvão a essa vegetação exuberante.

A crosta ainda elástica do globo obedecia aos movimentos da massa líquida que recobria. Daí fissuras e desmoronamentos. Arrastadas para baixo das águas, pouco a pouco formaram amontoamentos consideráveis. Então interveio a ação da química natural; no fundo do mar, as massas vegetais a princípio viraram turfa. Depois, graças à influência dos gases e sob o fogo da fermentação, sofreram uma mineralização completa.

Assim formaram-se as imensas camadas de carvão, que o consumo excessivo deve, no entanto, esgotar em menos de três séculos se os povos industriais não tomarem cuidado.

Refletia tudo isso enquanto considerava as riquezas em carvão acumuladas naquela parte do maciço terrestre. Essas, com certeza, nunca seriam exploradas, pois o aproveitamento daquelas minas afastadas exigiria sacrifícios demais. Além disso, para quê, se a hulha ainda pode ser encontrada na superfície da terra em um grande número de regiões? Aquelas camadas intactas que eu via, assim permaneceriam até a última hora do mundo.

Enquanto isso, caminhávamos, e, sozinho, esquecia-me do longo percurso para perder-me em considerações geológicas. A temperatura permanecia mais ou menos a mesma que a da nossa passagem entre as lavas e xistos. Apenas meu olfato sentia um cheiro muito forte de protocarboneto de hidrogênio.

Reconheci imediatamente naquela galeria a presença de uma notável quantidade daquele fluido perigoso, chamado de grisu pelos mineiros, e cuja explosão provocou tantas vezes terríveis catástrofes. Felizmente nosso caminho era iluminado pelos engenhosos aparelhos de Ruhmkorff. Se, por azar, tivéssemos descido àquelas galerias com tochas, uma terrível explosão acabaria a viagem, suprimindo os viajantes.

A excursão na hulheira durou até à noite. Meu tio mal continha a impaciência, provocada pela horizontalidade da estrada. As trevas sempre profundas a vinte passos, impediam-nos de estimar o comprimento da galeria, e eu começava a acreditar que não terminaria nunca quando, de repente, às seis horas, deparamos com um muro. Nenhuma passagem pela direita, pela esquerda, por cima ou por baixo. Chegáramos a um beco sem saída.

– Melhor assim – exclamou meu tio –, agora sei em que me basear. Não estamos no caminho de Saknussemm, e a única alternativa é voltar atrás. Descansemos por uma noite, e em três dias estaremos de volta ao ponto em que as duas galerias se bifurcam.

– Sem dúvida, se nos restarem forças!

– E por que não?

– Por que amanhã já não haverá mais água.

– E nem coragem? – disse o professor, olhando para mim com severidade.

Não ousei responder-lhe.

Capítulo XIX

No dia seguinte, terça-feira, 30 de junho, recomeçamos a descer. Continuávamos a seguir a galeria de lava, verdadeira rampa natural, suave como os planos inclinados que ainda substituem as escadas nas velhas casas. Isso até meio-dia e dezessete, instante preciso em que nos reunimos a Hans, que acabara de parar.

– Ah! – exclamou meu tio. -- Chegamos à extremidade da chaminé.

Olhei ao meu redor. Estávamos no centro de uma encruzilhada, onde terminavam dois caminhos, ambos escuros e estreitos. Por qual deveríamos seguir? Era difícil resolver. Meu tio, entretanto, não quis parecer hesitante diante de mim ou do guia; designou o túnel do leste, e logo estávamos os três dentro dele.

Além disso, qualquer hesitação diante dos dois caminhos teria se prolongado indefinidamente, pois nenhum indício poderia determinar a opção por um ou por outro. Tínhamos de colocar-nos nas mãos do acaso.

A inclinação da nova galeria era pouco sensível, e seu perfil bastante desigual. Por vezes, uma sucessão de arcos de abóbada desenvolvia-se diante de nós como nas naves de uma catedral gótica. Os artistas da Idade Média teriam podido estudar ali todas as formas daquela arquitetura religiosa cujo gerador é a ogiva.

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Um pouco além, tivemos de nos inclinar para atravessar os arcos rebaixados de estilo romano, e grandes pilares encastrados no maciço dobravam-se sobre o assento das abóbadas. Em certos trechos, essa disposição era substituída por substruções baixas, que pareciam obras de castores, e rastejávamos por passagens estreitas. O calor era suportável. Involuntariamente pensava em sua intensidade quando as lavas vomitadas pelo Sneffels precipitavam-se por aquele caminho hoje tão tranquilo. Imaginava as torrentes de fogo quebradas pelos ângulos da galeria e o acúmulo de vapores superaquecidos naquele ambiente tão estreito!

“Contanto que o velho vulcão não resolva se recuperar”, pensava. Não comuniquei minhas reflexões ao tio Lidenbrock, que não as compreenderia. Seu único pensamento era seguir em frente. Caminhava, escorregava e até descambava, com a convicção de que, afinal de contas, era melhor admirar.

Às seis da tarde, após um passeio um tanto extenuante, havíamos percorrido mais duas milhas para o sul, mas só descêramos um quarto de légua em profundidade. Meu tio deu o sinal de descanso, comemos sem conversar muito, e dormimos sem pensar demais.

Nossas disposições para a noite eram bem simples; um cobertor de viagem, no qual nos enrolávamos, era toda a nossa roupa de cama. Não tínhamos por que temer o frio ou visitas inoportunas. Os viajantes que se embrenham pelos desertos da África, ou pelas florestas do Novo Mundo, são obrigados a montar guarda durante as horas de sono. Aqui, solidão absoluta e segurança completa. Não precisávamos ter medo de nenhuma raça malfeitora, selvagem ou de animais ferozes.

No dia seguinte, acordamos restabelecidos e dispostos. Continuamos a andar. Seguíamos por um caminho de lava como na véspera. Impossível reconhecer a natureza dos terrenos que atravessava. Em vez de penetrar nas entranhas do globo, o túnel tendia a ficar completamente horizontal. Achei que estávamos voltando para a superfície da terra. Essa disposição tornou-se tão manifesta por volta das dez da manhã, e, consequentemente tão cansativa, que fui obrigado a moderar nossa marcha.

– O que houve, Áxel? – perguntou o professor, impaciente.

– Acontece que não aguento mais – respondi.

– O quê! Depois de três horas de passeio num caminho tão fácil!

– Não estou dizendo que não é fácil, mas é extenuante.

– Como! Estamos descendo!

– Se o senhor me permite, estamos subindo!

– Subindo! – resmungou meu tio dando de ombros.

– É claro! Faz uma meia hora que as inclinações se modificaram, e se continuarem assim, com certeza voltaremos à terra da Islândia.

O professor abanou a cabeça como alguém que não quer ser convencido. Tentei reiniciar a conversa. Ele não me respondeu e deu o sinal de partida. Reparei que seu silêncio não passava de mau humor concentrado. Peguei meu fardo com coragem e segui com rapidez atrás de Hans, que precedia meu tio. Fazia questão de não me afastar.

Minha grande preocupação era não perder meus companheiros de vista. Tremia ao pensamento de extraviar-me nas profundezas daquele labirinto. Além disso, embora o caminho ascendente se tornasse mais penoso, consolava-me pensar que me aproximava da superfície da terra. Era uma esperança. Cada passada confirmava-o, e gozava antecipadamente a ideia de rever minha pequena Grauben.

Ao meio-dia, as paredes da galeria mudaram de aspecto, o que percebi pelo enfraquecimento da luz elétrica refletida nas muralhas. A rocha viva substituía o revestimento de lava. O maciço era composto de camadas inclinadas, geralmente dispostas na vertical. Estávamos em plena época de transição, em pleno período siluriano.

– É evidente – exclamei – que os sedimentos das águas formaram, na segunda era da Terra, esses xistos, esses calcários e esses grés! Estamos deixando o maciço granítico! Parecemos com as pessoas de Hamburgo que pegam a estrada de Hanôver para ir a Liebeck!

Devia ter guardado essas observações para mim. Mas meu temperamento de geólogo foi maior que a prudência, e o tio Lidenbrock ouviu minhas exclamações.

– O que há com você? – perguntou.

– Veja! – respondi, mostrando-lhe a sucessão variada de grés, calcários e os primeiros vestígios dos terrenos cobertos de ardósia.

– E daí?

– Acabamos de chegar ao período em que apareceram as primeiras plantas e os primeiros animais!

– Ah, você acha?

– Mas olhe, examine, observe!

Obriguei o professor a passear sua lanterna pelas paredes da galeria. Esperava que exclamasse algo. Mas ele nada disse e continuou a andar. Será que me entendera? Será que não queria concordar por amor-próprio de tio e cientista que errara ao optar pelo túnel do leste, ou insistia em reconhecer aquela passagem até o fim? Era evidente que abandonáramos a rota das lavas e que aquele caminho não nos levaria ao centro do Sneffels.

No entanto, perguntava-me se não estava dando importância demais à modificação dos terrenos. Não estava enganando a mim mesmo? Será que estávamos realmente atravessando as camadas de rocha sobrepostas ao maciço granítico?

“Se eu tiver razão”, pensava, “tenho de encontrar algum vestígio de planta primitiva; e então ele terá de dar o braço a torcer. Vou procurar”. Não andara nem cem passos quando encontrei provas incontestáveis. Era isso mesmo, pois, na época siluriana, os mares abrigavam mais de mil e quinhentas espécies vegetais ou animais. Acostumados com o solo duro das lavas, meus pés pisaram de repente numa poeira composta de restos de plantas e conchas.

Nas paredes, distinguiam-se claramente marcas de algas e licopódios. Não enganariam o professor Lidenbrock. Mas acho que ele não queria ver e prosseguia num passo invariável. Era teimosia demais. Não consegui mais me conter. Peguei uma concha em perfeito estado, que provavelmente pertencera a um animal semelhante ao bicho-de-conta atual, fui até meu tio e disse:

– Veja!

– O que é que tem? - respondeu tranquilamente. – É a concha de um crustáceo da ordem desaparecida dos trilobites. Nada além disso.

– Mas o senhor não conclui que...

– O mesmo que você? Claro. Sem dúvida. Abandonamos a camada de granito e o caminho das lavas. É possível que eu tenha me enganado. Mas só terei certeza do meu erro quando chegarmos ao final desta galeria.

– O senhor tem razão em agir dessa forma, meu tio, e eu não hesitaria em aprová-lo se não tivéssemos de temer um perigo cada vez mais ameaçador.

– Qual?

– A falta de água.

– Muito bem. Racionaremos, Áxel.

Capítulo XVIII

Às oito horas da manhã, fomos acordados por um raio de luz. As mil facetas da lava das paredes recolhiam-no à sua passagem e distribuíam-no como uma chuva de faíscas. A claridade era forte o suficiente para que distinguíssemos os objetos que nos rodeavam.

– Então, Áxel, o que você me diz de tudo isso? – exclamou meu tio, esfregando as mãos. – Você já passou uma noite tão tranquila assim em nossa casa da Königstrasse? Nada de barulho de charretes, nada de gritos dos comerciantes nem vociferações dos barqueiros!

– É verdade que tudo está bem calmo no fundo desse poço, mas essa calma tem algo de assustador.

– Vamos – gritou meu tio –, guarde seu medo para mais tarde. Só penetramos uma polegada nas entranhas da terra!

– O que o senhor quer dizer com isso?

– Que alcançamos apenas o solo da ilha. Esse longo tubo vertical que dá na cratera do Sneffels termina mais ou menos no nível do mar.

– O senhor tem certeza?

– Absoluta. Consulte o barômetro.

De fato, após ter voltado a subir no instrumento à medida que descíamos, o mercúrio parara em vinte e nove polegadas.

– Como você vê – continuou o professor –, só temos ainda a pressão de uma atmosfera, e estou impaciente para que o manômetro substitua o barômetro.

O instrumento iria tornar-se realmente inútil assim que o peso do ar ultrapassasse sua pressão, calculada no nível do oceano.

– Mas essa pressão sempre crescente não pode se tornar penosa?

– Não. Estamos descendo lentamente, e nossos pulmões irão acostumar-se a respirar uma atmosfera mais comprimida. Falta ar aos aeronautas que sobem alto demais nas camadas superiores. Nós teremos provavelmente ar demais. Prefiro assim. Não percamos mais tempo. Onde está o pacote que nos precedeu?

Lembrei-me então que o procuráramos em vão na véspera à noite. Meu tio fez a mesma pergunta a Hans, que, após ter perscrutado com seus olhos de caçador, respondeu:

– Der huppe!

– Lá em cima.

De fato, o pacote ficara pendurado numa saliência de rocha, cerca de cem pés acima de nós. Imediatamente o ágil islandês subiu até lá como um gato. e em poucos minutos o pacote estava ao nosso lado.

– Agora – disse meu tio – comamos, mas comamos como pessoas que podem ter uma longa jornada pela frente.

O biscoito e a carne seca foram regados com alguns goles de água com genebra. Terminada a refeição, meu tio tirou do bolso um bloco destinado às observações; pegou sucessivamente seus vários instrumentos e anotou os seguintes dados:

Segunda-feira, 1º de julho
Cronômetro: 8h 7min da manhã
Barômetro: 29 p. 7 l.
Termômetro: 6”
Direção: ESE

A última observação concernia à galeria obscura e foi indicada pela bússola.

– Agora, Áxel – exclamou o professor com entusiasmo –, vamos embrenhar-nos de verdade nas entranhas do globo. É nesse preciso momento que nossa viagem vai começar.

Com essas palavras, meu tio pegou com uma mão o aparelho de Ruhmkorff pendurado em seu pescoço; com a outra, provocou o contato da corrente elétrica com a serpentina da lanterna, e uma luz bastante viva dissipou as trevas da galeria.

Hans carregava o segundo aparelho, igualmente ativado. Essa aplicação engenhosa da eletricidade permitia-nos caminhar por muito tempo, criando um dia artificial, mesmo no meio dos gases mais inflamáveis.

– Em frente! – ordenou meu tio.

Cada um de nós pegou seu fardo. Hans encarregou-se de empurrar o pacote com as cordas e as roupas. Entramos na galeria, eu em terceiro lugar. No momento de submergir naquele corredor estreito, ergui a cabeça e vi, pela última vez, no final do tubo imenso, o céu da Islândia “que jamais voltaria a ver”.

Na última erupção de 1229, a lava abrira um caminho para si por aquele túnel. Revestia o seu interior com um verniz espesso e brilhante, onde a luz elétrica se refletia, tornando-se cem vezes mais intensa. O problema do percurso consistia em não escorregar depressa demais por uma vertente com inclinação de mais ou menos quarenta e cinco graus; felizmente algumas erosões, alguns inchaços faziam as vezes de degraus, e nós só tínhamos de descer, deixando nossas bagagens, amarradas a uma longa corda, caírem.

Mas aquilo que formava degraus para nossos pés, tornava-se estalactite nas outras paredes. Porosa em alguns sítios, a lava apresentava pequenas ampolas arredondadas: cristais de quartzo opacos, enfeitados por límpidas gotas de vidro e suspensos na abóbada como lustres, pareciam acender-se quando passávamos. Era como se os espíritos do abismo estivessem iluminando seu palácio para receber os hóspedes da terra.

– É maravilhoso! – gritei involuntariamente. – Meu tio, que espetáculo! Veja os matizes da lava, que vão do vermelho-amarronzado ao amarelo-brilhante através de graduações insensíveis! E esses cristais que parecem globos luminosos!

– Ah, finalmente você está entrando no espírito da expedição! – respondeu meu tio. – Se você já acha isso maravilhoso, imagine o resto! Vamos, vamos!

Deveria ter dito “escorreguemos”, pois largávamos nossos corpos pelas vertentes inclinadas. Era a Facilis descensus Averni de Virgílio. A bússola, que eu consultava com frequência, indicava a direção sudeste com um rigor imperturbável. Aquela corrente de lava não obliquava nem numa direção nem noutra. Tinha a inflexibilidade da linha reta.

Entretanto, o calor não aumentara de maneira sensível. O que dava razão às teorias de Davy, e por mais de uma vez consultei o termômetro com surpresa. Duas horas depois da partida, continuava marcando dez graus, ou seja, um aumento de quatro graus, o que me autorizava a pensar que nossa descida era mais horizontal do que vertical. Quanto a saber exatamente a nossa profundidade, nada mais fácil, o professor media exatamente os ângulos de desvio e de inclinação do percurso, mas guardava para si o resultado de suas observações. Por volta de oito horas da noite, mandou que parássemos. Hans sentou-se imediatamente.

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Penduramos as lâmpadas numa saliência de lava. Estávamos numa espécie de caverna onde não faltava ar. Muito pelo contrário. Éramos atingidos por certos sopros. O que os produzia? A que agitação atmosférica atribuir sua origem? Era um problema que não tentava resolver naquele momento. A fome e o cansaço tornavam-me incapaz de raciocinar. Não é possível descer por sete horas consecutivas sem gastar energia. Eu estava exausto. Foi com grande prazer, portanto, que ouvi a ordem de parada. Hans espalhou algumas provisões sobre um bloco de lava, e todos comemos com apetite. Havia algo que me preocupava: já consumíramos metade de nossa reserva de água. Meu tio contava reabastecer-se nas nascentes subterrâneas, mas até então não havíamos encontrado nenhuma. Não consegui evitar chamar sua atenção para o problema.

– Essa ausência de nascentes o surpreende? – disse ele.

– Claro, e até me preocupa. Só temos água para mais cinco dias.

– Fique tranquilo, Áxel, garanto-lhe que encontraremos água e muito mais do que necessitamos.

– Quando?

– Assim que saírmos desse invólucro de lava. Como você quer que as nascentes jorrem através dessas paredes?

– E se essa corrente se prolongar por muito tempo? Parece que ainda não descemos muito na vertical.

– Por que essa suspeita?

– Porque, se tivéssemos avançado bastante para dentro da crosta terrestre o calor seria mais forte.

– Segundo a sua opinião – respondeu meu tio. – Qual a temperatura que o termômetro está indicando?

– Apenas quinze graus, o que indica que a temperatura só aumentou nove graus desde a nossa partida.

– Conclua.

– Eis a minha conclusão. De acordo com as observações mais precisas, a temperatura aumenta um grau a cada cem pés no interior do globo. Mas algumas condições de localidade podem modificar esses números. Assim, em Iacusca, na Sibéria, observou-se que a temperatura aumentava um grau a cada trinta e seis pés. É claro que essa diferença depende da condutibilidade das rochas. Acrescentaria também que, nas proximidades de um vulcão extinto e através do gnaisse, observou-se que a temperatura aumentava apenas um grau a cada cento e vinte e cinco pés. Tomemos, portanto, essa última hipótese, que é a mais favorável, e façamos nossos cálculos.

– Calcule, meu filho.

– Nada mais fácil – disse, dispondo os números em meu caderninho: – nove vezes cento e vinte e cinco pés dá mil cento e vinte e cinco pés de profundidade.

– Corretíssimo.

– E então?

– Então que, segundo minhas observações, já estamos a dez mil pés abaixo do nível do mar.

– Seria possível?

– Claro, ou os números não são mais números!

Os cálculos do professor estavam corretos. Já ultrapassáramos em seis mil pés as maiores profundezas alcançadas pelo homem, como as minas de Kitz-Bahl, no Tirol, e as de Württemberg, na Boêmia. A temperatura, que deveria ser de oitenta e um graus naquele lugar, era de apenas quinze. O que provocava reflexões.

Capítulo XVII

Começava a verdadeira viagem. Até então, o cansaço tinha prevalecido sobre as dificuldades; agora iríamos enfrentá-las realmente.

Ainda não olhara para aquele poço insondável onde iria embrenhar-me. Chegara o momento. Ainda era possível aceitar a aventura ou recusar-me a tentá-la. Mas tive vergonha de recuar diante do caçador. Hans aceitava a aventura tão tranquilamente, com tal indiferença, com tamanha despreocupação diante de qualquer perigo que corei ante a ideia de ser menos corajoso do que ele. Se estivesse sozinho, não hesitaria em começar uma série de discussões; na presença do guia, calei-me. Uma parte de minhas lembranças correu para a minha bela Virlandesa, e aproximei-me da chaminé central.

Disse que media cem pés de diâmetro. Inclinei-me sobre uma pedra que pendia e olhei. Fiquei com os cabelos em pé. O sentimento do vazio tomou conta de mim. Senti o centro de gravidade deslocando-se em mim. E a vertigem subindo à cabeça como uma embriaguez. Nada mais capitoso do que a atração pelo abismo. Ia cair. Uma mão segurou-me. A de Hans. Decididamente, não assistira a aulas suficientes “de abismo” na Frelsers-Kirk de Copenhague.

No entanto, se tivesse pelo menos ousado dar uma olhada naquele poço, teria percebido sua conformação. Suas paredes praticamente verticais apresentavam muitas saliências que deveriam facilitar a descida. Mas embora não faltassem escadas, não havia rampa. Uma corda amarrada no orifício bastaria para nos sustentar; como desamarrá-la, porém, quando chegássemos à sua extremidade inferior?

Meu tio empregou um meio bem simples para vencer a dificuldade. Desenrolou uma corda da grossura de um polegar, com quatrocentos pés de comprimento; primeiramente deixou metade dela cair, depois enrolou-a ao redor de um bloco de lava saliente e jogou a outra metade na chaminé. Cada um de nós poderia então descer reunindo nas mãos as duas metades da corda que não podia escapar; assim que descêssemos duzentos pés, nada mais simples do que recolhê-la, soltando uma ponta e rebocando a outra. Depois continuaríamos o exercício ad infinitum.

– Agora – disse meu tio, após ter acabado esses preparativos –, trataremos da bagagem; será dividida em três pacotes; cada um de nós levará um deles às costas; é claro que estou falando apenas dos objetos frágeis.

E é claro que o audacioso professor não nos incluía nessa última categoria.

– Hans, pegue as ferramentas e uma parte dos víveres. Áxel, você fica com mais um terço dos víveres e das armas; eu levarei o resto dos víveres e os instrumentos delicados.

– Mas – eu disse – e as roupas e essa massa de cordas e escadas, quem as carregará?

– Elas descerão sozinhas.

– Como? – eu quis saber.

– Você já vai ver.

Meu tio gostava de utilizar métodos arriscados sem hesitar. Às suas ordens, Hans reuniu todos os objetos que não eram frágeis num único pacote, que, solidamente amarrado, foi simplesmente jogado no buraco.

Ouvi aquele mugido sonoro provocado pelo deslocamento das camadas de ar. Debruçado sobre o abismo, meu tio acompanhava com um ar satisfeito a descida da bagagem e só se levantou após perdê-la de vista.

– Bem – disse ele –, agora é nossa vez.

Pergunto a qualquer homem de boa fé se é possível escutar tais palavras sem estremecer.

O professor amarrou o pacote de instrumentos em suas costas; Hans pegou o das ferramentas e eu, o das armas. A descida começou na seguinte ordem: Hans, meu tio e eu. Aconteceu num profundo silêncio, perturbado apenas pela queda de pedaços de pedra que se precipitavam no abismo.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

Fui, de certa forma, escorregando; uma de minhas mãos apertava freneticamente a corda dupla, a outra segurava o bastão de ferro. Era dominado por uma única ideia: temia perder o ponto de apoio. A corda parecia-me bem frágil para suportar o peso de três pessoas. Utilizava-a o mínimo possível, operando milagres de equilíbrio nas saliências de lava que meu pé tentava agarrar fazendo as vezes de mão. Quando um desses degraus escorregadios se abalava sob os pés de Hans, ele dizia com sua voz tranquila:

– Gif akt!

– Cuidado! – repetia meu tio.

Depois de meia hora, chegamos à superfície de uma rocha bem encaixada na parede da chaminé. Hans puxou uma das pontas da corda; a outra ergueu-se no ar; após ultrapassar o rochedo superior, voltou a cair, raspando nos pedaços de pedra e de lava, espécie de chuva, ou melhor, de granizo bem perigoso. Debruçando-me nas bordas de nosso platô estreito, notei que o fundo do buraco ainda era invisível. Voltamos a manobrar a corda, e meia hora depois já havíamos descido mais duzentos pés.

Não sei se um geólogo fanático teria tentado estudar durante a descida a natureza dos terrenos que o rodeavam. Eu nem me preocupei com isso; pouco me importava que fossem pliocenos, miocenos, eocenos, cretáceos, jurássicos, triássicos, permianos, carboníferos, devonianos, silurianos ou primitivos. Mas com certeza o professor examinou-os ou tomou nota, pois, numa das paradas, disse-me:

– Quanto mais desço, mais tenho fé. A disposição desses terrenos vulcânicos dá toda a razão à teoria de Davy. Estamos em pleno solo primordial, no qual aconteceu a operação química dos metais em chamas em contato com o ar e a água. Rejeito totalmente o sistema de um calor central. Aliás, logo poderemos constatá-lo.

Sempre a mesma conclusão. Dá para entender que eu não visse a menor graça em discutir. Meu silêncio foi considerado um assentimento e recomeçamos a descer. Ao final de três horas, ainda não enxergava o fundo da chaminé. Quando levantava a cabeça, via seu orifício diminuindo sensivelmente. Em decorrência da leve inclinação, suas paredes tendiam a aproximar-se. Estava cada vez mais escuro.

Continuávamos descendo. Parecia-me que as pedras que caíam das paredes desapareciam com uma repercussão mais suave e que estavam chegando com rapidez ao fundo do abismo. Como tinha o cuidado de examinar com exatidão nossas manobras com a corda, sabia exatamente que profundidade havíamos atingido e quanto tempo passara.

Repetíramos catorze vezes a manobra que durava meia hora. Isso perfazia sete horas, mais catorze ou quinze minutos de descanso, ou três horas e meia. Ao todo, dez horas e meia. Partíramos à uma, deviam ser onze horas. Quanto à profundidade que havíamos alcançado, essas catorze manobras com uma corda de duzentos pés davam dois mil e oitocentos pés.

Naquele momento, Hans falou:

– Halt!

Parei justamente quando meus pés estavam por se chocar com a cabeça de meu tio.

– Chegamos – disse o último.

– Onde? – perguntei, escorregando para perto dele.

– No fundo da chaminé perpendicular.

– Não há outra saída?

– Claro que há, uma espécie de corredor que estou entrevendo, e que obliqua para a direita. Veremos isso amanhã. Agora vamos jantar e dormir.

A escuridão ainda não era total. Abrimos a sacola de provisões, comemos e tentamos nos acomodar da melhor forma possível numa cama de pedras e detritos de lava. E quando, deitado de costas, abri os olhos, vi um ponto brilhante na extremidade daquele tubo de três mil pés de comprimento que se transformava numa gigantesca luneta.

Era uma estrela sem qualquer cintilação, que, segundo meus cálculos, devia ser Beta da Ursa Menor. Adormeci profundamente.
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