XXV - Em que se dá uma olhada em São Francisco, em dia de meeting

Eram sete da manhã quando Mr. Phileas Fogg, Mrs. Aouda e Passepartout puseram o pé no continente americano – se é que se pode dar esse nome ao cais flutuante em que desembarcaram. Estes cais, subindo e descendo com a maré, facilitam a carga e a descarga dos navios. Neles é que atracam os clippers de todas as dimensões, os steamers de todas as nacionalidades, e esses steam-boats de muitos andares, que fazem o serviço do Sacramento e de seus afluentes. É aí também que se amontoam os produtos de um comércio que se estende ao México, Peru, Chile, Brasil, Europa, Ásia, a todas as ilhas do oceano Pacífico.

Passepartout, em sua alegria de tocar afinal a terra americana, tinha entendido dever fazer seu desembarque executando um salto mortal no melhor estilo. Mas quando caiu sobre o cais, cujo tabuado estava carunchado, não conseguiu fazer a volta. Todo desconsolado com a maneira pela qual “tomara pé” sobre o novo continente, o honesto moço soltou um grito formidável, que fez voar um grande número de cormorões e pelicanos, hóspedes habituais dos cais móveis.


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Mr. Fogg, assim que desembarcou, informou-se da hora em que partia o primeiro trem para Nova York. Era às seis da tarde. Mr. Fogg tinha pois um dia inteiro para gastar na capital californiana. Fez vir um veículo para Mrs. Aouda e para si. Passepartout subiu para a boléia, e o veículo, a três dólares a corrida, dirigiu-se para o International Hotel.

Do lugar elevado que ocupava, Passepartout observou com curiosidade a grande cidade americana; ruas largas, casas baixas bem alinhadas, igrejas e templos de um gótico anglo-saxão, docas imensas, armazéns como palácios, uns de madeira, outros de tijolo; nas ruas, caruagens numerosas, ônibus, “cars” de tramways, e sobre as calçadas encobertas, não apenas Americanos e Europeus, mas também Chineses e Indianos – enfim o necessário para compor uma população de mais de duzentos mil habitantes.

Passepartout ficou muito surpreso com o que viu. Ele estava ainda na cidade legendária de 1849, na cidade dos bandidos, dos incendiários e dos assassinos, vindos em busca das pepitas, imenso cafarnaum de todos os desclassificados, onde se jogava ouro em pó, um revólver numa mão e um punhal na outra. Mas “esse bom tempo” já tinha passado. São Francisco apresentava o aspecto de uma grande cidade comercial. A alta torre da Municipalidade, onde vigiavam os sentinelas, dominava um conjunto de ruas e de avenidas, que se cruzavam em ângulos retos, entre as quais se abriam praças verdejantes; depois uma cidade chinesa que parecia ter sido importada do Celeste Império em uma caixa de brinquedo. Nada de sombreros, nada de camisas vermelhas, nada de índios emplumados, mas chapéus de seda e roupas pretas, trajadas por um grande número de gentleman dotados de uma atividade devoradora. Certas ruas, entre outras Montgommery Street – a Regent Street de Londres, o Boulevard des Italiens de Paris, a Broadway de Nova York – eram ladeadas por lojas esplêndidas que ofereciam à sua clientela os produtos do mundo inteiro.

Quando Passepartout chegou ao International Hotel, não lhe parecia ter saído de Londres.

O rés-do-chão do hotel era ocupado por um imenso “bar”, espécie de café-restaurante gratuito, aberto a todos, que poderiam ali consumir carne seca, sopa de ostras, biscoitos e chester, sem terem que abrir a carteira. Só se paga pela bebida, ale, porto ou xerez, se sua fantasia o levar a beber algo. Passepartout achou isso “muito americano”.

O restaurante do hotel era confortável. Mr. Fogg e Mrs. Aouda sentaram-se a uma mesa e foram abundantemente servidos em pratos liliputinianos por Negros do mais belo negro.

Depois de almoçar, Phileas Fogg, acompanhado de Mrs. Aouda, deixou o hotel para ir ao consulado inglês, visar seu passaporte. Na calçada encontrou o criado, que lhe perguntou se, antes de pegar a estrada de ferro do Pacífico, não seria mais prudente comprar algumas dúzias de rifles Enfield ou de revólveres Colt. Passepartout ouvira falar de Sioux e de Pawnies, que param os trens como simples ladrões espanhóis. Mr. Fogg respondeu que era uma precaução inútil, mas deu-lhe liberdade para agir como bem lhe aprouvesse. Depois dirigiu-se para o escritório do agente consular.

Phileas Fogg nem tinha dado duzentos passos quando, “pelo maior dos acasos”, encontrou Fix. O inspetor mostrou-se extremamente surpreso. Como! Mr. Fogg e ele tinham feito juntos a travessia do Pacífico, e não tinham se encontrado no navio! Fosse como fosse, Fix não podia deixar de se sentir honrado em tornar a ver o gentleman a quem devia tanto, e, como os seus negócios o chamavam à Europa, ficaria encantado em prosseguir viagem em tão agradável companhia.

Mr. Fogg respondeu que a honra seria sua, e Fix – que insistia em não o perder de vista – pediu permissão para acompanhá-los na visita a esta curiosa cidade de São Francisco. Foi-lhe concedida.

Eis pois Mrs. Aouda, Mr. Fogg e Mr. Fix passeando despreocupadamente pelas ruas. Logo estavam na Montgommery Street, onde a afluência popular era enorme. Nas calçadas, no meio da rua, sobre os trilhos dos tramways, apesar da passagem incessante dos coaches e dos ônibus, no interior das lojas, nas janelas de todas as casas, e mesmo sobre os telhados, multidão imensa. Homens-sanduíches circulavam na multidão. Bandeirinhas e bandeirolas flutuavam ao vento. Gritos eclodiam por toda parte.

– Hurrah para Kamerfield!

– Hurrah para Mandiboy!

Era um meeting. Pelo menos foi o que pensou Fix, e o que disse a Mr. Fogg, acrescentando:

– Faríamos talvez melhor, senhor, em não entrar nesta confusão. Daí só se tira alguns socos.

– Com efeito, respondeu Phileas Fogg, e os socos, por serem políticos, não deixam de ser socos!

Fix achou que devia sorrir ao ouvir esta observação, e, para verem sem se envolverem na bagunça, Mrs. Aouda, Phileas Fogg e ele postaram-se no topo de uma escada que dava para um terraço, situado no fim da Montgommery Street. Diante deles, do outro lado da rua, entre o wharf de um comerciante de carvão e a loja de um negociante de petróleo, localizava-se uma grande plataforma ao ar livre, para a qual a multidão parecia convergir.

E então, por quê era este meeting? Qual seria a ocasião que o motivava? Phileas Fogg o ignorava totalmente. Tratar-se-ia da nomeação de um alto funcionário militar ou civil, de um governador de Estado ou de um membro do Congresso? Poderia imaginar que fosse, pela animação extraordinária que tomava conta da cidade

Neste momento um movimento considerável se produziu na multidão. Todas as mãos estavam levantadas. Algumas, solidamente fechadas, pareciam erguer-se e abaixar-se rapidamente em meio a gritos – maneira enérgica, sem dúvida, de formular um voto. Uma maré agitava a massa que refluía. As bandeiras oscilavam, desapareciam por um instante, reapareciam em farrapos. As ondulações da multidão propagavam-se até a escada, enquanto que todas as cabeças amontoadas se agitavam à superfície como um mar subitamente tocado por uma borrasca. O número de chapéus pretos diminuía a olhos vistos, e a maior parte deles parecia ter perdido sua altura normal.

– É evidentemente um meeting, disse Fix, e a questão que o provocou deve ser palpitante. Não seria nada de admirar que fosse ainda a questão do Alabama, se bem que já esteja resolvida.

– Talvez, respondeu simplesmente Mr. Fogg.

– Em todo o caso, retomou Fix, dois campeões se defrontam, o digno Kamerfield e o digno Mandiboy.

Mrs. Aouda, de braços dados com Phileas Fogg, contemplava com surpresa esta cena tumultuosa, e Fix ia perguntar a um de seus vizinhos a razão de tamanha efervescência popular, quando um movimento mais notável se pronunciou. Os hurrahs, as imprecações, redobraram. Os mastros de bandeira transformaram-se em armas ofensivas. Mais mãos, punhos por todo lado. Do alto dos veículos parados, e dos ônibus enfileirados em seu trajeto, trocavam-se petardos. Tudo servia de projétil. Garrafas e calçados descreviam no ar trajetórias extensas, e pareceu mesmo que alguns revólveres misturaram às vociferações da multidão suas detonações nacionais.

A turba aproximou-se da escada e refluiu dos primeiros degraus. Um dos partidos estava sendo evidentemente repelido, sem que os simples espectadores pudessem reconhecer se a vantagem ficava com Mandiboy ou com Kamerfield.

– Parece-me prudente nos retirarmos, disse Fix, que não desejava que o “seu homem” fosse maltratado ou se metesse em qualquer confusão. Se a questão envolve a Inglaterra, e nos reconhecem, ficaremos envolvidos nesta bagunça.

– Um cidadão inglês... respondeu Phileas Fogg.

Mas o gentleman não pôde terminar a frase. Por detrás dele, do terraço que precedia a escada, partiram uivos espantosos. Bradavam: Hurrah! Hip! Hip! Mandiboy! Era uma leva de eleitores que chegava de reforço, atacando pelo flanco os partidários de Kamerfield.

Mr. Fogg, Mrs. Aouda e Fix encontraram-se entre dois fogos. Era muito tarde para escapar. Esta torrente de homens, armados com bengalas chumbadas e com porretes, era irresistível. Phileas Fogg e Fix, na defesa da jovem, foram horrivelmente sacudidos. Mr. Fogg, não menos fleumático do que de costume, quis defender-se com as armas naturais que a natureza pôs na extremidade dos braços de todo inglês, mas inutilmente. Um homenzarrão de barba avermelhada, rosto afogueado, ombros largos, que parecia ser o chefe do bando, levantou seu formidável punho sobre Mr. Fogg, e teria gravemente maltratado o gentleman, se Fix, por dedicação, não tivesse recebido o golpe em seu lugar. Um enorme galo se desenvolveu instantaneamente sob o chapéu de seda do detetive, transformado em simples boné.


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– Yankee! disse Mr. Fogg, lançando ao seu adversário um olhar de profundo desprezo.

– Inglês! respondeu o outro.

– Nós nos reencontraremos!

– Quando quiser. O seu nome?

– Phileas Fogg. O seu?

– Coronel Stamp W. Proctor.

Depois, a maré passou. Fix foi derrubado e se levantou, com a roupa despedaçada, mas sem ferimentos sérios. Seu paletó de viagem tinha sido separado em duas partes desiguais, e as suas calças pareciam-se com estes calções que certos Indianos – questão de moda – só vestem depois de lhes terem tirado os fundilhos. Mas, em suma, Mrs. Aouda tinha sido poupada, e, só, Fix tinha ganho seu murro.

– Obrigado, disse Mr. Fogg ao inspetor, logo que saíram da multidão.

– Não há de que, respondeu Fix, mas vamos...

– Aonde?

– A uma loja de roupas.

Com efeito, esta visita era oportuna. As vestes de Phileas Fogg e de Fix estavam em frangalhos, como se estes dois gentleman tivessem brigado por causa dos dignos Kamerfield e Mandiboy.

Uma hora depois, estavam convenientemente vestidos e penteados. Em seguida voltaram ao Internacional Hotel.

Passepartout esperava seu patrão, armado com meia dúzia de revólveres de seis tiros e fogo central. Quando viu Fix em companhia de Mr. Fogg, fechou a cara. Mas Aouda, tendo-lhe narrado em poucas palavras o que se passara, sossegou-o. Evidentemente Mr. Fix não era mais um inimigo, era um aliado. Mantinha a sua palavra.

Quando o jantar terminou, foi trazido um coach, que deveria conduzir os viajantes e seus pertences à estação. No momento de subir para o veículo, Mr. Fogg disse a Fix:

– Voltou a ver o coronel Proctor?

– Não, respondeu Fix.

– Voltarei à América para o reencontrar, disse friamente Phileas Fogg. Não seria conveniente que um cidadão inglês se deixasse tratar assim.

O agente sorriu e não respondeu. Mas, como se vê, Mr. Fogg era dessa raça de ingleses que, se não toleram o duelo em seu país, batem-se no estrangeiro, quando se trata de defender a honra.

Às seis menos um quarto, os viajantes chegaram à estação e encontraram o trem prestes a partir. No momento em que Mr. Fogg ía embarcar, avistou um empregado e chegando-se a ele:

– Meu amigo, disse-lhe, não houve hoje alguns tumultos em São Francisco?

– Era um meeting, senhor, respondeu o empregado.

– Contudo, parece-me que notei uma certa animação nas ruas.

– Tratava-se simplesmente de um meeting organizado para uma eleição.

– Eleição para um cargo importantíssimo, sem dúvida? perguntou Mr. Fogg.

– Não, senhor, de um juiz de paz.

Depois desta resposta, Phileas Fogg subiu para o vagão, e o trem partiu a todo vapor.

XXIV - Durante o qual se realizou a travessia do oceano Pacífico

O que aconteceu quando chegaram perto de Shangai, já se sabe. Os sinais feitos pela Tankadère tinham sido notados pelo paquete para Yokohama. O capitão, vendo uma bandeira a meio pau, dirigira-se para a pequena goleta. Instantes depois Phileas Fogg, pagando as passagens pelo preço combinado, punha no bolso do patrão John Bunsby quinhentas e cinquenta libras (13.750 F). Depois, o respeitável gentleman, Mrs. Aouda e Fix tinham subido a bordo do vapor, que logo se pôs a caminho para Nagasaki e Yokohama.

Tendo chegado naquela mesma manhã, 14 de novembro, Phileas Fogg, deixando Fix ir tratar de seus assuntos, tinho ido até o Carnatic e lá soube, para grande felicidade de Mrs. Aouda – e talvez a sua, mas que não deixou transparecer – que o francês Passepartout havia efetivamente chegado na véspera em Yokohama.

Phileas Fogg, que devia partir naquela mesma noite para São Francisco, começou imediatamente a procurar o criado. Dirigiu-se, mas em vão, aos agentes consulares francês e inglês, e, depois de ter percorrido inutilmente as ruas de Yokohama, já perdia a esperança de encontrar Passepartout, quando o acaso, ou talvez uma espécie de premonição, o fez entrar na tenda do respeitável Batulcar. Não teria, por certo, reconhecido seu servidor sob a ridícula roupa de arauto; mas Passepartout, em sua posição deitada, avistou o patrão na galeria. Não pôde conter um movimento de seu nariz. Daí a quebra do equilíbrio e tudo o que se seguiu.

Eis o que Passepartout ouviu da própria boca de Mrs. Aouda, que lhe contou então como fora feita a travessia de Hong Kong para Yokohama, em companhia de um tal Mr. Fix, na goleta Tankadère.

Ao ouvir o nome de Fix, Passepartout nem pestanejou. Pensou que ainda não chegara o momento de dizer ao patrão o que se passara entre o inspetor de polícia e ele. Assim, ao narrar suas aventuras, acusou-se e pediu desculpa somente por ter sido surpreendido pelo entorpecimento do ópio numa taverna de Hong Kong.

Mr. Fogg escutou friamente este diálogo, sem responder; depois abriu ao criado um crédito suficiente para que este comprasse no navio trajes mais convenientes. E, com efeito, não passara ainda uma hora, e o honesto moço, tendo tirado o nariz postiço e cortado as asas, não tinha mais nada em si que recordasse o seguidor do deus Tingou.

O paquete que fazia a travessia de Yokohama a São Francisco pertencia à Companhia do “Pacific Mail steam”, e chamava-se General Grant. Era um grande vapor de rodas, deslocando duas mil e quinhentas toneladas, bem construído e dotado de grande velocidade. Um enorme balancim subia e descia sucessivamente sobre o convés; numa das suas extremidades articulava-se o cabo de um pistão, e na outra o de uma biela que, transformando o movimento retilíneo em movimento circular, o aplicava diretamente no eixo das rodas do vapor. O General Grant estava dotado de três mastros de goleta, e possuía uma grande superfície de pano, que ajudava poderosamente o vapor. Mantendo suas doze milhas por hora, o paquete não deveria levar mais de vinte e um dias para atravessar o Pacífico. Phileas Fogg estava, pois, autorizado a crer que, chegando em 2 de dezembro a São Francisco, estaria dia 11 em Nova York e dia 20 em Londres – antecipando assim em algumas horas a data fatal de 21 de dezembro.

Os passageiros eram bem numerosos a bordo do vapor, ingleses, muitos americanos, uma verdadeira emigração de coolies para a América, e um certo número de oficiais do exército das Índias, que aproveitavam sua licença para fazerem a volta ao mundo.

Durante esta travessia não se deu nenhum incidente náutico. O paquete, sustentado sobre suas largas rodas, apoiado no seu forte velame, jogava pouco. O Oceano Pacífico justificava bem seu nome. Mr. Fogg estava tão calmo, tão pouco comunicativo como de costume. Sua jovem companhia cada vez se sentia mais e mais ligada àquele homem por outros laços que não os do reconhecimento. Esta silenciosa natureza, tão generosa em suma, a impressionava mais do que suspeitara, e, fora quase sem dar por isso que ela se deixou levar por sentimentos dos quais o enigmático Fogg não parecia sentir nenhuma influência.

Além disso, Mrs. Aouda interessava-se extraordinariamente pelos projetos do gentleman. Inquietava-se com os contratempos que poderiam comprometer o êxito da viagem. Frequentemente conversava com Passepartout, que não deixava de perceber o que se passava no coração de Mrs. Aouda. O bravo moço tinha, agora, a respeito de seu patrão, uma fé cega; não se fartava de elogiar a honestidade, a generosidade, a dedicação de Phileas Fogg; depois tranquilizava Mrs. Aouda sobre o sucesso da viagem, repetindo que o mais difícil já passara, que haviam saído dos países fantásticos da China e do Japão, que retornavam às regiões civilizadas, e que afinal um trem de São Francisco a Nova York e um transatlântico de Nova York a Londres bastariam, sem dúvida, para concluir esta impossível volta ao mundo no prazo combinado.

Nove dias depois de ter deixado Yokohama, Phileas Fogg tinha percorrido exatamente a metade do globo terrestre.

Com efeito, o General Grant, em 23 de novembro passou para o octogésimo meridiano, aquele no qual se acham, no hemisfério austral, os antípodas de Londres. Dos oitenta dias postos à sua disposição Mr. Fogg, é verdade, gastara cinquenta e dois, e só lhe restavam vinte e oito. Mas é preciso notar que se o gentleman se achava somente no meio da viagem “pela diferença dos meridianos”, tinha na realidade concluído mais de dois terços do percurso total. Que desvios forçados, com efeito, de Londres a Aden, de Aden a Bombaim, de Calcutá a Cingapura, de Cingapura a Yokohama! Seguindo circularmente o quinquagésimo paralelo, que é o de Londres, a distância teria sido só de doze mil milhas aproximadamente, ao passo que Phileas Fogg se vira forçado, pelos caprichos dos meios de locomoção, a percorrer vinte e seis mil milhas das quais fizera cerca de dezessete mil, até esta data de dia 23 de novembro. Mas agora a rota seria reta, e Fix não estava mais por ali para aumentar os obstáculos!

Aconteceu também que, em 23 de novembro, Passepartout experimentou uma grande alegria. Lembremos que o cabeça dura tinha se obstinado a manter a hora de Londres em seu famoso relógio de família, considerando falsas todas as horas dos países que atravessara. Ora, naquele dia, apesar de não o ter nem adiantado nem atrasado, seu relógio estava de acordo com os cronômetros do navio.

Nem é preciso dizer que Passepartout exultava. Bem que teria gostado de saber o que Fix diria, se estivesse presente.

– Aquele velhaco que me contava um monte de lorotas sobre meridianos, sobre o sol e a lua! repetia Passepartout. Bah! esse pessoal! Se a gente os escutasse, que bela relojoaria fariam! Eu bem que tinha a certeza de que, mais dia menos dia, o sol se decidiria a se regular pelo meu relógio!...

Passepartout ignorava isso: se o mostrador do seu relógio estivesse dividido em vinte e quatro horas como os relógios italianos, não teria tido motivo algum para se gabar, porque os ponteiros, quando fossem nove horas da manhã no navio, teriam indicado nove horas da noite, isto é, a vigésima primeira hora desde a meia noite – diferença exatamente igual à que existe entre Londres e o centésimo octogésimo meridiano.

Mas se Fix tivesse sido capaz de explicar este efeito puramente físico, Passepartout, sem dúvida, teria sido incapaz, se não de o compreender, ao menos de o admitir. Em todo caso, se, por um milagre, o inspetor de polícia tivesse inopinadamente se mostrado a bordo neste momento, é provável que Passepartout, justificadamente rancoroso, tivesse tratado com ele de um outro assunto e de uma maneira bem diferente.

Mas, onde estava Fix neste momento?...

Fix estava precisamente a bordo do General Grant.

Com efeito, chegando a Yokohama, o agente, abandonando Mr. Fogg que esperava reencontrar durante o dia, tinha ido imediatamente ao consulado inglês. Lá, tinha encontrado finalmente o mandado, que, correndo atrás dele desde Bombaim, estava datado de quarenta dias atrás – mandado que lhe fora expedido de Hong Kong naquele mesmo Carnatic, a bordo do qual se supunha que o agente estivesse! Imagine-se o desapontamento do detetive! O mandado tornara-se inútil! Mr. Fogg tinha saído das possessões inglesas. Um ato de extradição era agora necessário para detê-lo!

– Paciência! disse Fix para si, após o primeiro momento de cólera, se meu mandado não serve para mais nada aqui, servirá na Inglaterra. Este velhaco parece que vai voltar para sua pátria, crendo ter despistado a polícia. Bem. Eu o seguirei até lá. Quanto ao dinheiro, Deus guarde para que sobre algum! Mas em viagens, gratificações, processos, multas, elefante e despesas de toda a espécie, o meu homem já deixou mais de mil libras pelo caminho. Em todo caso, o Banco é rico!

Decisão tomada, embarcou no General Grant. Estava no navio, quando Mr. Fogg e Mrs. Aouda chegaram. Com imensa surpresa, reconheceu Passepartout sob suas vestes de arauto. Escondeu-se imediatamente em sua cabina, para evitar uma explicação que poderia comprometer tudo – e, graças ao número de passageiros, contava não ser visto por seu inimigo, quando naquele mesmo dia deu de cara com ele na proa do navio.

Passepartout saltou para sua garganta, sem mais, e, para contentamento de alguns americanos que imediatamente apostaram nele, presenteou o infeliz inspetor com uma sova daquelas, que demonstrou a superioridade do boxe francês sobre o boxe inglês.

Quando Passepartout acabou, sentiu-se calmo e quase aliviado. Fix levantou-se, em péssimo estado, e olhando seu adversário, disse-lhe friamente:

– Acabou?

– Sim, por enquanto.

– Então vamos conversar.

– Que va...

– No interesse de seu patrão.

Passepartout, como que subjugado por este sangue frio, seguiu o inspetor de polícia, e ambos se sentaram à proa do vapor.

– Me deu uma surra, disse Mr. Fix. Tudo bem. Agora escute. Até aqui tenho sido adversário de Mr. Fogg, mas agora faço seu jogo.

– Até que enfim! exclamou Passepartout, agora acredita que é um homem honesto?

– Não, respondeu friamente Fix, acredito que é um velhaco... Calma! pára de bufar e me deixe falar. Enquanto Mr. Fogg se encontrava em possessões inglesas, tive interesse em retê-lo, aguardando um mandado de prisão. Fiz tudo para isso. Lancei contra ele os sacerdotes de Bombaim, embriaguei a si em Hong Kong, separei-o de seu patrão, fiz com que perdesse o paquete para Yokohama...

Passepartout escutava, os punhos fechados.

– Agora, retomou Fix, Mr. Fogg parece voltar para a Inglaterra? Que seja, segui-lo-ei. Mas, a partir de agora, me dedicarei a afastar os obstáculos de seu caminho com tanto ou mais empenho do que até agora tive em aumentá-los. Como pode ver, meu jogo mudou, e mudou porque é do meu interesse. E acrescento que seu interesse vai junto com o meu, porque é só na Inglaterra que poderá saber se está a serviço de um criminoso ou de um homem honesto!

Passepartout tinha escutado atentamente Fix, e ficou convencido de que Fix falava mesmo com sinceridade.

– Amigos? perguntou Fix.

– Amigos, não, respondeu Passepartout. Aliados, sim, e espero para ver, porque, ao menor sinal de traição, torço-lhe o pescoço.

– Combinado, disse tranquilamente o inspetor de polícia.

Onze dias depois, dia 3 de dezembro, o General Grant entrou na baía de Golden Gate, e chegou a São Francisco.

Mr Fogg não tinha ainda nem ganho nem perdido um só dia.

XXIII - Em que o nariz de Passepartout fica muito muito longo

No dia seguinte, Passepartout, estafado, esfomeado, resolveu que era preciso comer a todo custo, e quanto mais cedo melhor. Tinha, é verdade, o recurso de vender seu relógio, mas preferiria morrer de fome. Era uma oportunidade para este bravo rapaz usar a voz forte, melodiosa, com que a natureza o dotara.

Sabia alguns refrões da França e da Inglaterra, e resolveu experimentá-los. Os japoneses deveriam certamente gostar de música, pois que tudo se faz entre o som dos címbalos, do tantã e dos tambores, e não deveriam por certo apreciar os talentos de um virtuose europeu.

Mas talvez fosse um pouco cedo demais para organizar um concerto, e os dilettanti, inopinadamente despertos, não iriam talvez pagar o cantor em moeda com a efígie do mikado.

Passepartout decidiu-se, pois, esperar algumas horas; mas, caminhando, pensou que parecia bem vestido demais para um artista ambulante, e veio-lhe a idéia de trocar suas roupas por trajes usados, mais em harmonia com sua posição. Esta troca, ainda, deveria deixar um saldo, que poderia imediatamente aplicar para saciar seu apetite.

Tomada esta resolução, faltava executá-la. Foi só depois de longas buscas que Passepartout descobriu um brechó indígena, no qual expôs seu pedido. O traje europeu agradou ao comerciante e logo depois Passepartout saía envolto em uma velha roupa japonesa e com uma espécie de turbante na cabeça, desbotado pela ação do tempo. Mas, em compensação, algumas moedas de prata tilintavam em seu bolso.


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– Bem, pensou, vou imaginar que estamos no carnaval!

O primeiro cuidado de Passepartout, assim japonificado, foi entrar numa “tea-house”, de aparência modesta, e aí, com uns restos de ave e um punhado de arroz, almoçou como um homem para quem o jantar seria ainda um problema a ser resolvido.

– Agora, disse para si, depois de comer copiosamente, é bom não perder a cabeça. Não tenho mais o recurso de trocar estes andrajos por outro ainda mais japonês. É preciso, portanto, encontrar um meio de deixar o mais rápido possível este país do Sol, do qual só guardarei uma lamentável lembrança!

Passepartout cogitou então em visitar os paquetes de partida para a América. Contava oferecer-se como cozinheiro ou criado, não pedindo outra retribuição além da passagem e comida. Uma vez em São Francisco, veria o que fazer. O importante era atravessar estas quatro mil e setecentas milhas do Pacífico que se estendem entre o Japão e o Novo Mundo.

Passepartout, não sendo homem de deixar fenecer uma idéia, dirigiu-se para o porto de Yokohama. Mas, à medida que se aproximava das docas, o projeto, que lhe havia parecido tão simples no momento em que o concebera, parecia cada vez mais inexequível. Porque é que teriam necessidade de um cozinheiro ou de um criado a bordo de um paquete americano, e que confiança inspiraria, vestido assim? Que recomendações poderia dar? Que referências indicar?

Enquanto assim pensava, seus olhos caíram sobre um imenso cartaz que uma espécie de clown desfilava pelas ruas de Yokohama. Este cartaz estava também escrito em inglês.

O cartaz dizia o seguinte, em inglês:

 
TRUPE JAPONESA ACROBÁTICA DO
RESPEITÁVEL WILLIAM BATULCAR
----------
ÚLTIMAS REPRESENTAÇÕES
Antes de partir para os Estados Unidos da América
DOS
NARI-LONGOS-NARI-LONGOS
SOB A INVOCAÇÃO DIRETA DO DEUS TINGOU
Grande Atração!

Os Estados Unidos da América! exclamou Passepartout, é justamente o que procuro!...

Seguiu o homem-sanduíche, e voltou à cidade japonesa. Um quarto de hora mais tarde, parava diante de uma vasta barraca, coroada por fileiras de bandeirinhas, e cujas paredes externas representavam, sem perspectiva, mas em cores fortes, todo um grupo de malabaristas.

Era o estabelecimento do respeitável Batulcar, espécie de Barnum americano, diretor de uma companhia de saltimbancos, malabaristas, clowns, acrobatas, equilibristas, ginastas, que, segundo o cartaz, fazia suas últimas apresentações antes de deixar o império do Sol para os Estados da União.

Passepartout entrou num peristilo que precedia a barraca, e chamou Mr. Batulcar. Apareceu Batulcar em pessoa.

– O que quer? disse a Passepartout, a quem tomou a princípio por um nativo.

– Precisa de um criado? perguntou Passepartout.

– Um criado, exclamou Batulcar cofiando a espessa barbicha grisalha sob o queixo, tenho dois, obedientes, fiéis, que nunca me deixaram, que me servem por nada, com a condição que os alimente... E eles aqui estão, acrescentou mostrando seus dois braços robustos, sulcados por veias grossas como cordas de contrabaixo.

– Então não posso ser-lhe útil em nada?

– Em nada.

– Diacho! teria sido muito conveniente para mim partir consigo.

– Ah, então é isso! disse o respeitável Batulcar, você é tão japonês quanto eu sou um macaco! Porque está vestido assim?

– A gente se veste como pode!

– É verdade. É francês?

– Sim, um parisiense de Paris.

– Então deve saber fazer caretas?

– Claro, respondeu Passepartout, vexado por ver sua nacionalidade provocar esta pergunta, nós os franceses, sabemos fazer caretas, é verdade, mas não melhor do que os americanos!

– Exato. Pois bem, se não o contrato como criado, posso contratá-lo como clown. Compreenda, meu bravo. Na França exibem-se comediantes estrangeiros e no estrangeiro comediantes franceses!

– Ah!

– É vigoroso, não é?

– Principalmente quando saio da mesa.

– E sabe cantar?

– Sim, respondeu Passepartout, que em outros tempos participara de alguns concertos de rua.

– Mas sabe cantar de cabeça para baixo, com um pião girando na planta do pé esquerdo, e um sabre em equilíbrio na planta do pé direito?

– Se sei! respondeu Passepartout, que se lembrava dos primeiros exercícios da sua tenra idade.

– Então está bem! respondeu o respeitável Batulcar.

A contratação foi concluída hic et nunc.

Afinal, Passepartout achara uma posição. Estava contratado para fazer de tudo na célebre companhia japonesa. Era pouco lisongeiro, mas em menos de oito dias estaria a caminho de São Francisco.

A representação, anunciada em altos brados pelo ilustre Batulcar, deveria começar às três horas, e logo os ensurdecedores instrumentos de uma orquestra japonesa, tambores e tantãs, tocavam à porta. Compreendam que Passepartout não tinha podido estudar um papel, mas deveria emprestar o apoio de seus sólidos ombros no grande exercício da “pirâmide humana” executado pelos Nari-Longos do deus Tingou. Esta “great-attraction” do espetáculo deveria encerrar a série dos exercícios.

Antes das três horas, os espectadores tinham invadido a grande tenda. Europeus e indígenas, Chineses e Japoneses, homens, mulheres e crianças, precipitavam-se sobre as estreitas bancadas nos camarotes que ficavam de frente para a cena. Os músicos tinham voltado para dentro, e a orquestra completa, gongos, tantãs, castanholas, flautas, tamborins e grandes bumbos, tocava com furor.

Esta representação foi como são todas as exibições de acrobatas. Mas é preciso confessar que os japoneses são os melhores equilibristas do mundo. Um, armado com sua ventarola e pequenos pedaços de papel, executava o exercício tão gracioso das borboletas e das flores. Outro, com a fumaça odorífera de seu cachimbo, traçava rapidamente no ar uma série de palavras azuladas, que formavam um comprimento dirigido à platéia. Este brincava com velas acesas, que sucessivamente apagava quando passavam na frente dos seus lábios, e que tornava a acender uma na outra – sem por um instante interromper o seu jogo de prestidigitação. Aquele, produzia, com piões giratórios, as mais inverossímeis combinações; em suas mãos, estas máquinas roncadoras pareciam adquirir vida própria em seu giro interminável; corriam sobre cabos de cachimbo, sobre fios de sabres, sobre arames, cabelos de verdade estendidos de um a outro lado do palco; giravam nas bordas de grandes copos de cristal, subiam degraus de bambu, dispersavam-se para todos os lados, produzindo efeitos harmônicos exóticos ao combinarem seus diversos tons. Os malabaristas as lançavam e elas giravam no ar; eles as lançavam como petecas, com raquetes de madeira, giravam sempre; eles as enfurnavam no bolso, e quando as retiravam, giravam ainda – até o momento em que uma mola distendida as fazia desabrochar em ramalhetes artificiais!

Inútil descrever aqui os prodigiosos exercícios dos acrobatas e dos ginastas da companhia. As piruetas na escada, na vara, na bola, nos barris, etc., foram executados com incrível precisão. Mas a principal atração do espetáculo era a exibição dos “Nari-Longos”, assombrosos equilibristas que a Europa ainda não conhece.

Os “Nari-Longos” formam uma corporação particular colocada sob a proteção direta do deus Tingou. Vestidos como os arautos da Idade Média, traziam um esplêndido par de asas nas costas. Mas o que mais os distinguia, era o longo nariz com que suas faces estavam ornamentadas, e principalmente o uso que faziam deles. Estes narizes nada mais eram que bambus, com o comprimento de cinco, seis e dez pés, uns direitos, outros recurvos, estes lisos, aqueles verruguentos. Ora, sobre estes apêndices, fixados de modo sólido, é que faziam todos os exercícios de equilíbrio. Uma dúzia dos seguidores do deus Tingou deitaram-se de costas, e seus camaradas vieram cair sobre seus narizes, eretos como pára-raios, saltando, volteando deste para aquele, executando as voltas mais inacreditáveis.

Para terminar, anunciara-se especialmente ao público a pirâmide humana, em que uns cinquenta Nari-Longos deveriam representar o “Carro de Jaggernaut”. Mas, em vez de formarem a pirâmide tomando os ombros como ponto de apoio, os artistas do respeitável Batulcar deveriam sobrepor-se uns aos outros pelo nariz. Ora, um dos que formavam a base do carro havia deixado a companhia, e como bastava ser vigoroso e reto, Passepartout havia sido escolhido para o substituir.

Claro, o digno moço se sentira todo pesaroso, quando – triste recordação de sua mocidade – tinha envergado seu traje da Idade Média, ornado com asas multicoloridas, e quando um nariz de seis pés lhe tinha sido aplicado ao rosto! Mas, enfim, este nariz era o seu ganha-pão, e resignou-se.

Passepartout entrou em cena, e veio alinhar-se com seus colegas que deveriam figurar na base do Carro de Jaggernaut. Todos estenderam-se no chão com o nariz para o céu. Uma segunda seção de equilibristas veio pousar sobre estes longos apêndices, uma terceira colocou-se por cima, depois uma quarta, e sobre estes narizes que só se tocavam pelas pontas, um monumento humano se elevou bem depressa até as frisas do teatro.

Ora, os aplausos redrobravam, e os instrumentos da orquestra explodiam como trovoadas, quando a pirâmide oscilou, o equilíbrio se rompeu, faltou um dos narizes da base, e o monumento desmoronou como um castelo de cartas...


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A culpa foi de Passepartout, que, abandonando seu posto, saltando a rampa sem o auxílio das asas, e trepando à galeria da direita, caía aos pés de um espectador, gritando:

– Ah! meu patrão! meu patrão!

– Você?

– Eu!

– Bem! neste caso, para o paquete, meu rapaz, para o paquete!...

Mr. Fogg, Mrs. Aouda, que o acompanhava, Passepartout, tinham se precipitado pelos corredores para fora da tenda. Mas lá encontraram o digno Batulcar, furioso, que reclamava indenização pelo fiasco. Phileas Fogg apagou seu furor atirando-lhe um punhado de bank-notes.

E, às seis horas e meia, no momento em que ele ia partir, Mr. Fogg e Mrs. Aouda puseram o pé no paquete americano, seguidos por Passepartout, as asas nas costas, e sobre a face o nariz de seis pés que ainda não havia podido arrancar do rosto!

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XXII - Em que Passepartout reconhece que, mesmo nos antípodas, é prudente ter algum dinheiro no bolso

O Carnatic, tendo saído de Hong Kong, a 7 de novembro, às seis e meia da tarde, dirigia-se a todo o vapor para as terras do Japão. Levava um carregamento completo de mercadorias e passageiros. Duas cabinas de popa estavam desocupadas. Eram as que tinham sido reservadas por conta de Mr. Phileas Fogg.

Na manhã seguinte, pela manhã, o pessoal da proa pôde ver, não sem alguma surpresa, um passageiro, o olho meio abestalhado, andar vacilante, cabeleira revolta, que saía da segunda classe e vinha, cambaleando, sentar-se numa bóia.

Este passageiro era Passepartout em pessoa. Eis o que tinha acontecido.

Instantes depois de Fix ter saído do antro de ópio, dois rapazes tinham levantado Passepartout profundamente adormecido, e o tinham deitado sobre o leito reservado aos fumadores. Mas três horas mais tarde, Passepartout, perseguido até nos seus pesadelos por uma idéia fixa, acordou e lutou contra a ação estupificante do narcótico. O pensamento do dever não cumprido sacudia seu torpor. Deixou o leito, e, tropeçando, apoiando-se às paredes, tombando e levantando, mas sempre e irresistivelmente impelido por uma espécie de instinto, saiu da taverna, gritando como num sonho: o Carnatic! o Carnatic!

O paquete estava ali lançando fumaça, pronto para zarpar. Passepartout só tinha alguns passos a dar. Lançou-se para o convés voando, atravessou a abertura da amurada, e caiu inanimado para frente, no momento em que o Carnatic largava suas amarras.

Alguns marinheiros, gente habituada a este tipo de cena, conduziram o pobre moço para um camarote de segunda, e Passepartout só acordou no dia seguinte de manhã, a cento e cinquenta milhas das terras da China.

Eis por quê naquela manhã Passepartout se achava sobre o convés do Carnatic e vinha aspirar a plenos pulmões as frescas brisas marinhas. O ar puro o despertou. Começou a juntar as idéias e não conseguiu senão a duras penas. Mas, afinal, lembrou-se das cenas da véspera, das confidências de Fix, da taverna, etc.

– É evidente, disse, que fui abominavelmente embriagado. O que dirá Mr. Fogg? Em todo o caso, não perdi o barco, e é o principal!

Depois, pensando em Fix:

– Daquele, espero que tenhamos ficado livres, e que não terá ousado, depois do que me propôs, a nos seguir a bordo do Carnatic. Um inspetor de polícia, um detetive na pista de meu patrão, acusado do roubo feito no Banco da Inglaterra! Ora vamos! Mr. Fogg é um ladrão como eu sou um assassino!

Deveria Passepartout contar estas coisas a seu patrão? Conviria dizer-lhe o papel representado por Fix em todo esse negócio? Não seria melhor esperar a sua chegada a Londres, para lhe dizer que um agente da polícia metropolitana o seguira à volta ao mundo, e rir com ele? Sim, sem dúvida. Em todo caso, questão a examinar. O mais urgente era reunir-se a Mr. Fogg e apresentar-lhe suas desculpas por esta inqualificável conduta.

Passepartout levantou-se. O mar estava picado, e o barco balançava forte. O digno rapaz, com as pernas ainda pouco sólidas, ganhou mal e mal a popa do navio.

Sobre o convés, não viu ninguém que se parecesse com seu patrão, nem com Mrs. Aouda.

– Bem, disse, Mrs. Aouda está ainda deitada a esta hora. Quanto a Mr. Fogg, terá encontrado algum jogador de uíste, e, segundo o seu costume...

Dizendo isto, Passepartout desceu ao salão. Mr. Fogg não estava ali. Passepartout só tinha uma coisa a fazer: perguntar ao purser que cabina ocupava Mr. Fogg. O purser respondeu que não conhecia nenhum passageiro com este nome.

– Desculpa, disse Passepartout insistindo. É um gentleman alto, frio, pouco comunicativo, acompanhado de uma jovem dama...

– Não temos nenhuma jovem dama a bordo, respondeu o purser. Demais, eis a lista dos passageiros. Pode consultá-la.

Passepartout consultou a lista... O nome de seu patrão não figurava nela.

Teve uma espécie de vertigem. Depois uma idéia atravessou-lhe o cérebro.

– Mas espere! Estou mesmo no Carnatic? perguntou.

– Sim, respondeu o purser.

– Em viagem para Yokohama?

– Perfeitamente.

Passepartout receara por um instante ter-se enganado de navio! Mas, se estava no Carnatic, era certo que seu patrão ali não estava.

Passepartout deixou-se tombar numa poltrona. Era um golpe mortal. E, súbito, a luz se fez. Lembrou-se que a hora de partida do Carnatic tinha sido antecipada, que deveria ter avisado seu patrão, que não o fizera. Era pois sua falta se Mr. Fogg e Mrs. Aouda tivessem faltado à partida!

Sua falta, sim, mas ainda mais daquele tratante que, para separá-lo do patrão, para reter este em Hong Kong, o embriagara! Porque compreendia afinal a manobra do inspetor de polícia. E agora, Mr. Fogg estava com certeza arruinado, sua aposta perdida, detido, encarcerado talvez!... Passepartout, a este pensamento, arrancou os cabelos. Ah! Se algum dia Fix caísse em suas mãos, que ajuste de contas!

Por fim, após o primeiro momento de depressão, Passepartout recuperou o seu sangue frio e estudou a situação. Era pouco invejável. O francês achava-se a caminho do Japão. Tinha a certeza de chegar lá, como, porém, voltaria? Tinha os bolsos vazios. Nem um schilling, nem um penny! Entretanto, a sua passagem e o seu sustento a bordo estavam pagos adiantados. Tinha, pois, cinco ou seis dias ao seu dispor para tomar uma decisão. Se comeu e bebeu durante esta travessia, nem é preciso dizer. Comeu por seu patrão, por Mrs. Aouda e comeu por si mesmo. Comeu como se o Japão, onde iria aportar, fosse país deserto, desprovido de qualquer substância comestível.

Dia 13, na maré da manhã, o Carnatic entrou no porto de Yokohama.

Este porto é uma parada importante do Pacífico, onde fazem escala todos os vapores empregados no serviço de correio e de viajantes entre a América do Norte, a China, o Japão e as ilhas da Malásia. Yokohama está situada na baía de Yedo, a pouca distância desta imensa cidade, segunda capital do império japonês, outrora residência do Tycoon, do tempo em que este imperador civil existia, e rival de Meako, a grande cidade em que habita o mikado, imperador eclesiástico, descendente dos deuses.

O Carnatic veio se alinhar no cais de Yokohama, perto dos molhes do porto e dos armazéns da alfândega, no meio de numerosos navios pertencentes a todas as nações.

Passepartout desembarcou, sem nenhum entusiasmo, naquela terra tão curiosa dos Filhos do Sol. Não tinha nada melhor para fazer do que tomar o acaso por guia, e aventurar-se pelas ruas da cidade.

Passepartout achou-se logo numa cidade absolutamente européia, com casas de fachadas baixas, ornadas de varandas sob as quais se viam elegantes peristilos, e que cobria com suas ruas, suas praças, suas docas, seus entrepostos, todo o espaço compreendido entre o promontório do Tratado e o rio. Ali, como em Hong Kong, como em Calcutá, formigava uma mistura de gente de todas as raças, Americanos, Ingleses, Chineses, Holandeses, mercadores prontos a tudo vender e a tudo comprar, no meio dos quais o francês se achava tão estrangeiro como se tivesse sido lançado na terra dos Hotentotes.

Passepartout tinha, na verdade, um recurso: era recomendar-se junto aos agentes consulares francês ou inglês estabelecidos em Yokohama; mas lhe repugnava contar sua história, tão intimamente ligada com a de seu patrão, e antes de chegar a isso, queria primeiro esgotar todos os outros recursos.

Por isso, depois de ter percorrido a parte européia da cidade, sem que o acaso de nada lhe servisse, entrou na parte japonesa, decidido, se preciso, a avançar até Yedo.

Esta porção indígena de Yokohama é chamada Benten, do nome de uma deusa do mar, adorada nas ilhas vizinhas. Lá se viam admiráveis alamedas de pinheiros e de cedros, portas sagradas de uma arquitetura estranha, pontes enfurnadas no meio de bambus e de caniços, templos abrigados sob a ramagem imensa e melancólica de cedros seculares, mosteiros de bonzos no fundo dos quais vegetavam os sacerdotes do budismo e os seguidores da religião de Confúcio, ruas intermináveis de onde se poderia colher uma safra de crianças de cútis rosadas e faces vermelhas, pequenas criaturas que diríamos recortadas de algum biombo nativo, e que brincavam no meio de cadelas de pernas curtas e gatos amarelados, sem cauda, muito indolentes e muito meigos.

Nas ruas, um formigueiro, vais-e-vens incessantes: bonzos passando em procissão batendo em tamborins monótonos; yakouninos, oficiais da alfândega ou da polícia, com chapéus ponteagudos encrustados de laca e trazendo dois sabres à cinta; soldados vestidos com trajes de algodão azul listrados de branco e armados com fuzis de percussão; homens de armas do mikado, ensacados nos seus gibões de seda, com loriga e cota de malha, e muitos outros militares de todas as condições – porque, no Japão, a profissão de soldado é tão estimada como desprezada na China. Depois, frades mendicantes, peregrinos em longas túnicas, simples civis, cabeleira lisa e de um negro de ébano, muito comprida, cabeça grande, tronco comprido, pernas delgadas, estatura pouco elevada, tez colorida desde as sombrias tonalidades do cobre até o branco pálido, mas nunca amarela como a dos Chineses, de que os japoneses diferem essencialmente. Finalmente, entre as viaturas, os palanquins, os cavalos, os carregadores, os carrinhos de vela, os “norimons” com paredes de laca, os fofos “cangos”, verdadeiras liteiras de bambu, via-se circular com pequenos passos de seus pequenos pés, calçados com sapatos de seda, sandálias de palha ou de socós de madeira trabalhada, algumas mulheres pouco bonitas, os olhos contraídos, o peito deprimido, os dentes enegrecidos ao gosto local, mas levando com elegância o traje nacional, o “kirimon”, espécie de roupão cingido por uma faixa de seda formando na cintura, pelo lado de trás, um laço extravagante – que as senhoras de hoje parecem ter emprestado das japonesas.

Passepartout passeou durante algumas horas entre esta multidão bizarra, contemplando também as curiosas e opulentas lojas, os bazares onde se acumula toda a produção da ourivesaria japonesa, os restaurantes ornados com bandeirolas e flâmulas, nas quais lhe era proibido entrar, e as lojas de chá onde se bebem chávenas cheias de água quente odorífera, com o “saki”, licor tirado do arroz em fermentação, e confortáveis casas de fumo onde se saboreia um tabaco muito fino, e não o ópio, cujo uso é quase desconhecido no Japão.

Depois, Passepartout achou-se nos campos, no meio de imensos arrozais. Ali, se espalhavam, com as flores que lançavam suas derradeiras cores e seus derradeiros perfumes, camélias deslumbrantes, não em arbustos, mas em árvores, e, nos cercados de bambu, cerejeiras, pereiras, macieiras, que os indígenas cultivam mais por suas flores que por seus frutos, e que espantalhos e ruidosos molinetes defendem do bico dos pardais, dos pombos, dos corvos e de outras aves vorazes. Não havia cedro magestoso que não abrigasse alguma grande águia, nem salgueiro sob cuja folhagem não se ocultasse alguma garça real, melancolicamente empoleirada num pé; finalmente, por toda parte abundavam as gralhas, os patos mansos e selvagens, os gaviões, e grande número dessas cegonhas a que os japoneses chamam “senhoritas” e que para eles simbolizam a longevidade e a felicidade.

Vagueando assim, Passepartout descobriu algumas violetas entre a relva.

– Bom! disse ele, eis minha ceia!

Mas quando as cheirou não encontrou nenhum perfume.

– De modo algum! pensou ele.


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Claro, o rapaz tinha, por previsão, almoçado tão copiosamente quanto pudera antes de desembarcar; mas, depois de um dia de passeio, sentia o estômago muito vazio. Tinha notado que nos estoques dos açougues indígenas faltava carne de porco, de carneiro ou de cabra, e, como sabia que é um sacrilégio matar os bois, unicamente destinados às utilidades agrícolas, concluíra que no Japão a carne é muito rara. Não se enganara; mas à falta de carne no açougue, o seu estômago dar-se-ia perfeitamente bem com algum pedaço de javali ou de gamo, com alguma perdiz ou codorniz, com algum pedaço de ave ou de peixe, com que os japoneses se sustentam quase que exclusivamente com o produto dos arrozais. Mas teve de se resignar à sorte, e guardar para o dia seguinte o cuidado de prover ao seu sustento.

A noite chegou. Passepartout regressou à cidade indígena, e errou pelas ruas em meio a lanternas multicores, contemplando os grupos de acrobatas que executavam os seus prodigiosos exercícios, e vários astrólogos que, ao ar livre, reuniam a multidão em volta de suas lunetas. Em seguida voltou para o ancoradouro, iluminado pelos fogos dos pescadores, que atraíam peixe à luz de resinas inflamadas.

Afinal as ruas despovoaram-se. À multidão sucederam as rondas dos yakounines. Estes oficiais, com os seus trajes magníficos e com seu cortejo, pareciam embaixadores, e Passepartout repetia gracejando, cada vez que encontrava qualquer patrulha deslumbrante:

– Ah, sim! mais uma embaixada japonesa que parte para a Europa.

XXI - Em que o patrão da “Tankadère” corre sério risco de perder uma gratificação de duzentas libras

Era uma expedição aventurosa esta navegação de oitocentas milhas, numa embarcação de vinte toneladas, e principalmente naquela época do ano. São geralmente maus os mares da China, expostos a lufadas terríveis durante os equinócios, e estava-se ainda nos primeiros dias de novembro.

Teria sido, por certo, mais vantajoso para o piloto conduzir seus passageiros até Yokohama, pois era pago por dia. Mas teria sido imprudência demais tentar tal travessia em tais condições, e já era um ato audacioso, quando não temerário, ir até Shangai. Mas John Bunsby tinha confiança em sua Tankadère, que se elevava sobre as vagas como uma malva, e não estava errado.

Durante as últimas horas desta jornada, a Tankadère navegou por entre os escolhos caprichosos de Hong Kong, e sob todos os critérios, com vento pela frente ou por trás, comportou-se muito bem.

– Não tenho necessidade, piloto, disse Phileas Fogg quando a goleta entrava em alto mar, de lhe recomendar toda diligência possível.

– Vossa Honra, vá por mim, respondeu John Bunsby. Fizemos às velas, estamos dando tudo o que o vento permite dar. Querer ir mais rápido só serviria para virar a embarcação em prejuízo de sua marcha.

– É o seu ofício, e não o meu, piloto, e confio em si.

Phileas Fogg, o corpo ereto, pernas afastadas, firme como um marinheiro, contemplava, sem cambalear, o mar agitado. A jovem, sentada à popa, sentia-se comovida contemplando este oceano, já com as sombras do crepúsculo, cuja fúria arrostava em uma frágil embarcação. Por cima da sua cabeça desdobravam-se as velas brancas, que a levavam pelo espaço como grandes asas. A goleta, impelida pelo vento, parecia voar no ar.


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A noite veio. A lua entrava no seu primeiro quarto, a sua luz insuficiente deveria logo extinguir-se nas brumas do horizonte. Nuvens corriam do leste e já invadiam uma parte do céu.

O piloto tinha disposto os fogos de posição – precaução indispensável a ser tomada nestes mares muito frequentados nas proximidades das costas. As colisões de navios não eram raros por ali, e, com a velocidade com que ia animada, a goleta despedaçar-se-ia ao menor choque.

Fix meditava na proa da embarcação. Conservava-se afastado, sabendo que Fogg era pouco amigo de conversas. Demais, repugnava-lhe falar àquele homem, cujos favores aceitara. Meditava também sobre o futuro. Parecia-lhe certo que o senhor Fogg não pararia em Yokohama, que tomaria imediatamente o paquete para São Francisco, para alcançar a América, cuja vasta extensão lhe garantiria a impunidade com segurança. O plano de Phileas Fogg parecia-lhe ser muito simples.

Em vez de embarcar diretamente da Inglaterra para os Estados Unidos, como um velhaco vulgar, este Fogg havia feito uma grande volta e atravessado três quartas partes do globo, para alcançar com mais segurança o continente americano, onde comeria tranquilamente o milhão do Banco, após ter despistado a polícia. Mas uma vez na terra da União, que faria Fix? Abandonaria este homem? Não, cem vezes não! e até que tivesse obtido um ato de extradição, não o perderia de vista. Era seu dever e o cumpriria até o fim. Em todo caso, algo de bom tinha acontecido. Passepartout já não estava junto de seu patrão, e sobretudo, depois das confidências de Fix, era importante que patrão e criado não se revissem jamais.

Phileas Fogg, este, também não deixava de pensar no criado, tão estranhamente desaparecido. Feitas todas as reflexões, não lhe parecia impossível que, em consequência de um mal entendido, o rapaz tivesse embarcado no Carnatic, no último momento. Era também a opinião de Mrs. Aouda, que sentia profundamente a ausência deste excelente servidor, a quem tanto devia. Poderia acontecer que o reencontrassem em Yokohama, e, se o Carnatic para ali o tivesse transportado, seria fácil saber.

Por volta das dez horas, a brisa veio refrescar. Talvez tivesse sido prudente arrefecer o passo, mas o piloto, após ter cuidadosament observado o céu, deixou o velame no estado em que estava. Demais, a Tankadère, levava admiravelmente o pano, tendo uma grande capacidade de colocar água fora, e tudo estava preparado para ser arranjado rapidamente, em caso de aguaceiro.

À meia noite, Phileas Fogg e Mrs. Aouda desceram para a cabina. Fix os precedera, e estendera-se sobre um dos catres. Quanto ao piloto e seus homens, ficaram a noite toda no convés.

No dia seguinte, 8 de novembro, ao nascer do sol, a goleta tinha feito mais de cem milhas. A barquilha, usada com frequência, indicou que a média de sua velocidade estava entre oito e nove milhas. A Tankadère ia com todo o pano largo, e obtinha assim sua máxima rapidez. Se o vento se mantivesse nestas condições, as probabilidades eram a seu favor.

A Tankadère, durante todo este dia, não se afastou muito da costa, cujas correntes lhe eram favoráveis. Tinha-a a cinco milhas ou mais a bombordo, e a costa, de perfil irregular, aparecia às vezes no meio de alguns clarões. O vento vinha da terra, o mar estava por isso mesmo menos forte: circunstância feliz para a goleta, porque as embarcações de pequena tonelagem padecem principalmente com a vaga, que lhes diminue a velocidade, que as “matam” para empregar a expressão marítima.

Pelo meio dia, o vento amainou um pouco e rodou para sudeste. O piloto largou as flechas; porém, ao fim de duas horas, foi preciso recolhê-las, porque o vento refrescava de novo.

Mr. Fogg e a jovem, muito felizmente refratários ao mal do mar, comeram com apetite as conservas e a bolacha de bordo. Fix foi convidado a partilhar de sua refeição e teve de aceitar, porque bem sabia que é tão necessário lastrear o estômago como os barcos, mas aquilo o vexava! Viajar à custa deste homem, nutrir-se com seus víveres, achava pouco leal. Contudo, comeu – pouco, é verdade – mas comeu.

Entretanto, terminada a refeição, julgou dever chamar o senhor Fogg à parte, e disse-lhe:

– Senhor...

Este “senhor” lhe queimava os lábios, e se conteve para não pôr a mão no colete deste “senhor”.

– Senhor, foi muito gentil em me oferecer passagem em seu navio; mas, ainda que os meus recursos não me permitam gastar tão generosamente como o senhor, quero pagar a minha parte...

– Não falemos nisso, senhor, respondeu Mr. Fogg.

– Mas, se insisto...

– Não, senhor, repetiu Mr. Fogg em tom que não admitia réplica. Isso entra nas despesas gerais!

Fix inclinou-se, sufocava, e, indo deitar-se à proa da goleta, não disse mais nenhuma palavra durante a jornada.

Seguiam velozmente. John Bunsby tinha boas esperanças. Diversas vezes disse a Mr. Fogg que chegariam no tempo desejado a Shangai. Mr. Fogg respondeu simplesmente que contava com isso. Demais, toda a tripulação da pequena goleta esforçava-se em o conseguir. A gratificação estimulava aqueles bravos marinheiros. Por isso não se via uma escotilha que não estivesse conscienciosamente fechada! Não havia vela que não estivesse vigorosament içada! Não se dava a mais pequena guinada de que pudessem acusar o homem do leme. Em qualquer regata do Royal Yacht Clube não se faria manobras com mais precisão.

À tarde, o piloto tinha apurado com a barquilha um percurso de duzentas milhas percorridas desde Hong Kong, e Phileas Fogg podia esperar que ao chegar a Yokohama não teria nenhum atraso a registrar no seu programa. Portanto, o primeiro contratempo sério que experimentara desde sua partida de Londres, não lhe causaria provavelmente nenhum prejuízo.

Durante a noite, pelas primeiras horas da manhã, a Tankadère entrava franqueando no estreito de Fo-Kien, que separa a grande ilha Formosa da costa chinesa, e atravessava o trópico de Câncer. O mar é agitado ali, cheio de redemoinhos formados pelas contra correntes. A goleta fatigou-se bastante. As vagas curtas embaraçavam sua marcha. Tornou-se muito difícil manter-se em pé sobre o convés.

Com o romper do dia, o vento refrescou mais. Havia no céu indícios de borrasca. Demais, o barômetro anunciava uma mudança próxima de atmosfera; sua marcha diurna estava irregular, e o mercúrio oscilava caprichosamente. Via-se também o mar levantar-se para o sudoeste em longas ondas “que sentiam a tempestade”. Na véspera o sol tinha-se deitado em uma bruma avermelhada, no meio de cintilações fosforescentes do oceano.

O piloto examinou durante muito tempo este mau aspecto do céu e murmurou entredentes coisas pouco inteligíveis. Em certo momento, achando-se perto de seu passageiro:

– Pode-se dizer tudo a Vossa Honra? disse em voz baixa.

– Tudo, respondeu Phileas Fogg.

– Pois bem, vamos ter uma borrasca.

– Virá do norte ou do sul? perguntou simplesmente Mr. Fogg.

– Do sul. Veja. É um tufão que se prepara.

– Vá pelo tufão do sul, pois que nos levará para o lado certo, respondeu Mr. Fogg.

– Se encara assim, replicou o piloto, não tenho mais nada a dizer.

Os pressentimentos de John Bunsby não o enganaram. Numa época menos adiantada do ano o tufão, segundo a expressão de um célebre meteorologista, ter-se-ia desfeito como uma cascata luminosa de flamas elétricas, mas no equinócio do inverno era de recear que se desencadeasse com violência.

O piloto tomou de antemão as suas precauções, Mandou fechar todas as velas da goleta e colocar as vergas na coberta. Arreou os mastaréus. Colocou o bote para dentro. Recolheu todas as velas auxiliares. As escotilhas foram fechadas com todo o cuidado. Desde esse momento nem uma gota de água podia penetrar no casco da embarcação.

Apenas uma vela triangular, de grande porte, foi içada à guisa de trinquete, de modo a manter a goleta com vento pela popa. E esperaram.

John Bunsby tinha convidado os passageiros a descerem para a cabina; mas, num espaço estreito, quase privado de ar, e no meio dos balanços produzidos pelas vagas, este aprisionamento não teria sido nada agradável. Nem Mr. Fogg, nem Mrs. Aouda, nem o próprio Fix, consentiram em sair da coberta.

Pelas oito horas, a borrasca de chuva e vendaval desabou sobre a embarcação. Só com seu pedaço de pano, a Tankadère foi levantada como uma pena pelo vento do qual não se saberia dar uma idéia exata, quando sopra em tempestade. Comparar sua velocidade à quádrupla velocidade de uma locomotiva lançada a todo o vapor, seria ficar aquém da verdade.


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Durante o dia todo, a embarcação correu assim na para o norte, arrastada pelas vagas monstruosas, conservando felizmente uma velocidade igual à delas. Vinte vezes esteve a pique de ser submergida por uma das montanhas de água que se lançavam sobre sua popa; mas um movimento certeiro do leme, feito pelo piloto, evitava a catástrofe. Algumas vezes os passageiros ficavam completamente envoltos pelas ondas que recebiam filosoficamente. Fix resmungava sem dúvida, mas a intrépida Aouda, os olhos fixos no seu companheiro, cujo sangue frio não podia deixar de admirar, mostrava-se digna dele e arrostava a tormenta ao seu lado. Quanto a Phileas Fogg, parecia que aquele tufão fazia parte do seu programa.

Até então a Tankadère fizera sempre rota para o norte; mas pela noite, como se receiava, o vento, rodando três quartos, soprou para noroeste. A goleta, oferecendo então o flanco à vaga, foi assustadoramente sacudida de modo terrível. O mar embatia contra ela com uma violência assustadora, quando não se sabe a solidez com que todas as peças de uma embarcação estão ligadas entre si.

Com a noite, a tempestade acentuou-se ainda. Vendo a escuridão começar, e com a escuridão aumentar a tormenta, John Bunsby padeceu com vivas inquietações. Perguntou-se se não seria tempo de relaxar, e consultou a tripulação.

Depois de interrogar seus homens, John Bunsby aproximou-se de Mr. Fogg, e disse-lhe:

– Acredito, Vossa Honra, que seria melhor aproarmos em um dos portos da costa.

– Também acredito, respondeu Mr. Phileas Fogg.

– Ah! exclamou o piloto, mas em qual?

– Só conheço um, respondeu tranquilamente Mr. Fogg.

– E é...

– Shangai.

Esta resposta, o piloto a princípio levou alguns minutos sem compreender o que significava, o quanto continha de obstinação e de tenacidade. Depois exclamou:

– Ah, sim! Vossa Honra tem razão. Para Shangai!

E a direção da Tankadère foi imperturbavelmente conservada para o norte.

Noite verdadeiramente terrível! Foi um milagre que a pequena goleta não sossobrasse. Duas vezes esteve a esse ponto, e tudo quase foi levado de bordo. Mrs. Aouda estava fatigada, mas não fez ouvir uma queixa. Mais de uma vez Mr. Fogg teve de correr para protegê-la da violência das ondas.

O dia reapareceu. A tempestade desencadeava-se ainda com um extremo furor. Contudo, o vento recaiu para o sudoeste. Era uma mudança favorável, e a Tankadère abriu novamente caminho sobre este mar agitado, cujas ondas se encontravam com as que o novo vento levantava. Daí um choque de contra-ondas, que teria esmagado uma embarcação menos solidamente construída.

De tempo em tempo avistava-se a costa através de aberturas nas brumas , mas nenhum navio à vista. A Tankadère era única no mar.

Ao meio dia, houve alguns sintomas de acalmia, que, com o baixar do sol no horizonte, se pronunciaram mais nitidamente.

A pouca duração da tempestade devia-se à sua própria violência, Os passageiros, absolutamente prostrados, puderam comer e repousar um pouco.

A noite foi relativamente sossegada. O piloto largou outra vez as velas. A velocidade da embarcação foi considerável. No dia seguinte, ao nascer do dia, John Bunsby, feito o reconhecimento da costa, pôde afirmar que não estavam a cem milhas de Shangai.

Cem milhas, e só restava aquele dia para as percorrer! Era naquela mesma tarde que Mr. Fogg deveria chegar a Shangai, se não quisesse perder a partida do paquete para Yokohama. Sem aquela tempestade, durante a qual perdeu muitas horas, estaria naquele momento a trinta milhas do porto.

A brisa abonançava sensivelmente, mas por fortuna o mar caía com ela. A goleta se cobriu de panos. Flechas, velas de estal, bujarrona, tudo entrara em ação, e o mar escumava sob a roda da proa.

Ao meio dia, a Tankadère não estava a mais de quarenta e cinco milhas de Shangai. Restavam seis horas ainda para ganhar este porto antes da partida do paquete para Yokohama.

Os receios foram muitos. Queriam chegar a todo custo. Todos – menos Phileas Fogg por certo – sentiam o coração bater de impaciência. Era preciso que a pequena goleta se mantivesse numa média de nove milhas por hora, e o vento continuava a amainar! Era uma brisa irregular, as lufadas caprichosas vindo da costa. Passavam, e o mar se acalmava também após sua passagem.

Contudo a embarcação era tão leve, suas velas altas, de um tecido fino, apanhavam tão bem as lufadas irregulares, que, a corrente ajudando, às seis horas, John Bunsbay não contava mais que dez milhas até o rio de Shangai, porque a cidade está situada a doze milhas pelo menos acima da embocadura.

Às sete horas, achavam-se ainda a três milhas de Shangai. Uma formidável praga escapou da boca do piloto... O prêmio de duzentas libras iria evidentemente lhe escapar. Olhou para Mr. Fogg. Mr. Fogg estava impassível, e contudo toda a sua fortuna era jogada neste momento...

Neste momento também, uma longa fuselagem negra, coroada com um penacho de fumaça, apareceu ao nível da água. Era o paquete americano, que saía na hora regulamentar.

– Maldição! exclamou John Bunsby, que empurrou o leme com um braço desesperado.

– Sinais! disse simplesmente Phileas Fogg.

Um pequeno canhão de bronze se alojava na proa da Tankadère. Servia para fazer sinais em tempos de nevoeiro.

A peça foi carregada até à boca, mas no momento em que o piloto ia aplicar um carvão ardente à peça:

– A bandeira a meio pau, disse Mr. Fogg.

A bandeira foi arreada a meio mastro. Era um sinal de perigo, e podiam esperar que o paquete americano, percebendo-o, modificasse por um instante sua rota para dirigir-se à embarcação.

– Fogo! disse Mr. Fogg.

E a detonação da pequena peça de bronze eclodiu no ar.
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