Capítulo I – A Primeira meia hora

Que se teria passado? Que efeito teria produzido aquele espantoso abalo? O plano dos construtores do projétil teria sido bem sucedido? E o choque fora porventura amortecido pelas molas, pelas quatro cunhas, pelas almofadas de água, pelos tabiques quebradiços? Teriam conseguido dominar o terrível impulso da velocidade inicial de doze mil jardas, que bastaria para atravessar Paris ou Nova Iorque num segundo?

Evidentemente, esta era a questão que a multidão fazia a si mesma. Contudo, essas pessoas eram reles testemunhas daquela emocionante cena, incapazes de usurfluir de maiores detalhes. Todos esqueciam o propósito da viagem para pensar apenas nos viajantes! E se alguém dentre eles - J. T. Maston, por exemplo - tivesse podido espreitar o interior do projétil, que teria visto?

Naquela altura, nada. A escuridão era profunda dentro do projétil. Todavia, as paredes cilindro-cônicas haviam resistido maravilhosamente. Nem uma fenda, nem uma dobra, nem uma deformação. O admirável projétil não sofrera a mínima alteração apesar da violenta deflagração da pólvora, e muito menos se transformara numa chuva de alumínio, como muita gente boa temia.

No interior, a desordem era mínima. Alguns dos objetos tinham sido violentamente atirados de encontro à cúpula, mas os mais importantes pareciam estar em boas condições. Os respectivos suportes estavam intactos.

Sobre o disco móvel, que baixara até o fundo do projétil, depois de quebrados os tabiques, jaziam três corpos. Barbicane, Nicoles e Michel Ardan ainda respirariam? Não se teria transformado o projétil num ataúde de metal que transportava três cadáveres pelo espaço?

Alguns minutos após a partida, um dos três corpos fez um movimento. Depois, agitou os braços, soergueu a cabeça e conseguiu pôr-se de joelhos. Era Michel Ardan. Apalpou-se, soltou um sonoro “hem” e disse:

- Michel Ardan, inteiro. Vejamos os outros!

O corajoso francês quis levantar-se, mas não conseguiu pôr-se de pé. A cabeça rodava e o sangue, violentamente injetado cegava-o. Sentia-se como um bêbado.

- Brr! - fez ele - Isto me provoca os mesmos efeitos de duas garrafas de Corton. Só que talvez seja menos agradável de engolir!

Em seguida, passando repetidas vezes a mão pela testa e esfregando as têmporas, gritou com voz firme:

- Nicoles! Barbicane!

E esperou ansiosamente. Nenhuma resposta. Nem mesmo um suspiro que indicasse se o coração dos companheiros continuava a bater. Voltou a chamá-los, mas o silêncio persistiu.

- Diabos! - resmungou. Têm todo o ar de quem caiu de cabeça de um quinto andar!

- Bah! – acrescentou, com aquela imperturbável confiança que nada podia afetar - se um francês conseguiu pôr-se de joelhos, dois americanos não terão qualquer dificuldade em levantar-se. Mas, antes, o melhor é esclarecer a situação.

Ardan sentia que pouco a pouco as forças lhe voltavam. Seu sangue acalmava-se enquanto ia retomando a circulação normal. Depois de repetidos esforços, conseguiu equilibrar-se, e levantar-se. Tirou da algibeira um fósforo e riscou-o. Em seguida aproximou-o do bico de gás que acendeu. O recipiente estava intacto. O gás não se escapara. Se tal tivesse acontecido, nem o odor característico passaria despercebido, nem Michel Ardan teria podido acender impunemente o fósforo em um ambiente saturado de hidrogênio. O gás, combinado com o ar, teria produzido uma mistura detonante, e a explosão acabaria aquilo que o abalo inicial talvez houvesse começado.

Assim que acendeu o bico de gás, Ardan examinou os corpos dos companheiros, que estavam tombados um sobre o outro, como massas inertes: Nicoles por cima, Barbicane por baixo.

Ardan levantou o capitão, encostou-o a um sofá e aplicou-lhe vigorosas fricções. Esta massagem, inteligentemente feita, reanimou Nicoles, que abriu os olhos, recobrou instantaneamente o sangue-frio e agarrou na mão de Ardan.

Depois, olhando à sua volta, perguntou:

- E Barbicane?

- Calma, um de cada vez - respondeu serenamente Michel Ardan - Comecei por ti, Nicoles, porque estavas à mão. Tratemos agora de Barbicane.

Dito isto, Ardan e Nicoles levantaram o presidente do Clube do Canhão e deitaram-no no sofá. Barbicane parecia estar mais combalido do que os companheiros. Perdia sangue. Mas Nicoles tranquilizou-o quando verificou que a hemorragia provinha de um ligeiro ferimento no ombro. Uma simples esfoladela que tratou de comprimir cuidadosamente.

Não obstante, Barbicane levou algum tempo a recuperar os sentidos, o que assustou um pouco os seus dois amigos, que se fatigavam a friccioná-lo.

- Ainda respira - dizia Nicoles, aplicando o ouvido no peito do ferido.

- Sim - volvia Ardan - respira como um homem que ganhou o hábito de fazê-lo todos os dias. Friccionemos Nicoles, friccionemos!

E os dois improvisados médicos deram tantas e tão boas massagens que Barbicane recobrou os sentidos. Abriu os olhos, levantou-se, apertou a mão dos dois amigos e as suas primeiras palavras foram estas:

- Nicoles, vamos a caminho?

Nicoles e Ardan entreolharam-se. Ainda não tinham tido tempo para pensar no projétil. Muito naturalmente, haviam se preocupado primeiro com eles próprios.

- É verdade... Será que vamos pelo caminho correto? - repetiu Michel Ardan.

- Ou será que estamos tranquilamente pousados no solo da Flórida? - aventou por sua vez Nicoles.

- E não estaremos no fundo do golfo do México? - acrescentou Michel Ardan.

- Esta agora! - exclamou o Presidente Barbicane

A dupla hipótese sugerida pelos companheiros teve como efeito imediato a recuperação total de Barbicane.

Seja lá o que fosse, naquele momento nada podiam saber acerca da real situação do projétil. A sua aparente imobilidade e a falta de comunicação com o exterior não permitiam a resolução do problema. Era possível que o projétil já seguisse sua rota no espaço. Mas não era menos possível que, após uma curta ascensão, tivesse caído por terra... Ou mesmo no golfo do México - probabilidade que a pouca largura da península da Flórida tornava viável.

O caso era grave, o problema interessante. Era necessário resolvê-lo e depressa. Barbicane, excitado e triunfando pela energia moral da debilidade física, levantou-se.

Pôs-se à escuta. No exterior, silêncio absoluto. Mas a espessura do acolchoamento das paredes era suficiente para absorver todos os ruídos vindos da Terra. Entretanto, houve uma circunstância que não escapou a Barbicane: a temperatura no interior do projétil era particularmente elevada. Tirou de imediato um termômetro em uma caixa que possuíam e consultou-o. O instrumento assinalava quarenta e cinco graus centígrados.

- Sim! - bradou entusiasmado - Vamos a caminho! Este calor provém das paredes do projétil. É a consequência do atrito com as camadas atmosféricas. Em breve diminuirá, porque já devemos estar cruzando o vácuo. Não tarda que tenhamos de suportar um frio intenso.

- Como? - Não se conteve Michel Ardan - És então de opinião que já estamos fora dos limites da atmosfera terrestre?

- Sem dúvida alguma, Michel. Ouve-me: são dez horas e cinquenta e cinco, o que significa que partimos há perto de oito minutos. Ora, a menos que a velocidade inicial tenha diminuído com o atrito, seis segundos bastariam para que ultrapassássemos as dezesseis léguas de atmosfera que circundam o nosso esferóide.

- Perfeito - intrometeu-se Nicoles - mas, em sua opinião, em que proporção terá atuado o atrito na redução da velocidade?

- Julgo que na proporção de um terço - esclareceu Barbicane, e prosseguiu - É uma redução considerável, mas, com base nos meus cálculos, é certa. Logo, se partimos animados de uma velocidade inicial de doze mil jardas, à saída da atmosfera ela estaria reduzida a sete mil oitocentas e trinta e duas jardas... Portanto, em qualquer dos casos, já superamos as tais dezesseis léguas.

- E isto significa - concluiu Michel Ardan - que o amigo Nicoles perdeu mais duas apostas, como, aliás, eu previra: quatro mil dólares porque o columbiad não explodiu; e cinco mil porque o projétil subiu a uma altitude superior a seis milhas.

- Vá Nicoles, puxa o dinheiro da bolsa!

- Calma, que tal irmos sem tanta pressa? - replicou o capitão - Primeiro, asseguremo-nos da situação, depois faremos contas... É muito provável que as previsões de Barbicane estejam certas e eu tenha perdido os nove mil dólares; mas ocorreu-me uma outra hipótese que pode tornar nula a aposta.

- Qual, pode-se saber? - perguntou muito interessado Barbicane.

- Suponham que, por qualquer motivo, a pólvora não foi inflamada e que, portanto, ainda não partimos.

- Com a breca, capitão! - exclamou Michel Ardan.

- Eis uma hipótese digna da minha cabeça. Não falas sério! Acaso não saímos machucados do abalo provocado pelo disparo? Não me vi obrigado a reanimar-te? E o ombro do presidente não sangra ainda?

- De acordo, Michel; todavia, permite-me uma pergunta - insistiu Nicoles.

- À vontade, capitão.

- A detonação foi com certeza formidável. Ouviste-a?

- Não - respondeu Ardan, muito surpreendido - Para falar a verdade, não ouvi nenhuma detonação.

- E você, Barbicane?

- Também não.

- E então? - rematou Nicoles.

- De fato... - murmurou o presidente - Por que não a ouvimos?

Os três amigos entreolharam-se, perplexos. Encontravam-se perante um fenômeno inexplicável.

- E, no entanto, se o projétil partira, a detonação teve de produzir-se...

- Em primeiro lugar é preciso saber onde estamos - comandou Barbicane - Desçamos as portinholas!

Essa operação, extremamente simples, depressa foi executada. As porcas que mantinham os parafusos nas chapas exteriores da vigia direita cederam à pressão de uma chave-inglesa. Tiraram-se os parafusos, tapando os orifícios por eles deixados com obturadores guarnecidos com borracha. A chapa exterior descaiu, entrando na respectiva dobradiça, como uma portinhola, e logo apareceu o vidro penticular que fechava a vigia. Vigias idênticas estavam localizadas na espessura da parede oposta, na cúpula e no centro da placa que constituía o chão do projétil. Esta disposição possibilitava que fossem feitas observações em quatro direções diferentes: do firmamento pelas vigias laterais, da Terra e da Lua pelas aberturas superior e inferior.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/
Barbicane e os dois companheiros tinham-se precipitado para a vigia. Nem um só raio luminoso a penetrava. Uma profunda obscuridade envolvia o projétil. Isto não impediu o Presidente Barbicane de bradar:

- Não, meus amigos, não caímos em terra! Nem estamos imersos no fundo do golfo do México! Sim, elevamo-nos no espaço! Vejam estas estrelas que cintilam na noite e a impenetrável escuridão que se adensa entre nós e a Terra!

- Viva! Viva! - exclamaram em uníssono Michel Ardan e Nicoles.

Realmente, aquela treva compacta provava que o projétil deixara a Terra, porque o solo, então vivamente iluminado pelo luar, teria sido avistado pelos viajantes se nele estivessem pousados. Por outro lado, aquela obscuridade demonstrava ainda que o projétil passara a camada atmosférica, porque a luz difusa espalhada no ar havia de provocar nas paredes metálicas um reflexo, de que também não se vislumbravam sinais. Esse reflexo teria iluminado a vigia, e a verdade é que da vigia só se via a noite circundante. Não havia mais lugar para dúvidas. Os viajantes tinham deixado a Terra.

- Perdi - disse Nicoles.

- Dou-te os meus parabéns! - acudiu logo Ardan.

- Aqui estão os nove mil dólares - anunciou o capitão, tirando da algibeira um maço de notas.

- Quer que lhe passe um recibo? - perguntou Barbicane, agarrando as notas.

- Se isto não o incomoda... - declarou Nicoles - Sempre é, como disser... Mais regular...

E o Presidente Barbicane, com toda a fleuma e seriedade, tal como se encontrasse no seu gabinete, arrancou a folha de papel branco do seu bloco de notas, redigiu a lápis o recibo, datou-o, assinou-o, rubricou-o e o entregou ao capitão, que o guardou na carteira.

Michel Ardan, descobrindo-se, fez uma pequena vênia aos companheiros e não disse palavra. Tanta formalidade em tais circunstâncias emudecera-o. Nunca tinha visto nada tão “americano”.

Terminada a cerimônia, Barbicane e Nicoles haviam voltado para junto da vigia e contemplavam as constelações. As estrelas eram pontos brilhantes sobre o fundo negro do céu. Mas daquele ponto não se via o astro da noite, que, deslocando-se de leste para oeste, se elevava placidamente na direção do zênite. O fato provocou dúvidas em Ardan.

- E a Lua? - perguntou ele - Será que ela vai faltar ao nosso encontro?

- Sossega homem! - quem lhe respondia era Barbicane - O nosso satélite está à nossa espera. Nós é que não podemos vê-lo desta posição. Abramos a outra vigia lateral.

No momento em que Barbicane ia se afastar para destacar a vigia oposta, a sua atenção foi despertada pela aparição súbita de um objeto brilhante. Era um disco enorme, cujas colossais dimensões não podiam ser avaliadas. A face que estava voltada para a Terra apresentava-se profusamente iluminada. Por mais insano que pudesse parecer, o corpo estranho parecia uma Lua menor refletindo a luz da maior. Acercava-se com uma prodigiosa velocidade e parecia descrever em torno da Terra uma órbita que interceptava a trajetória do projétil. O seu movimento de translação era acompanhado por um movimento simultâneo de rotação. Comportava-se, portanto, como todos os corpos celestes isolados no espaço.

- Eh! - exclamou Michel Ardan - Que é aquilo? Um outro projétil?

Barbicane não respondeu. Aquela aparição surpreendia-o e inquietava-o. Um choque não era impossível e, se ocorresse, teria resultados deploráveis: ou provocaria um desvio na trajetória do projétil, ou retirar-lhe-ia a velocidade adquirida, precipitando-o em direção à Terra, ou, enfim, a força atrativa do asteróide afastá-lo-ia irresistivelmente.

O Presidente Barbicane alcançara rapidamente todas as consequências das três hipóteses, que de uma ou de outra maneira comprometiam fatalmente a experiência.

Os companheiros olhavam emudecidos o espaço.

O objeto aumentava prodigiosamente de volume à medida que se aproximava. Todavia, mercê de uma ilusão de ótica, poder-se-ia pensar que era o projétil que lhe corria ao encontro.

- Com mil diabos! - bradou Michel Ardan - Os dois comboios vão chocar!

Os viajantes recuaram instintivamente. Sentiram um medo terrível, que, no entanto, se dissipou alguns segundos depois. O asteróide passou a umas centenas de metros do projétil e desapareceu, não tanto devido à velocidade de que ia animado, mas porque a face oposta à Lua se confundiu imediatamente com a profunda escuridão do espaço.

- Boa viagem! - suspirou aliviado Michel Ardan - E inacreditável! Então o infinito não é Bastante grande para permitir que um pequeno projétil passe pelo espaço? Essa agora! Mas, afinal, que globo luminoso era aquele?

- Eu sei... - disse Barbicane.

- Por Deus! Sabes tudo!

- É uma bólide - prosseguiu Barbicane – um enorme meteorito que a força de atração terrestre transformou em satélite

- Aí, sim! - admirou-se Michel Ardan - Então a Terra tem também duas luas como Marte? 

- Sim, meu amigo, embora geralmente se diga que tem apenas uma. Essa segunda Lua é tão pequena e possui uma velocidade tão grande que os habitantes da Terra não podem vê-la. Todavia, tendo em conta determinadas perturbações, um astrônomo francês logrou descobrir esse segundo satélite e estabelecer a seu respeito alguns dados. Com base nas suas observações, essa bólide completa a sua revolução em torno da Terra somente em três horas e vinte minutos, o que significa que está animado de prodigiosa velocidade.

- E todos os astrônomos admitem a existência desse satélite? - interrogou Nicoles.

- Não - respondeu Barbicane - mas se, como nós, quase a tocassem, não teriam mais dúvidas. É verdade... Estou pensando que essa bólide, que nos causaria graves problemas se chocasse com o projétil, vai permitir-nos determinar com precisão a nossa posição no espaço.

- De que maneira? - interessou-se Ardan

- Pela distância em que o encontramos, estávamos exatamente a oito mil cento e quarenta quilômetros da superfície terrestre.

- Mais de duas mil léguas! - exclamou Michel Ardan - Isto quer dizer que batemos os comboios expressos daquele globo que se chama Terra!

- Assim creio - admitiu Nicoles, consultando o cronômetro - São onze horas, o que quer dizer que deixamos o continente americano há apenas treze minutos.

- Só treze minutos? - Surpreendeu-se Barbicane.

- É verdade - confirmou Nicoles - E, se a nossa velocidade inicial de doze mil jardas se mantivesse constante, atingiríamos cerca de dez mil léguas à hora!

- As coisas estão correndo muito bem, meus amigos - declarou o presidente - mas há um problema que permanece insolúvel; por que não ouvimos a detonação do Columbiad?

Como tal pergunta ninguém sabia responder, a conversa ficou por ali. Barbicane, embora entregue às suas reflexões, predispôs-se então a destapar a segunda vigia lateral. A operação foi bem sucedida, pelo que através dela a Lua iluminou o interior do projétil com uma fulgurante luz.

Nicoles, como homem econômico que era, apagou o bico de gás, de que já não careciam, e cuja claridade prejudicava a observação dos espaços interplanetários.

O disco lunar refulgia nesse momento em toda a sua pureza. Os raios que emitia, libertos dos vapores que toldam a atmosfera terrestre, filtravam-se através da vigia e inundavam de reflexos prateados no interior do projétil. O negro véu do firmamento duplicava o esplendor da Lua, que, no vácuo do éter, impróprio para a difusão da luz, não ofuscava o das estrelas vizinhas. O céu visto desta maneira oferecia um aspecto totalmente novo, de que os olhos humanos não podiam suspeitar até então.

Não é difícil imaginar com que interesse os audazes companheiros contemplavam o astro da noite, supremo objetivo da sua viagem. O satélite da Terra, no seu movimento de translação, avizinhava-se pouco a pouco do zênite, ponto matemático que devia atingir cerca de noventa e seis horas depois. As suas planícies e montanhas, todo o seu relevo, não se distinguiam com maior clareza do que quando observadas de qualquer ponto da Terra. Contudo, a sua luz, através do vácuo, desenvolvia-se com uma intensidade incomparável. O disco resplandecia como um espelho de platina. Da Terra, que se perdia na distância sob os seus pés, os viajantes já quase não se lembravam.

O Capitão Nicoles foi o primeiro a recordar o Globo abandonado.

De translação, avizinhava-se pouco a pouco do zênite, ponto matemático que devia atingir

- Sim - concordou Michel Ardan - é bom que não sejamos ingratos para com ele. Uma vez que abandonamos a pátria, é justo que lhe dediquemos os nossos últimos olhares. Quero rever a Terra antes que desapareça completamente da minha vista!

Para satisfazer os desejos do companheiro, Barbicane começou a desembaraçar a vigia do fundo do projétil, precisamente aquela que possibilitava a observação direta da Terra. O disco, que a força da projeção levara até o “chão” do projétil, deu algum trabalho para desmontar. Os seus fragmentos, colocados cuidadosamente às paredes, podiam ter utilidade, numa emergência.

Apareceu, então, um vão circular, de cinquenta centímetros de diâmetro, vazado na parte inferior do projétil, fechado por meio de um vidro de quinze centímetros de espessura e reforçado por uma armadura de cobre. Por baixo, tinha adaptada uma chapa de alumínio segura por parafusos.

Desatarraxadas as porcas e tirados os parafusos, a chapa deslizou, e a comunicação visual com o exterior ficou estabelecida.

Ardan ajoelhara-se junto ao vidro: estava escuro, como se fosse opaco.

- Então! - exclamou ele - Onde está a Terra?

- A Terra está ali - apontou Barbicane.

- O quê! - estranhou Ardan – É aquele fiozinho estreito... aquele crescente prateado?

- Aquele mesmo, Michel. Dentro de quatro dias, na lua cheia, exatamente no instante em que chegarmos ao nosso objetivo, entrará a Terra na fase da terra nova. Nessa altura, ela aparecer-nos-á sob a forma de um crescente muito estreito, que não tardará a desaparecer por alguns dias na sombra impenetrável.

- Aquilo... É a Terra? - repetia Michel Ardan, abrindo os olhos quanto podia para ver a fatiazinha do planeta natal.

A explicação do Presidente Barbicane era exata. A Terra achava-se em relação ao satélite na sua última fase. Estava no minguante, pelo que dela só se avistava um estreito crescente desenhado a rigor no fundo negro do céu. A luz, azulada por efeito da espessura da camada atmosférica, era menos intensa do que a do crescente lunar. O crescente terrestre possuía, entretanto, consideráveis dimensões. Alguns pontos, vivamente iluminados, sobretudo na parte côncava do arco, denunciavam a presença de altas montanhas. Mas, de vez em quando, desapareciam sob espessas manchas que nunca se vêem na superfície do disco lunar. Eram os anéis de nuvens, concentricamente dispostos em torno do esferóide terrestre.

Contudo, devido a um fenômeno natural, idêntico ao que se dá na Lua quando está no primeiro e último oitante, podia divisar-se todo o contorno do globo terrestre. O disco deste aparecia bem visível em virtude de um efeito de luz cendrada, menos apreciável que a luz cendrada da Lua. E a razão desta menor intensidade é fácil de compreender.

Esse reflexo, quando se produz na Lua, é devido aos raios solares que a Terra reflete na direção do seu satélite; quando se produz na Terra, resulta do fenômeno contrário, isto é, passa a ser a Lua a refletir os raios solares na direção da Terra. Ora, a luz terrestre é, aproximadamente, treze vezes mais intensa do que a lunar, fato que se explica pela diferença de volumes dos dois corpos.

Daí a razão por que, no fenômeno da luz cendrada, a parte obscura do disco da Terra se destaca menos nitidamente do que a do disco da Lua, uma vez que a intensidade do fenômeno é proporcional ao poder iluminante dos dois astros. Convém acrescentar ainda que o crescente terrestre parecia desenhar uma curva mais alongada que a do disco. Puro efeito de irradiação, nada mais.

Em suma, eis tudo o que eles viam desse esferóide perdido na obscuridade - astro menor do sistema solar, que, para os grandes planetas, se põe e nasce tal qual uma simples estrela da manhã ou da noite! Imperceptível ponto do espaço. O Globo onde haviam deixado tudo o que mais amavam na vida era apenas um crescente fugitivo!

Os três amigos olharam-no demoradamente em silencio, mas unidos no mesmo sentimento, enquanto o projétil se afastava a uma velocidade uniformemente decrescente. Depois, uma irresistível sonolência venceu-os. Fadiga do corpo e da alma?  Certamente, porque, após a excitação das últimas horas passadas na Terra, outra reação não era de se esperar.

- Bem já que é preciso dormir, durmamos - disse Michel.
Os três amigos imergiram num profundo sono. 

Mas não dormiram nem um quarto de hora. Barbicane levantou-se subitamente e, despertando os companheiros, gritou:

- Achei!

- Que é que tu achaste? - perguntou Michel Ardan, saltando do seu pequeno leito.

- A razão por que não ouvimos a detonação do columbiad!

- E qual é? - perguntou Nicoles.

- Não ouvimos a detonação, porque o nosso projétil se deslocava a uma velocidade superior à da propagação do som!

Capítulo XVI - Um Novo Astro

Nessa mesma noite, a palpitante notícia tão impacientemente esperada estourou como uma bomba nos Estados Unidos e, daí, foi lançada através do oceano e percorreu por todos os fios telegráficos do Globo. O projétil fora visto, graças ao gigantesco refletor de Long’s Peak.

Eis a nota redigida pelo diretor do Observatório de Cambridge. Contém a conclusão científica dessa grande experiência do Clube do Canhão.


“Long’s Peak, 12 de dezembro.

Relatório dos Membros do Gabinete do Observatório de Cambridge.

O projétil lançado pelo columbiad da Colina das Pedras foi visto pelos senhores Belfast e J. T. Maston, a 12 de dezembro, às oito horas e quarenta e sete minutos da noite, tendo a Lua entrado no seu último quarto.

Esse projétil não atingiu o seu objetivo. Passou ao lado da Lua, no entanto foi suficientemente perto para ser retido pela atração lunar.
Ali, o seu movimento retilíneo transformou-se num movimento circular de uma rapidez vertiginosa, e foi arrastado seguindo uma órbita elíptica em volta da Lua, da qual se tornou um verdadeiro satélite.

Os elementos desse ‘novo astro’ não puderam ainda ser determinados. Não se conhece nem a sua velocidade de translação, nem a de rotação. A distância que o separa da superfície da Lua pode ser avaliada em, aproximadamente, quatro mil quinhentos e cinquenta quilômetros.

Agora, podem dar-se duas hipóteses, que poderão levar a uma modificação no estado das coisas:

Ou a atração da Lua acabará por se impor e os viajantes atingirão o objetivo da sua viagem; ou, mantido numa ordem imutável, o projétil ficará gravitando em redor do disco lunar até ao fim dos séculos.

Será isso que as observações hão de mostrar um dia, mas até aqui a tentativa do Clube do Canhão só teve como resultado dotar com um novo astro o nosso sistema solar.

J. M. Belfast.”


Quantas questões levantavam este inesperado desenlace. Que situação cheia de mistérios o futuro reservaria às investigações da ciência. Graças à coragem e dedicação de três homens, aquele empreendimento de enviar um projétil à Lua, bastante fútil na aparência, acabava de ter um resultado imenso, cujas consequências eram incalculáveis.

Os viajantes, prisioneiros num novo satélite, não tinham atingido o seu objetivo, mas faziam pelo menos parte do mundo lunar; gravitavam em torno do astro da noite, e, pela primeira vez, o olhar humano podia penetrar todos os seus mistérios. Os nomes de Nicoles, de Barbicane e de Michel Ardan deverão ficar para sempre célebres nos anais da astronomia, pois esses ousados exploradores, ávidos por alargar o círculo dos conhecimentos humanos, se lançaram audaciosamente através do espaço, e puseram em jogo as suas vidas na mais notável tentativa dos tempos modernos.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/
Quando a nota de Long’s Peak foi descoberta pelo público geral, causou no mundo inteiro uma sensação de surpresa e de receio. Seria possível seguir em auxílio dos ousados habitantes da Terra? Não, sem dúvida, pois eles encontravam-se fora da humanidade ao transporem os limites impostos por Deus às criaturas terrestres!

Poderiam ter ar durante dois meses. Tinham víveres para um ano. Mas depois?... Os corações mais insensíveis palpitavam com esta terrível questão.

Apenas um homem não queria admitir que a situação fosse desesperada. Só um tinha confiança. Era um amigo dedicado, audacioso e resoluto como eles. O valente J. T. Maston.

Ele não os perdia de vista. A sua residência foi desde então o posto de Long’s Peak; o seu horizonte, o espelho do imenso refletor. Logo que a Lua surgia no horizonte, ele enquadrava-a no campo de visão do telescópio e não a perdia nem um instante de vista, seguindo-a ininterruptamente na sua marcha através do espaço; observava com eterna paciência a passagem do projétil sobre o seu disco de prata, e verdadeiramente o digno homem estava em perpétua comunicação com os seus amigos, que não desesperava de voltar a ver um dia.

- Haveremos de nos corresponder com eles logo que as circunstâncias o permitam - dizia a quem desejasse ouvir - Teremos notícias deles e eles terão notícias nossas! Eu os conheço, são homens engenhosos. Os três levaram para o espaço todos os recursos da arte, da ciência e da indústria. Com isso, faz-se o que se quer, e hão de ver que eles hão de sair bem da situação!

Capítulo XV - Fogo!


O dia primeiro de dezembro havia chegado. Dia decisivo, pois se a partida do projétil não se efetuasse nessa mesma noite, às dez horas, quarenta e seis minutos e quarenta segundos, se passariam mais de dezoito anos para que a Lua se apresentasse nas mesmas condições de zênite e de perigeu.

O tempo estava magnífico; apesar da aproximação do inverno, o Sol resplandecia e iluminava com os seus raios esta Terra que três dos seus habitantes iam deixar em troca de um novo mundo.

Quantas pessoas dormiram mal na véspera desse dia tão impacientemente aguardado! Quantos peitos estavam oprimidos pelo pesado fardo da espera! Todos os corações palpitavam de inquietação, exceto o de Michel Ardan. Essa personagem impassível ia e vinha como fazia habitualmente, mas nada denunciava nela qualquer preocupação invulgar. O seu sono tinha sido tranquilo, como o sono de Turenne, antes da batalha, encostado ao reparo de um canhão.

Logo pela manhã uma multidão imensa cobria as planícies que se estendem a perder de vista em redor da Colina das Pedras. De quarto em quarto de hora, o trem de Tampa trazia novos curiosos; essa emigração tomou rapidamente proporções fantásticas, e, segundo os relatos, durante esse dia memorável cerca de cinco milhões de espectadores pisaram o solo da Flórida.

Desde há um mês que grande parte dessa multidão se encontrava acampada em redor do recinto, e lançava os alicerces de uma cidade que depois veio se chamar de Ardan’s. Barracas, cabanas, tendas, casebres, espalhavam-se pelo campo, e essas habitações efêmeras abrigavam uma população suficientemente numerosa para fazer inveja às maiores cidades da Europa.

Todos os povos da Terra ali tinham os seus representantes; todos os dialetos do Mundo eram falados ali ao mesmo tempo. Dir-se-ia a confusão das línguas, como nos tempos bíblicos da Torre de Babel. Ali, as diversas classes da sociedade americana confundiam-se numa igualdade absoluta. Banqueiros, lavradores, marinheiros, moços de recados, plantadores de algodão, negociantes, barqueiros, magistrados; acotovelavam-se numa sem-cerimônia primitiva.

Os crioulos da Lusitânia confraternizavam com os agricultores de Indiana; os gentlemen de Kentucky e de Tennessee, as senhoras da Virgínia, elegantes e altivas, conversavam com caçadores semi-selvagens dos lagos e com os negociantes de gado de Cincinnati. Usavam na cabeça chapéu de castor branco com abas largas, ou o clássico Panamá e vestiam calças de algodão azul das fábricas de Opelousas. Cobriam o corpo com blusas elegantes de pano cru, calçando botinas de cores vivas, exibiam extravagantes lenços de fina cambraia, e faziam cintilar nos peitilhos das suas camisas, nas suas mangas, nas suas gravatas, nos seus dez dedos e até mesmo nas orelhas, todo um sortimento de anéis, de alfinetes, de brincos, cujo alto preço igualava o mau gosto.

Mulheres, crianças, criados, em toaletes não menos opulentas, acompanhavam, seguiam, precediam, rodeavam, esses maridos, esses pais, esses patrões, que se assemelhavam a chefes de tribo no meio das suas inumeráveis famílias.

À hora das refeições toda essa gente precipitava-se sobre os alimentos peculiares dos Estados do Sul e devorava, com um apetite ameaçador para o abastecimento da Flórida. Alimentos que repugnariam a um estômago europeu, como rãs de fricassê, macacos recheados, gambá assado e opôs ainda em sangue, grelhado.

Contudo, como compensação, que variedade de licores e de bebidas ajudava essa alimentação indigesta! Que gritos excitantes, que vociferações ressoavam nas tabernas repletas de copos, frascos e garrafas de formas inverossímeis!

- Aqui há o licor de mentol! - gritava um desses vendedores com voz tonitruante.

- Sangria de vinho de Bordéus! - replicava outro num tom esganiçado.

- E gin sling! - repetia este.

- E coquetel Brandy smash! - Gritava aquele.

- Quem quer provar o verdadeiro mint-julep à última moda - exclamavam esses hábeis comerciantes, fazendo passar rapidamente, de um copo para outro, como prestidigitadores, o açúcar, o limão, a hortelã-pimenta, o gelo picado, a água, o conhaque e o ananás fresco que compõem essa bebida refrescante.

Essas incitações, habitualmente dirigidas às gargantas secas e sedentas sob a ação escaldante das especiarias, repetiam-se, cruzavam-se no ar e produziam um balindo ensurdecedor. Mas nesse primeiro de dezembro, esses gritos eram raros. Os vendedores teriam enrouquecido em vão tentando provocar os fregueses. Ninguém pensava nem em comer nem em beber, e às quatro horas da tarde circulavam entre a multidão muitos espectadores que nem sequer tinham comido o seu almoço habitual. E houve um sintoma mais significativo ainda: a violenta paixão dos americanos pelo jogo tinha sido vencida pela emoção.

Quem reparasse nos pauzinhos do tempins deitados no chão, os dados do creps a dormir nos copos, a roleta imóvel, o cribbage abandonado, as cartas do uíste, do ‘vinte e um’, do vermelho e do negro, do montinho e do faro, encerradas nos seus invólucros intactos, compreenderia que o acontecimento do dia absorvia tudo e não deixava lugar para qualquer outra distração.

Até o desabrochar da noite, uma agitação surda, sem clamor, como a que precede as grandes catástrofes, correu entre aquela multidão ansiosa. Um indescritível mal-estar reinava nos espíritos, um torpor penoso, um sentimento indefinível que apertava o coração. Todos desejavam “que tudo acabasse depressa”.

No entanto, por volta das sete horas, aquele pesado silêncio dissipou-se bruscamente.

A Lua erguia-se no horizonte. Vários milhões de vivas saudaram o seu aparecimento: tinha sido pontual ao encontro. Os clamores subiram até o céu; os aplausos explodiram de todos os lados, enquanto a loura Febe brilhava tranquilamente num céu admirável e acariciava aquela multidão embriagada pelos seus raios mais afetuosos.

Nesse momento, apareceram os três intrépidos viajantes. Ao vê-los, a multidão redobrou os seus gritos. Unanimemente, de forma instantânea, o hino nacional dos Estados Unidos saiu de todos os peitos ofegantes, e o Yankee-Doodle, cantado em coro por cinco milhões de vozes, ergueu-se como uma tempestade sonora até os últimos limites da atmosfera.

Depois, após aquele irresistível impulso, o hino calou-se, as últimas harmonias dissiparam-se pouco a pouco e um frêmito silencioso pairou acima da multidão, profundamente impressionada. Entretanto, o francês e os dois americanos tinham entrado no recinto reservado, em redor do qual se comprimia a multidão imensa. Estavam acompanhados pelos membros do Clube do Canhão e missões enviadas pelos observatórios europeus.

Barbicane, frio e calmo, dava tranquilamente as suas últimas ordens. Nicoles, de lábios apertados, com as mãos cruzadas atrás das costas, caminhava com passo firme e medido. Michel Ardan, sempre à vontade, vestido como um perfeito viajante, com polainas de couro nos pés, a sua bolsa de viagem a tiracolo, flutuando no seu vasto traje de veludo castanho, de charuto na boca, distribuía de passagem calorosos apertos de mão com uma prodigalidade principesca. Era impagável de se ver, cheio de alegria, rindo, gracejando, fazendo ao digno J. T. Maston molecagem de garoto. Em uma palavra, mostrava-se francês, e, pior ainda, parisiense até o último segundo.

Soaram as dez horas. Tinha chegado o momento de tomarem lugar no projétil; a manobra necessária para a descida, o aparafusar da tampa, o recuo dos guindastes e dos andaimes debruçados sobre a boca do columbiad levavam certo tempo.

Barbicane tinha acertado o seu relógio com um décimo de segundo de diferença pelo do engenheiro Murchison, encarregado de lançar fogo à pólvora por meio da faísca elétrica; desta forma, os viajantes, encerrados no seu projétil, poderiam seguir com o olhar o ponteiro que marcaria o momento preciso da sua partida.

A hora das despedidas havia chegado. A cena foi comovente; apesar da sua alegria febril, Michel Ardan sentia-se comovido. J. T. Maston tinha encontrado sob as suas pálpebras secas uma velha lágrima que reservara sem dúvida para aquela ocasião. Deixou-a cair sobre a testa do seu querido e bravo presidente.

- Se eu também partisse? - perguntou. - Ainda tem tempo!

- Impossível, meu velho Maston - respondeu Barbicane.

Alguns instantes mais tarde, os três companheiros de viagem estavam instalados no projétil, cuja tampa tinha aparafusado interiormente, e a boca do columbiad, inteira- mente liberta, abria-se livremente para o céu.

Nicoles, Barbicane e Michel Ardan encontravam-se definitivamente encerrados no seu vagão de metal.

Quem poderia descrever a emoção universal, chegada então ao seu paroxismo?

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/


A Lua avançava num firmamento de límpida pureza, apagando à sua passagem as luzes cintilantes das estrelas; percorria então a constelação de Gêmeos e encontrava-se quase a meio caminho do horizonte e do zênite. Todos deviam, portanto, compreender facilmente que apontavam para a frente do alvo, como o caçador aponta para diante da lebre que deseja atingir.

Um silêncio assustador pairava sobre toda essa cena. Não havia um sopro de vento na terra. Nem um sopro nos peitos! Os corações não ousavam bater. Todos os olhares, assustados, fixavam as bocas escancaradas do columbiad. Murchison seguia com o olhar o ponteiro do seu cronômetro. Faltavam apenas quarenta segundos para o momento da partida, e cada segundo parecia durar um século.

Ao vigésimo, houve um frêmito geral e ocorreu à multidão que os viajantes encerrados no projétil contavam também esses terríveis segundos. Gritos isolados ouviram-se:

- Trinta e cinco! Trinta e seis! Trinta e sete! Trinta e oito! Trinta e nove! Quarenta! Fogo!

Imediatamente, Murchison, premindo o interruptor do aparelho, restabeleceu a ligação e lançou a faísca elétrica para o fundo do columbiad.

Uma detonação espantosa, inaudita, sobre-humana, de que nada poderia dar uma ideia, nem o ribombar do trovão, nem o estrondo das erupções, produziu-se instantaneamente. Um imenso feixe luminoso saiu das entranhas do solo como de uma cratera. A terra tremeu, e algumas pessoas mal puderam ver por instantes o projétil cortando vitoriosamente o ar por entre vapores chamejantes.

Capítulo XIV - O telescópio e os últimos preparativos

Em outubro do ano precedente, depois de fechada a subscrição, o presidente do Clube do Canhão tinha creditado ao Observatório de Cambridge as quantias necessárias para a construção de um instrumento ótico.

Antes de qualquer coisa, foi preciso optar entre os telescópios e as lunetas. As lunetas apresentam vantagens sobre os telescópios. Com igualdade de objetivas, permitem obter aumentos mais consideráveis, porque os raios luminosos que atravessam as lentes perdem menos pela absorção do que pela reflexão sobre o espelho metálico dos telescópios. Mas a espessura que se pode dar a uma lente é limitada pois, sendo demasiado espessa, não deixa passar os raios luminosos. Além disso, a construção dessas grandes lentes é excessivamente difícil e precisa de um tempo considerável, que se mede em anos.

Portanto, se bem que as imagens fossem mais bem iluminadas nas lunetas, vantagem inapreciável quando se trata de observar a Lua, cuja luz é simplesmente refletida, decidiram-se pela utilização de um telescópio, que é de execução mais rápida e permite obter uma ampliação maior. No entanto, como os raios luminosos perdem uma grande parte da sua intensidade ao atravessar a atmosfera, o Clube do Canhão resolveu instalar o instrumento numa das mais altas montanhas dos Estados Unidos, o que diminuiria a espessura das camadas aéreas. 

Quanto à questão do local, foi prontamente resolvida. Tratava-se de escolher uma montanha alta, e as montanhas altas não são numerosas nos Estados Unidos.

Contudo, visto que o Clube do Canhão queria que o telescópio, assim como o columbiad, ficassem instalados nos Estados Unidos, contentavam-se com as Montanhas Rochosas, e todo o material necessário foi dirigido para o cimo de Long’s Peak, no território do Missuri.

Todavia, o telescópio das Montanhas Rochosas, antes de servir ao Clube do Canhão, prestou imensos serviços à astronomia. Graças ao seu poder de penetração, as profundidades do céu foram sondadas até os últimos limites, o diâmetro aparente das estrelas pode ser rigorosamente medido, e o senhor Clarke, do Observatório de Cambridge, decompôs a nebulosa com forma de caranguejo de Taurus, que o refletor de Lorde Rosse nunca pudera decompor.

Já era 22 de novembro; A partida suprema devia ter lugar dez dias mais tarde. Restava apenas levar a bom termo uma única operação. Operação delicada, perigosa, exigindo precauções infinitas e contra o bom sucesso da qual o Capitão Nicoles fizera a sua terceira aposta. Tratava-se de carregar o columbiad e introduzir-lhe as quatrocentas mil libras de algodão-pólvora. Nicoles pensara, e talvez com certa razão, que a manipulação de tal quantidade de piróxilo poderia provocar graves catástrofes, e que essa massa eminentemente explosiva se inflamaria por si mesma sob a pressão do projétil.

Havia, realmente, graves perigos, ainda acrescidos pela despreocupação e a leviandade dos americanos, que não se preocupavam em nada, durante a Guerra da Secessão, em ir carregar os seus canhões de charuto na boca. Mas Barbicane tinha tomado a peito ter êxito e não naufragar na beira da praia; escolheu, portanto, os seus melhores operários e os fez trabalhar sob a sua vigilância. Não os deixando um só momento fora de seu olhar, e à força de prudência e de precauções, soube por do seu lado todas as possibilidades de êxito.

Antes de tudo, não levou todo o carregamento para a Colina das Pedras. fez transportá-lo pouco a pouco em caixotes hermeticamente fechados. A munição tinha sido dividi- da em embalagens de quinhentas libras o que perfazia oitocentos grandes cartuchos cuidadosamente confeccionados pelos mais hábeis operários de Pensacola. Cada caixote podia conter dez cartuchos e chegava um após outro pela estrada de ferro de Tampa; desse modo, não havia nunca mais de cinco mil libras de piróxilo ao mesmo tempo dentro do recinto. Logo cada caixote que chegava era descarregado por operários que caminhavam de pés descalços, e cada cartucho transportado para o orifício do columbiad, para o qual descia por meio de guindastes acionados manualmente.

Todas as máquinas a vapor tinham sido afastadas, e as menores fontes de fogos forma apagadas numa zona de duas milhas de raio. Já era muito ter de proteger essa enorme quantidade de algodão-pólvora dos ardores do sol, mesmo em novembro. Desse modo, trabalhavam de preferência durante a noite, com uma luz produzida no vácuo, e que, por meio dos aparelhos de Ruhnlkorff, criava um dia artificial até ao fundo do columbiad. Ali, os cartuchos eram arrumados com uma perfeita regularidade e ligados entre si por meio de um fio metálico destinado a levar simultaneamente a faísca elétrica para o centro de cada um deles.
 
Realmente, por meio da pilha é que o fogo devia ser comunicado a essa massa de algodão-pólvora. Todos esses fios, rodeados de material isolante, iam reunir-se em um só estreito. Orifício foi aberto na altura onde deveria ser mantido o projétil. Nesse ponto, atravessaram a espessa parede de ferro fundido, subindo até ao solo por um dos respiradouros do revestimento de pedra conservado para esse fim. Uma vez chegado ao cimo da Colina das Pedras, o fio, preso a postes por uma distância de duas milhas, ia ter a uma poderosa pilha de Bunzen munida de um aparelho interruptor. Bastava, portanto, carregar com o dedo no botão do aparelho para que a corrente fosse instantaneamente restabelecida e pegasse fogo as quatrocentas mil libras de algodão-pólvora. Desnecessário dizer que a pilha só devia entrar em atividade no último momento.

Em 28 de novembro, os oitocentos cartuchos estavam colocados no fundo do columbiad. Essa parte da operação correu sem problemas; todavia, quantas perturbações, quantas inquietudes e apreensões tinham assaltado o Presidente Barbicane! Em vão proibira o acesso à Colina das Pedras; todos os dias os curiosos escalavam as paliçadas, e alguns, levando a imprudência até a loucura, iam fumar no meio das embalagens de algodão pólvora.

Barbicane enfurecia-se diariamente. J. T. Maston secundava-o o melhor possível, caçando os intrusos com grande vigor e apanhando as pontas de cigarros ainda acesas que os ianques atiravam para aqui e para ali. Rude tarefa, pois mais de trezentas mil pessoas se comprimiam em redor das paliçadas. Michel Ardan tinha-se oferecido para escoltar os caixotes até a boca do columbiad; mas, tendo sido surpreendido com um enorme charuto na boca, enquanto afastava os imprudentes aos quais ele dava aquele funesto exemplo, o presidente do Clube do Canhão viu bem que não podia contar com aquele intrépido fumador, e foi obrigado a vigiá-lo especialmente.

Finalmente, como há um Deus para os artilheiros, nada explodiu e o carregamento foi levado sem incidentes. A terceira aposta do Capitão Nicoles estava, portanto, muito periclitante. Faltava introduzir o projétil no columbiad e colocá-lo sobre a espessa camada de algodão pólvora.

Todavia, antes de proceder a essa operação, os objetos necessários aos três, aliás, muito numerosos, foram colocados com ordem no vagão-projétil, e, se tivessem deixado, Michel Ardan teria ocupado todo o espaço reservado aos viajantes. Não se pode imaginar o que esse amável francês queria levar para a Lua. Uma verdadeira carga de inutilidades. Mas Barbicane interveio e ele teve de se restringir ao estritamente necessário. Vários termômetros, barômetros e lunetas foram guardados na caixa dos instrumentos.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

Os viajantes tinham curiosidade em examinar a Lua durante o trajeto, e, para facilitar o reconhecimento desse mundo novo, levavam um excelente mapa de Beer e Moedier, o Mapa Selenográfico, publicado em quatro folhas que é aceito por verdadeiro, por ser uma obra-prima em observação e de paciência. Reproduzia com escrupulosa exatidão os mínimos pormenores dessa parte do astro voltada para a Terra: montanhas, vales, círculos, crateras, elevações, fendas. Viam-se ali, nas suas dimensões exatas, a sua orientação fiel, a sua denominação, desde os montes Doerfel e Leibniz, cujos altos cumes se erguem na parte oriental do disco, até o Mar do Frio, que se estende pelas regiões circumpolares do Norte.

Era, portanto, um precioso documento para os viajantes, pois podiam estudar o território antes de lá chegar.

Levavam também três espingardas e três carabinas de caça com sistema de balas explosivas; além disso, pólvora e chumbo em grande quantidade.

- Não se sabe com quem teremos de tratar - dizia Michel Ardan - Homens ou animais, poderão não gostar de visitas! É preciso, portanto, tomar precauções.

Acrescentemos que às armas de defesa pessoal se juntaram as picaretas, alviões, serras manuais e outros instrumentos indispensáveis, sem falar do vestuário conveniente para todas as temperaturas, desde o frio das regiões polares até os calores da zona tórrida.

Michel Ardan gostaria de levar para a sua expedição certo número de animais, não um casal de cada espécie, pois não via necessidade de aclimatar na Lua serpentes, tigres, crocodilos e outros animais malignos.

- Não - dizia ele a Barbicane - mas alguns animais de tração, bois ou vacas, burros ou cavalos, ficariam bem na paisagem e seriam de grande utilidade para nós.

Concordo meu caro Ardan - respondia Barbicane - todavia o nosso vagão-projétil não é a Arca de Noé. Não tem a capacidade nem se destina ao mesmo fim. Assim, fiquemos nos limites do possível.

Finalmente, após longas discussões, foi combinado que os viajantes se contentariam em levar uma excelente cadela de caça, pertencente a Nicoles, e um vigoroso terra-nova, de força prodigiosa. Várias caixas dos cereais mais úteis foram postas no número dos objetos indispensáveis. Se tivessem deixado Michel Ardan fazer o que queria, ele teria levado também alguns sacos de sementes para lá os semear. Em todo o caso, levou uma dúzia de arbustos, que foram cuidadosamente envolvidos em palha e guardados a um canto do projétil.

Faltava, ainda, a importante questão dos víveres, pois era preciso prever o caso de desembarcarem numa zona da Lua completamente estéril. Barbicane conseguiu levar víveres que chegariam para um ano. Mas, é preciso acrescentar para não espantar ninguém, que esses víveres consistiam em conservas de carne e de legumes reduzidos ao seu mais simples volume sob a ação da prensa hidráulica, e que essas conservas tinham grande quantidade de elementos nutritivos; não eram refeições muito variadas, mas em tal viagem não podiam mostrar-se muito exigentes. Havia, também, uma reserva de aguardente, que podia chegar a cinquenta galões. A água duraria apenas para dois meses. Realmente, depois das últimas observações dos astrônomos, ninguém colocava em dúvida a presença de certa quantidade de água na superfície da Lua.

Quanto aos víveres, era insensato pensar que os habitantes da Terra não encontrariam lá com que se alimentar. Michel Ardan não tinha dúvida nenhuma a esse respeito. Se as tivesse, não partiria.

- Por outro lado - disse ele um dia aos seus amigos - não estaremos completamente abandonados pelos nossos camaradas da Terra, e eles terão o cuidado de não nos esquecer.

- Certamente que não - replicou J. T. Maston

- Como? - perguntou Nicoles.

- Nada mais simples - respondeu Michel Ardan - O columbiad fica no mesmo lugar, não é verdade? Pois bem! Todas as vezes que a Lua se apresentar nas condições favoráveis de zênite, ou mesmo de perigeu, isto é, mais ou menos uma vez por ano, não poderão enviar-nos um obus carregado de víveres que nós esperaremos em alguma hora prefixada?

- Viva! Viva! - exclamou J. T. Maston, como se ele mesmo tivesse tido a ideia - bem dito. Certamente, meus bons amigos, que nós não  seremos esquecidos.

- Conto com isto! Como vêem, teremos regularmente notícias do Globo, e, por nosso lado, seremos bem desajeitados se não conseguirmos arranjar meio de comunicar com os nossos bons amigos da Terra!

Destas palavras transpirava uma tal confiança que Michel Ardan, com o seu ar determinado, a sua soberba valentia, teria arrastado todos os membros do Clube do Canhão atrás de si. O que ele dizia parecia simples, elementar, fácil, de êxito seguro, e seria preciso gostar verdadeiramente deste miserável globo terráqueo para não seguir os três viajantes na sua expedição lunar.

Quando os diversos objetos foram colocados no projétil, a água destinada a servir de mola foi introduzida entre os tabiques e o gás de iluminação no respectivo recipiente. Quanto ao clorato de potássio e à potassa cáustica, Barbicane, temendo possíveis atrasos do trajeto, mandou carregar uma quantidade suficiente para renovar o oxigênio e absorver o ácido carbônico durante dois meses. Um aparelho extremamente engenhoso, de funcionamento automático, encarregava-se de dar ao ar as suas qualidades vivificantes e de purificá-lo de forma completa. Logo estava pronto o projétil, e só faltava metê-lo no fundo do columbiad. Operação cheia de dificuldades e de perigos.

O enorme obus foi então levado para o cimo da Colina das Pedras. Ali, poderosos guindastes levantaram-no e mantiveram-no suspenso por cima do poço de metal. Foi um momento palpitante. Se as correntes se quebrassem com aquele enorme peso, a queda de tal massa teria certamente provocado a inflamação do algodão pólvora.

Felizmente, nada disso se passou e algumas horas mais tarde o vagão-projétil descia suavemente para a alma do canhão, repousava sobre a camada de piróxilo, um verdadeiro cobertor fulminante. A sua pressão não teve outro efeito senão o de calcar mais fortemente a carga do columbiad.

- Perdi, sou forçado a admitir - disse o Capitão Nicoles, entregando ao Presidente Barbicane uma quantia aproximada de três mil dólares.

Barbicane não queria receber aquele dinheiro da parte de um companheiro de viagem, mas teve de ceder perante a obstinação do capitão, que queria cumprir todos os seus compromissos antes de deixar a Terra.

- Agora - disse Michel Ardan - só me resta desejar-lhe uma coisa.

- Que coisa? - perguntou Nicoles.

- É que perca as outras duas apostas! Desse modo temos a certeza de não ficarmos pelo caminho.
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