Capítulo VII - Parábola ou Hipérbole


Seria perfeitamente possível que alguém se espante de ver Barbicane e os companheiros tão pouco preocupados com o futuro que lhes reservava aquela prisão de metal arrebatada pelo infinito do éter. Em vez de se perguntarem para onde iriam, passavam o tempo fazendo experiências, como se estivessem tranquilamente instalados num confortável gabinete de trabalho.

A isto se poderia contrapor que homens de tão rija têmpera, que não se atemorizavam por tão pouco, ou que tinham mais que fazer do que se abandonar a incógnita da sua sorte - estavam acima de semelhantes preocupações. A verdade, porém, é que não eram senhores do projétil. Não podiam travar-lhe a marcha nem modificar-lhe a direção. O marinheiro muda a seu bel-prazer o rumo do navio; o aeronauta pode imprimir ao seu balão movimentos verticais. Eles, porém, não podiam exercer qualquer ação sobre o seu veículo. Nenhuma manobra lhes era possível. E daí aquela disposição de deixar andar, de “deixar correr”, seguindo a “expressão marítima”.

Onde estavam naquele momento, às oito da manhã do dia que na Terra era o sexto do mês de dezembro? Decerto nas vizinhanças da Lua, de tal maneira perto que o astro lhes parecia com o aspecto de um imenso quebra-luz negro desdobrado no firmamento.

Quanto à distância que os separava, era impossível avaliá-la. O projétil, mantido por forças inexplicáveis, rasara o pólo norte do satélite a menos de cinquenta quilômetros. Todavia, decorridas duas horas sobre o instante em que o projétil entrevia no cone de sombra, teria aquela distância diminuído ou aumentado?

A falta de pontos de referência para estimar a direção e a velocidade do projétil era total. Talvez se afastasse rapidamente do disco, de forma a deixar em breve a sombra pura. Talvez se aproximasse sensivelmente, a ponto de chocar com qualquer pico elevado do hemisfério invisível, o que poria fim à viagem, mas com inevitável prejuízo dos viajantes.

Levantou-se a este propósito uma discussão, em que Michel Ardan, sempre pródigo em explicações, emitiu a opinião de que o projétil, retido pela atração lunar, acabaria por cair no astro, como os aerólitos caem na superfície do globo terrestre.

- Em primeiro lugar, meu amigo - respondeu-lhe Barbicane - nem todos os aerolitos caem na Terra, mas apenas uma pequena parte. Logo, se de fato passamos ao estado de aerólito, isto não significa, necessariamente, que nos despenquemos na superfície da Lua.

- No entanto - insistiu Michel - se nos aproximássemos bastante...

- Puro erro - atalhou Barbicane - Pois não viste já milhares de estrelas cadentes riscarem o céu, em certas épocas?

- Pois bem, essas estrelas, ou, melhor, esses corpúsculos, só brilham porque aquecem quando deslizam nas camadas atmosféricas. Ora, se atravessam a atmosfera, passam a menos de dezesseis léguas do Globo, onde, todavia, caem raramente. O mesmo pode acontecer ao nosso projétil: passar perto, muito perto mesmo da Lua e, apesar disso, não cair lá.

- Visto isso - declarou Michel - tenho muita curiosidade em saber como se comportará no espaço o nosso veículo errante.

- Há duas hipóteses - esclareceu Barbicane, depois de alguns instantes de reflexão.

- Quais são? 

- O projétil pode descrever uma de duas curvas matemáticas, e se decidirá por uma ou outra, segundo a velocidade em que estiver animado, velocidade que nesse momento não sei avaliar.

- Sim - interveio Nicoles - descreverá uma parábola ou uma hipérbole.

- Certo - confirmou Barbicane. - Até certa velocidade seguirá a parábola, e a hipérbole se a velocidade for mais acentuada.

- Gosto desses palavrões - exclamou Michel Ardan – mas gostaria de ouvi-los e compreendê-los. Por favor, o que é isso de parábola?

- Meu amigo - explicou Barbicane - parábola é uma curva de segunda ordem que resulta da seção de um cone por um plano paralelo a um plano tangente ao cone.

- Ah! Ah! - fez Michel Ardan, com um ar satisfeito.

- É isto mais ou menos - ajudou Nicoles - a trajetória que descreve uma bomba lançada por um morteiro.

- Muito bem. E a hipérbole? - quis saber Michel Ardan.

- A hipérbole, Michel, é uma curva de segunda ordem produzida pela interseção de uma superfície cônica e de um plano paralelo ao seu eixo. Tem dois ramos separados um do outro, que se prolongam indefinidamente nos dois sentidos.

- É possível. - exclamou Michel Ardan, com a maior seriedade, como se acabassem de lhe dar uma notícia grave - Nicoles, presta muita atenção ao que vou dizer: Do que eu gosto na tua definição de hipérbole (eu ia dizer “hiperpatranha”) é que ainda é menos clara do que a palavra que quiseste definir!

Nicoles e Barbicane pouco ligaram aos gracejos de Michel Ardan, já que se haviam envolvido numa discussão científica. Que curva seguiria o projétil? Eis o que os apaixonava. Um teimava na hipérbole, o outro insistia na parábola. Fundamentavam as respectivas afirmações em razões eriçadas de x. A argumentação era feita numa linguagem que fazia pular Michel. A discussão decorria acesa, e nenhum dos adversários queria sacrificar ao outro a curva de sua predileção.

Como a disputa científica se prolongava, Michel Ardan acabou por se impacientar.

- Ora esta! - disse ele - Senhores de co-seno, acabam ou não de atirar à cabeça um do outro parábolas e hipérboles? Eu só quero saber a única coisa que interessa no meio de tudo isto. Já se sabe que seguimos uma das suas curvas. Muito bem. Agora pergunto: para onde nos levarão elas?

- A parte nenhuma - respondeu Nicoles.

- Como? A parte nenhuma?

- Mas é evidente - corroborou Barbicane. - São curvas que não se fecham, que se prolongam até o infinito!

- Ah, sábios! - exclamou Michel. - Sábios do meu coração!... Que nos importa a incógnita entre a parábola ou a hipérbole, se ambas nos mandam para o espaço infinito!

Barbicane e Nicoles não puderam deixar de sorrir dessa vez. Nunca uma questão mais ociosa fora tratada em momento menos oportuno. A sinistra verdade era que o projétil, marchando hiperbólica ou parabolicamente, nunca mais regressaria à Terra ou reencontraria a Lua.

Que sucederia aos audaciosos viajantes num futuro muito próximo? Se não morressem de fome, se não definhassem pela sede, pereceriam dentro de dias à míngua de ar, quando o gás se esgotasse. Isto se o frio não os enregelasse primeiro. O certo é que, por mais importante que fosse a economia de gás, o excessivo abaixamento da temperatura ambiente os obrigaria ao consumo de certa quantidade. Em rigor, podiam passar sem luz, mas nunca sem calor. Por felicidade, o calor desenvolvido pelo aparelho Reiset e Regnault ajudava ao elevar um pouco a temperatura do interior do projétil, pelo que, sem grandes gastos, pôde manter-se num grau suportável.

Como já foi dito, as observações através das vigias tornaram-se difíceis. A umidade do interior do projétil condensava-se nos vidros e congelava de imediato. Era necessário combater aquela opacidade com sucessivas fricções. Mesmo assim, foi possível verificar alguns fenômenos do mais alto interesse.

Realmente, se aquele disco invisível tivesse atmosfera, não era natural que se vissem estrelas cadentes a sulcá-la com as suas trajetórias? Se o próprio projétil atravessasse as camadas fluidas, não era provável que se surpreendesse algum ruído repercutido pelos ecos lunares, tal como o ribombar de um trovão, o estrépito de uma avalancha, as detonações de um vulcão em atividade? E se alguma montanha vulcânica as ornamentasse com um rubro penacho de relâmpagos, não se avistariam as suas intensas fulgurações?

Tais fatos, se cuidadosamente observados, serviriam para elucidar de forma decisiva a obscura questão da constituição lunar. Eis por que Barbicane e Nicoles, postados junto às vigias, como se fossem astrônomos, observavam com escrupulosa paciência a noite circundante. Até então, o disco permanecera mudo e escuro, sem responder às múltiplas interrogações que lhe punham aqueles ardentes espíritos.

Tal silêncio sugeriu a Michel esta reflexão aparentemente justa:
  
- Se alguma vez voltássemos a fazer esta viagem, seria bom que escolhêssemos a fase da lua nova.

- Tem razão - disse Nicoles - essa circunstância seria mais favorável. É certo que a Lua, mergulhada nos raios solares, não seria visível durante a viagem; mas, em compensação se veria a Terra, que estaria “cheia”. Além disso, se fôssemos arrastados ao redor da Lua, como agora acontece, teríamos pelo menos a vantagem de lhe ver o solo, agora invisível, magnificamente iluminado!

- Isto é que é falar, Nicoles! - aplaudiu Michel Ardan - Que pensas tu disto, Barbicane?

- Penso - respondeu o ponderado presidente - que, se alguma vez voltássemos a fazer esta viagem, partiríamos na mesma época e nas mesmas condições. Suponham que tivéssemos alcançado o nosso objetivo; não seria melhor encontrar continentes cheios de luz do que regiões mergulhadas numa noite escura? A nossa instalação não se faria em circunstâncias mais favoráveis? Claro que sim. Quanto ao lado invisível, o visitaríamos durante as viagens de reconhecimento no globo lunar. Assim, a fase de lua cheia foi muito bem escolhida. A idéia era chegar ao objetivo, mas, para lá chegar, era necessário que não houvesse desvios de rota.

Quanto a isso, nada tenho a objetar - disse Michel Ardan - A verdade é que perdemos uma bela oportunidade de observar a outra face da Lua. Quem sabe se os habitantes dos outros planetas não estão mais adiantados do que os sábios da Terra no que diz respeito aos seus satélites?

A esta observação de Michel Ardan, se poderia responder muito simplesmente do seguinte modo: sim, há outros satélites, cujo estudo, por estarem mais próximos, se torna mais fácil. Os habitantes de Saturno, de Júpiter e de Urano, se é que existem, puderam estabelecer com suas luas comunicações mais fáceis.

Os quatro satélites de Júpiter gravitam às distâncias de cento e oito mil duzentas e sessenta léguas, cento e setenta e duas mil e duzentas léguas, duzentas e setenta e quatro mil e setecentas léguas e quatrocentas e oitenta mil cento e trinta léguas.

Todavia, essas distâncias são contadas a partir do centro do planeta. Subtraindo-lhes o comprimento do respectivo raio, que é de dezesseis a dezoito mil léguas, vê-se que o primeiro satélite está menos afastado dá superfície de Júpiter do que a Lua está da Terra. Das oito luas de Saturno, quatro estão igualmente mais próximas: Diana está a oitenta e quatro mil e seiscentas léguas; Tétis a sessenta e duas mil novecentas e sessenta e seis; e, finalmente, Mimas a uma distância média de trinta e quatro mil e quinhentas. Dos oito satélites de Urano, o primeiro, Ariel, está apenas a cinquenta e uma mil quinhentas e vinte léguas do planeta.

Isto significa que, na superfície desses três astros, uma experiência análoga à do Presidente Barbicane teria apresentado menores dificuldades. Assim, se os respectivos habitantes tentaram a aventura, é possível que tenham reconhecido a constituição daquela metade do disco que todos os satélites ocultam eternamente dos olhos dos habitantes dos outros astros principais. Mas, se nunca deixarem os seus planetas, não estão mais avançados que os astrônomos da Terra.

Entretanto, o projétil descrevia nas trevas uma trajetória que a inexistência de pontos de referência não permitia calcular. Teria se modificado a sua direção por influência da atração lunar ou pela ação de algum astro desconhecido? Barbicane não podia dizê-lo. Mas a verdade é que se dera uma alteração na posição relativa do veículo, alteração de que Barbicane se apercebeu por volta das quatro horas da manhã.

Consistia a alteração no seguinte: a base do projétil voltara-se para a superfície lunar e mantinha-se na perpendicular que passava pelo eixo da Lua. A atração, ou seja, a gravidade, operara sobre tal modificação. A parte mais pesada do projétil inclinara-se para o disco, exatamente como se nele fosse cair.

E cairia? Os viajantes iam finalmente atingir o tão almejado alvo? Não. Com a ajuda de um ponto de referência, aliás, pouco explicável, Barbicane teve a certeza de que o projétil não se aproximava da Lua: deslocava-se descrevendo uma curva concêntrica ao astro.

O ponto de referência atrás citado foi um clarão luminoso que Nicoles assinalou de súbito no limite do horizonte formado pelo disco negro. Aquele clarão não podia ser confundido com uma estrela. Era uma incandescência avermelhada, que, pouco a pouco, se avolumava - prova incontestável de que o projétil se deslocava na sua direção, e de que não se dirigia normalmente para a superfície do astro.

- Um vulcão! E um vulcão em atividade - gritou Nicoles - Uma erupção dos fogos interiores da Lua. Aquele mundo não está, portanto, extinto.

- Sim! É uma erupção - confirmou Barbicane, que estudava cuidadosamente o fenômeno com o seu binóculo de noite - Que outra coisa poderia ser senão um vulcão?

- Mas então - raciocinou Michel Ardan - para alimentar aquela combustão, é preciso ar. Portanto, há uma atmosfera envolvendo aquela parte da Lua.

- Talvez haja - admitiu Barbicane - ou talvez não o vulcão pode, em função da decomposição de certas matérias, fornecer a si próprio o oxigênio e lançar assim chamas no vácuo. Estou mesmo crente que aquela deflagração tem a intensidade e o brilho dos objetos cuja combustão ocorre no meio de oxigênio puro, mas não nos apressemos, portanto, em afirmar a existência de uma atmosfera lunar.

A montanha vulcânica devia estar situada perto do quadragésimo quinto grau de latitude sul da parte invisível do astro. Mas, com grande decepção de Barbicane, a curva que o projétil descrevia levava-o para longe do ponto onde fora assinalada a erupção, pelo que não lhe foi possível estudá-la convenientemente.

Meia hora depois, o tal ponto luminoso desaparecia por detrás do escuro horizonte. De qualquer forma, a simples verificação do fenômeno era já um fato notável para os estudos selenográficos. Provava que o calor não desaparecera ainda das entranhas daquele globo. Ora, se há por lá calor, quem pode garantir que o reino vegetal e mesmo o reino animal não tenham resistido até hoje às influências destrutivas? A existência daquele vulcão em atividade, se viesse a ser reconhecida sem reservas pelos sábios da Terra, daria sem dúvida muitos argumentos favoráveis à controversa teoria da habitabilidade da Lua.

Barbicane abandonara-se às suas reflexões, ao mudo devaneio onde se encastelavam os misteriosos segredos do mundo lunar. Tentava descobrir o fio comum a todos os fatos até então observados quando um novo incidente o trouxe bruscamente à realidade.

Era mais do que um fenômeno cósmico: era um verdadeiro perigo, cujas consequências podiam ser desastrosas.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

De repente, do meio do éter, daquelas profundas trevas, uma enorme massa aparecera. Era como que uma lua, mas uma lua incandescente, com um brilho tanto mais insustentável quanto brusco era o contraste com a completa escuridão do espaço. A massa, de forma circular, lançava uma luz que enchia o projétil. Os rostos de Barbicane, Nicoles e Michel Ardan, violentamente banhados por aqueles feixes esbranquiçados, ganhavam a aparência espectral, lívida, baça, que os físicos produzem com a luz artificial de álcool impregnado de sal.

- Com mil diabos! - exclamou Michel Ardan - Como nós estamos horrendos! Que raio de lua é aquela?

- É uma bólide - esclareceu Barbicane - Uma bólide inflamada.

- No vácuo?

- Sim.

O globo de fogo era de fato uma bólide. Barbicane não se enganava. Mas se os meteoros cósmicos observados da Terra apresentam, de uma maneira geral, uma luz um pouco inferior à da Lua, ali, no sombrio éter, resplandecem. Esses corpos errantes trazem consigo o princípio da sua incandescência. O ar ambiente não é necessário à sua deflagração.

E se, realmente, algumas dessas bólides atravessam as camadas da atmosféricas em duas ou três léguas da Terra, outros há que, ao contrário, descrevem a sua trajetória a uma distância em que não existe atmosfera. Vem a propósito lembrar que, em 27 de outubro de 1844, uma dessas bólides desapareceu à distância de cento e oitenta e duas léguas. Alguns desses meteoros têm de três a quatro quilômetros de diâmetro e são animados de velocidades que podem ir até setenta e cinco quilômetros por segundo, na direção inversa do movimento da Terra.

O globo cadente, subitamente aparecido da sombra a uma distância de pelo menos cem léguas, devia ter de diâmetro dois mil metros, segundo cálculo de Barbicane. Avançava com uma velocidade próxima de dois quilômetros por segundo, ou seja, trinta léguas por minuto, e a sua trajetória cortava a rota do projétil, pelo que devia atingi-lo dentro de alguns minutos. Conforme se aproximava, aumentava de volume em enorme proporção.

Imagine-se, se puder, na situação dos viajantes. É impossível descrevê-la. Apesar da sua coragem, do seu sangue-frio, da sua indiferença perante o perigo, estavam mudos, imóveis, com os membros contraídos, tomados por um horrível pavor. O projétil, a que não podiam alterar a marcha, corria na direção daquela massa ígnea, mais intensa do que as goelas abertas de um forno de reverberação. Parecia que ia precipitar-se num abismo de fogo.

Barbicane agarra as mãos dos companheiros, e os três olhavam, através das pálpebras semicerradas, aquele asteróide incandescente. Se neles não estivesse embotado o pensamento; se, no meio daquele pavor, ainda o cérbro fosse capaz de raciocinar, considerar-se-iam por certo perdidos!

Dois minutos depois da brusca aparição da bólide - dois séculos de angústia! - o projétil parecia prestes a colidir. De repente, porém, o globo de fogo explodiu como uma bomba, mas sem ruído, como, aliás, era natural, já que o som não podia produzir-se no meio do vácuo por ser causado apenas pela agitação das camadas de ar.

Nicoles soltou um grito. Ele e os companheiros precipitaram-se para as vigias. Que espetáculo! Que pena poderia descrevê-lo? Que paleta poderia reproduzir aquela riqueza de cores?

A luz que saturava o éter propagava-se com uma incomparável intensidade, porque os asteróides a dispersavam em todos os sentidos. Num dado momento, chegou a ser tão viva que Michel, arrastando Barbicane e Nicoles para junto da vigia em que se encontrava, exclamou:

- Agora é visível, enfim! Eis a invisível Lua.

E os três, através do eflúvio luminoso de alguns segundos, entreviram a misteriosa face oculta, que o olhar humano via pela primeira vez.

Que distinguiram àquela distância, distância essa que não podiam avaliar? Algumas faixas alongadas sobre o disco, verdadeiras nuvens formadas num meio atmosférico muito restrito, do qual emergiam, não só todas as montanhas, mas também relevos de pouca importância, círculos, crateras escancaradas, caprichosamente dispostas, análogas às da face visível. Depois, imensos espaços, não já planos áridos, mas verdadeiros mares, oceanos largamente espraiados, que refletiam no seu liquido espelho toda a deslumbrante magia dos fogos do espaço. Finalmente, na superfície dos continentes, vastas manchas escuras, idênticas às produzidas por imensas florestas sob o rápido clarão de um relâmpago...

Seria isto um erro, uma miragem, uma ilusão de ótica? Poderiam eles sancionar cientificamente uma observação tão superficial? Ousariam pronunciar-se sobre o problema da habitabilidade do satélite, fundados em tão precário exame da face invisível?

Amorteceram, entretanto, as fulgurações do espaço. Decresceu pouco a pouco o fugaz brilho. Os asteróides foram-se dispersando, seguindo diferentes trajetórias eles apagaram-se na distância. O éter retomou a habitual tenebrosidade. As estrelas, eclipsadas por instantes cintilaram no firmamento, e o disco, que fora apenas entrevisto, perdeu-se de novo na impenetrável noite.

Capítulo VI – Consequências de um desvio

Barbicane já não sentia qualquer inquietação, se não sobre o êxito da viagem, pelo menos a respeito da força de impulsão do projétil, cuja velocidade virtual o levava a ultrapassar a linha neutra. Portanto, nem voltaria à Terra nem se imobilizaria no ponto de anulação das atrações. Das hipóteses aventadas, uma única ainda não se realizara: a chegada do projétil ao alvo pela ação da atração lunar.

Na realidade, era uma queda de oito mil duzentas e noventa e seis léguas sobre um astro onde a gravidade tem apenas a sexta parte do valor da terrestre. Apesar disso, a queda seria formidável, pelo que todas as precauções deviam ser tomadas sem demora.

Duas espécies de precauções deveriam ser levadas em conta: uma destinada a amortecer o choque no momento em que o projétil caísse no solo lunar, outra tendente a retardar-lhe a queda, tornando-a, consequentemente, mais suave.

Pena que Barbicane não dispusesse dos mesmos meios que tão eficazmente haviam atenuado o abalo da partida, isto é, da água para servir de almofada e dos tabiques quebradiços. Estes ainda existiam, mas faltava a água, visto que nada aconselhava a utilizar para esse fim a reserva de que dispunham, reserva preciosa no caso de vir a faltar-lhes o elemento líquido nos primeiros dias de permanência no solo lunar.

A reserva era insuficiente para servir de almofada. A camada de água armazenada no projétil à partida, sobre a qual assentava o disco estanque, possuía um volume de seis metros cúbicos, que pesava cinco mil setecentos e cinquenta quilos. Ora, os recipientes da reserva não comportavam nem a quinta parte daquele volume. Obviamente, havia que renunciar ao emprego desse poderoso meio de amortecer o choque da chegada.

Por um feliz acaso, Barbicane não se contentara em empregar apenas água e munira o disco móvel com fortíssimas molas, destinadas a minorar o choque na base do projétil depois da destruição dos tabiques horizontais. Essas molas também não se haviam perdido, mas necessitavam ser reajustadas, assim como o disco móvel precisava de ser reposto na posição inicial. Tornava-se fácil manipular e levantar todas essas peças, dado que o seu peso era naquele momento diminuto.

E assim se fez. As diferentes partes foram reajustadas sem qualquer dificuldade. Com alguns parafusos e porcas, a questão resolveu-se, já que a respeito de ferramentas estavam os viajantes bem fornecidos. Em breve, o disco totalmente recomposto, assentou sobre os seus suportes de aço, como uma mesa nos seus pés. A recolocarão apresentava, contudo, um inconveniente: a vidraça inferior ficava obstruída, o que impossibilitaria os viajantes de observar a Lua por aquela abertura, quando começassem a cair na perpendicular do globo lunar.

Contudo, assim tinha de ser. Mas ainda seria possível avistar vastas regiões lunares pelas vigias laterais, como se vê a Terra da barquinha de um aeróstato. A montagem do disco exigiu uma hora de trabalho. Passava do meio-dia quando os preparativos foram dados por concluídos. Depois Barbicane procedeu a novas observações sobre a inclinação do projétil; mas, com grande pesar, verificou que ele não se voltara o suficiente para iniciar a queda, antes parecia seguir uma curva paralela ao disco lunar. O astro da noite brilhava esplendidamente no espaço, enquanto do lado oposto o astro do dia o incendiava com os seus raios de fogo.

A situação era inquietante.

- Conseguiremos chegar? - perguntou Nicoles.

- Procedamos como se estivéssemos para chegar - respondeu laconicamente Barbicane.

- Grandes medrosos me saíram! - censurou Michel Ardan - Chegaremos e mais depressa do que desejamos.

Tal resposta fez com que Barbicane retomasse os trabalhos preparatórios e se ocupasse de imediato com a inspeção dos engenhos destinados a amortecer a queda.

Convém aqui lembrar a assembléia que teve lugar em Tampa, na Flórida, durante o qual o Capitão Nicoles se apresentou como inimigo de Barbicane e como adversário de Michel Ardan. Ao Capitão Nicoles, que sustentava que o projétil se partiria como um vidro, Michel respondera que lhe amorteceria a descida por meio de foguetes convenientemente dispostos.

Realmente, possantes engenhos pirotécnicos, montados na base de projétil para funcionar no exterior, podiam produzir um movimento de recuo e, consequentemente, diminuir numa certa proporção a velocidade do projétil. É também verdade que esses foguetes tinham de arder no vácuo, mas o oxigênio não lhes faltaria, porque a própria combinação pirotécnica o forneceria como acontece com os vulcões lunares, cuja erupção nunca deixou de dar-se por falta de atmosfera em torno da Lua.

Barbicane munira-se, portanto, de vários engenhos pirotécnicos, contidos em pequenos tubos de aço que dispunham de rosca, que se podiam atarraxar à base do projétil. Interiormente, os tubos afloravam-lhe o fundo. Exteriormente se destacavam em cerca de meio pé. Eram ao todo vinte. Uma abertura, especialmente contra o efeito e localizada no disco móvel permitia acender a mecha da qual um deles estava provido.

Devido à sua colocação, todo o efeito se produziria para o lado de fora. As misturas que entrariam em fusão foram previamente introduzidas sob pressão nos tubos. Bastava, portanto, retirar os obturadores metálicos engastados na base do projétil e substituílos pelos tubos, que se ajustavam rigorosamente às aberturas deixadas por aqueles.

Essa operação foi concluída às três horas. Tomadas tais precauções, nada mais havia a fazer senão esperar.

Entretanto, o projétil aproximava-se visivelmente da Lua. Era evidente que estava submetido à sua influência numa certa proporção. Mas a sua velocidade própria impulsionava-o também numa direção oblíqua. A resultante destas duas forças era uma linha que muito provavelmente se transformaria numa tangente. Uma coisa, porém, era clara: o projétil não cairia normalmente para a superfície da Lua, porque, sendo assim, a parte inferior, em virtude do seu peso, deveria estar voltada para o astro.

As inquietações de Barbicane redobravam, visto que o projétil resistia às influências da gravitação. O desconhecido dos espaços interestelares abria-se diante dele. Ele, o homem de ciência, julgara ter previsto todas as hipóteses possíveis: regresso à Terra, queda na Lua ou imobilidade sobre a linha neutral. E eis que outra, carregada de todos os terrores do infinito, surgia inopinadamente. Para enfrentá-la sem desânimo, era preciso ser ao mesmo tempo um sábio resoluto como Barbicane, um ente fleumático como Nicoles e um audacioso aventureiro como Michel Ardan.

O assunto dominou daí em diante todas as conversas. Outros homens teriam considerado o problema do ponto de vista prático. A si próprios teriam perguntado para onde os arrastaria o vagão-projétil. Eles, não. Limitaram-se a tentar descobrir a causa que provocara aquele efeito.

- Quer dizer que descarrilamos. Mas porquê?

- Receio - aventou Nicoles - que o columbiad, apesar de todas as precauções tomadas, não tenha sido apontado com a exatidão necessária. Um erro, por muito pequeno que fosse, bastava para nos pôr fora da atração lunar.

- Teria sido então um erro de pontaria? - perguntou Michel.

- Não, não o creio - disse Barbicane - A perpendicularidade do canhão era rigorosa; a direção para o zênite do lugar é incontestável. Ora, como a Lua passava pelo zênite, devíamos atingi-la em cheio. Há outra razão, mas não atino com ela...

- Não chegaremos muito tarde? - perguntou de chofre Nicoles.

- Muito tarde? - ecoou Barbicane.

- Sim - explicou Nicoles - A nota do Observatório de Cambridge diz que o trajeto deve completar-se em noventa e sete horas, treze minutos e vinte segundos. O que quer dizer que, mais cedo, a Lua não estará ainda no ponto indicado, e que, mais tarde, já lá não se encontrará.

- De acordo - replicou Barbicane - Mas nós partimos em 1 de dezembro, às dez horas, quarenta e seis minutos e setenta e cinco segundos da noite, e devemos chegar à meia-noite do dia 5, no momento preciso em que a Lua estiver em plenilúnio. Pois bem, estamos no dia 5 de dezembro e são três e meia da tarde. Deveriam bastar, portanto, oito horas e meia para atingirmos o alvo. Então por que é que não chegamos?

- Não será por excesso de velocidade? - lembrou Nicoles - porque sabemos agora que a velocidade inicial foi maior do que supúnhamos.

- Não! Cem vezes não! - bradou Barbicane – Um excesso de velocidade, se a direção do projétil fosse boa, não nos impediria de atingir a Lua. Não! Houve um desvio! Fomos desviados.

- Por quem? Por quê? - interrogou Nicoles.

- Nada posso dizer - confessou Barbicane.

- Olha, Barbicane - disse então Michel - tens interesse em saber a minha opinião sobre o desvio?

- Fala, meu bom homem.

- Eu não faço a menor questão de descobrir detalhes sobre esse desvio! Desviamo-nos, é um fato. Para onde vamos, tanto faz como tanto fez! Vê-lo-emos na altura própria. Que diabo! Uma vez que estamos sendo arrastados por esse espaço, acabaremos por ir parar em algum centro de atração.

A indiferença de Michel Ardan não podia contentar Barbicane.

Não que este se inquietasse com o futuro! O que o preocupava era o desvio do seu projétil, cuja razão queria conhecer custasse o que custasse.

Enquanto isto, o projétil continuava a deslocar-se lateralmente em relação à Lua, e com ele todo o cortejo de objetos alijados. Tomando pontos de referência na Lua, que estava a menos de duas mil léguas, Barbicane pôde até concluir que a velocidade se ia tornando uniforme. Nova prova de que não haveria queda. A força de impulsão sobrepunha-se ainda à atração lunar, mas a trajetória do projétil aproximava-o decerto do disco lunar, pelo que podia esperar-se que, em uma distância mínima, a ação da gravidade predominasse e provocasse finalmente a queda.

Os três companheiros, por não terem nada de melhor para fazer, prosseguiam com as observações. Continuavam, porém, sem poder determinar a disposição topográfica do satélite. A projeção dos raios solares nivelava todos os relevos.

E enquanto o tempo decorria, Barbicane obstinava-se em encontrar uma solução para o insolúvel problema que se lhe deparava.

A situação mantinha-se estável. O projétil aproximava-se visivelmente da Lua, mas era também visível que não a atingiria. No que se refere de saber até que distância o projétil se aproximaria da sua superfície, pouco ou nada se podia avançar, visto que essa distância seria a resultante das duas forças - a atrativa e a repulsiva - que atuavam sobre o móvel.

- Só peço uma coisa - repetia Michel - passar tão perto da Lua quanto possível para lhe desvendar os segredos!

- Amaldiçoado seja o que tenha desviado o nosso projétil! - desabafou Nicoles.

- Amaldiçoada seja - apoiou Barbicane, como se de repente se fizesse luz no seu espírito - maldito seja o bólide que se cruzou conosco!

- Hem? - fez Michel Ardan.

- Que quer dizer? - perguntou Nicoles, surpreendido.

- Quero dizer - respondeu convictamente Barbicane - que o nosso desvio se deve apenas a esse corpo errante.

- Mas ele nem sequer nos roçou... - objetou Michel.

- Não importa. A sua massa, comparada com a do nosso projétil, era enorme, e bastou essa atração para afetar a nossa direção.

- Tão pouco! - exclamou Nicoles.

- É verdade, Nicoles; mas por pouco que fosse - replicou Barbicane - numa distância de oitenta e quatro mil léguas seria o bastante para nos fazer errar a Lua!

A direção seguida pelo projétil arrastava-o para o hemisfério setentrional da Lua. Os viajantes estavam longe daquele ponto central onde deveriam cair, se a trajetória não tivesse sofrido um irremediável desvio.

Passava meia hora da meia-noite. Barbicane estimou em mil e quatrocentos quilômetros a distância que os separava da Lua - distância um pouco superior ao comprimento do raio lunar, e que devia diminuir à medida que avançassem em direção ao pólo norte. Na ocasião, o projétil encontrava-se, não à altura do equador, mas na direção do décimo paralelo, e a partir dessa latitude, cuidadosamente assinalada no mapa até o pólo, Barbicane e os companheiros puderam observar a Lua em melhores condições.

Realmente, mediante o uso dos binóculos, a distância de mil e quatrocentos quilômetros reduziu-se a quatorze, ou seja, três léguas e meia. O telescópio das Montanhas Rochosas estava ainda em vantagem, mas a atmosfera terrestre afetava-lhe consideravelmente a potência ótica. Eis a razão por que, postado no projétil, Barbicane alcançava com o seu binóculo certos pormenores que não podiam ser observados da terra.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/
- Meus amigos - disse então o presidente com uma voz grave - não sei para onde vamos, não sei se voltaremos a ver o globo terrestre. Apesar disso, procedamos como se um dia estes trabalhos pudessem vir a ser úteis aos nossos semelhantes. Mantenhamos o espírito liberto de toda e qualquer preocupação. Somos astrônomos. Este projétil é um posto espacial do Observatório de Cambridge. Façamos o que temos de fazer: observemos!

Dito isto, o trabalho foi iniciado com extrema precisão, de tal maneira que conseguiram reproduzir fielmente os diversos aspectos da Lua às distâncias variáveis que o projétil foi ocupando em relação ao astro.

Cerca das duas da manhã, Barbicane encontrava-se à altura do vigésimo paralelo lunar, não longe da pequena montanha de mil quinhentos e cinquenta e nove metros que tem o nome de Pítias. A distância do projétil à Lua não excedia os mil e duzentos quilômetros, que os binóculos reduziam para três léguas.

Lá pelas duas e meia da manhã, o projétil encontrava-se em frente do trigésimo paralelo lunar, em uma distância de mil quilômetros, reduzida a dez pelos instrumentos óticos. Continuava a parecer impossível que pudesse atingir qualquer ponto do disco. A velocidade de translação do projétil, relativamente medíocre, era inexplicável para o Presidente Barbicane. Naquela distância da Lua, essa velocidade deveria ser considerável para manter o projétil, apesar da força de atração. Havia nesse fato um fenômeno cuja razão lhe escapava ainda. Não tinha tempo para investigar-lhe as causas. O relevo lunar desfilava sob os olhos dos viajantes, que dele não queriam perder o mínimo pormenor.

Perto das quatro horas da manhã, na altura do quinquagésimo paralelo, a distância do projétil à Lua reduzia-se a seiscentos quilômetros. À esquerda, corria uma linha de montanhas caprichosamente recortada por uma luz intensa. À direita, ao contrário, cavava-se um buraco negro, como um imenso poço, insondável e escuro, furado no solo lunar.

Às seis horas, o pólo lunar fez a sua aparição. O disco não era mais aos olhos dos viajantes do que uma metade violentamente iluminada. A outra desaparecera nas trevas.

Subitamente, o projétil transpôs a linha de demarcação entre a luz intensa e a sombra absoluta, e mergulhou instantaneamente numa noite profunda.

Na altura em que se produzia tão bruscamente aquele fenômeno, o projétil rasava o pólo norte da Lua a menos de cinquenta quilômetros de distância. Tinham-lhe bastado, portanto, alguns segundos para mergulhar nas trevas eternas do espaço. A transição operara-se de forma tão rápida, sem matizes, sem diminuição gradual da luz, sem atenuação das ondulações luminosas, que o astro parecia ter-se apagado sob a influência de um poderoso sopro.

- A Lua fundiu-se, desapareceu! - exclamou Michel Ardan.

Na verdade, não se enxergava qualquer reflexo ou sombra. Do disco, ainda há pouco resplandecente, nada restava. A obscuridade era completa e tornava-se ainda mais profunda devido à cintilação das estrelas. Era o “negro” de que se impregnam as noites lunares, que duram trezentas e cinquenta e quatro horas e meia em cada ponto do disco - longa noite que resulta da igualdade existente entre os movimentos de translação e rotação do satélite, um sobre si próprio, outro à volta da Terra. O projétil, imerso no cone de sombra do disco, estava fora do alcance dos raios solares como qualquer dos pontos da sua parte invisível. 

Capítulo V – Um momento de embriaguez

Eis como um fenômeno curioso, mas lógico, fora do comum, mas explicável, se produzido em singulares condições. Todo o objeto alijado do projétil tendia a seguir a mesma trajetória e a parar apenas quando ele parasse. A emoção dos três companheiros crescia, aliás, à medida que se aproximava o fim da viagem. Esperavam o imprevisto, os fenômenos mais fantásticos. Na disposição de espírito em que estavam, nada os teria espantado. Muito excitados, a imaginação ia-lhes adiante do projétil, cuja velocidade diminuía acentuadamente, sem que disso se apercebessem. Mas a Lua aumentava de dimensão a olhos vistos, a tal ponto que acreditavam bastar-lhes estender a mão para nela tocar. 

No dia seguinte, mais especificamente 5 de dezembro, logo às cinco da manhã, todos estavam de pé. Este devia ser o último dia de viagem, se os cálculos estivessem exatos. Nessa mesma noite, à meia-noite, dentro de dezoito horas e no preciso momento da lua cheia, alcançariam o resplandecente disco. Aproximava-se a hora em que se completaria aquela viagem - a mais extraordinária de todos os tempos. Não admira, portanto, que desde manhã, através das vigias prateadas pelo luar, os três viajantes não cessassem de saudar o astro da noite, a lua, com confiantes e alegres ‘Urras!’

A lua avançava majestosamente no firmamento estrelado. Apenas alguns graus mais, e ela alcançaria o ponto exato do espaço onde se daria o seu encontro com o projétil. De acordo com as suas próprias observações, Barbicane calculou que a abordariam pelo hemisfério norte, lá onde se alongam as imensas planícies e rareiam as montanhas. Circunstância favorável, se a atmosfera lunar, como se pensava, estivesse apenas concentrada nos locais mais baixos.

- Por outro lado - considerou Michel Ardan - uma planície é mais adequada a um desembarque do que uma montanha. Um selenita que descesse na Europa no cimo do Monte Branco, ou na Ásia no pico do Himalaia, não teria propriamente chegado!

- De mais a mais - acrescentou Nicoles - num terreno plano o projétil ficará imóvel logo que o toque. Numa vertente, pelo contrário, rolaria como uma bola e, já que não somos esquilos, não sairíamos de lá sãos e salvos. Logo, tudo vai bem.

Na verdade, o êxito da audaciosa experiência parecia assegurado. Apesar disso, algo preocupava Barbicane. Porém, como não queria inquietar os companheiros, nada disse.

O fato é que a direção que o projétil tomava, rumando para o hemisfério norte da Lua, provava que a sua trajetória fora ligeiramente modificada. O tiro, matematicamente calculado, deveria levar o projétil mesmo até o centro do disco lunar. Se não o alcançasse, era porque tinha havido um desvio. Que circunstância o teria provocado? Barbicane não o sabia, assim como estava impedido de determinar a importância do fato por lhe faltarem pontos de referência. Esperava, todavia, que não tivesse outro resultado senão o de levá-lo na direção do bordo superior da Lua, região muito mais propícia à alunissagem.

Barbicane contentou-se, portanto, em observar frequentemente a Lua para ver se a trajetória do projétil se mantinha, e decidiu guardar para si a inquietação que sentia. A situação tornar-se-ia dramática se o projétil, errando o alvo, se perdesse nos espaços interplanetários.

Naquele momento, a Lua, em vez do aspecto achatado de um disco, deixava perceber a sua convexidade. Se o Sol a tivesse iluminado obliquamente com os seus raios, a sombra projetada teria feito sobressair as altas montanhas em nítido relevo. O olhar poderia ter mergulhado nos escancarados abismos das crateras e seguir as caprichosas fendas que zebram a imensidade das planícies. Mas todo o relevo estava ainda nivelado por um intenso esplendor. Distinguiam-se apenas as largas manchas que dão à Lua a aparência de um rosto humano.

- Rosto? Que seja - dizia Michel Ardan – Mas creio que se pareça, e sinto-o muito pela amável irmã de Apolo, com um rosto crivadinho de bexigas!

Já muito próximos do destino, os viajantes olhavam fascinados aquele mundo novo. A imaginação levava-os a passear por aquelas regiões desconhecidas. Trepavam aos picos elevados, desciam às profundezas das enormes crateras. Aqui e ali, julgavam ver vastos mares mal contidos pela atmosfera rarefeita, e cursos de água que colhiam o tributo das montanhas. Debruçados no abismo, esperavam surpreender os rumores daquele astro, eternamente mudo nas solidões do espaço.

Essa última parte da jornada deixou-lhes palpitantes recordações. Anotaram-lhes os mais ínfimos pormenores. Uma vaga inquietação penetrava-os à medida que se acercavam do fim da viagem. Tal inquietude teria redobrado se tivessem apercebido de quanto era medíocre a velocidade até o almejado alvo; É que então o projétil já quase não pesava. O seu peso decrescia sem cessar e devia desaparecer totalmente sobre a linha onde as atrações lunares e terrestres se neutralizam, o que iria provoca surpreendentes efeitos.

A despeito das suas preocupações, Michel Ardan não se esqueceu de preparar a refeição matinal com a habitual pontualidade. Comeram com grande apetite. Nada mais excelente do que as carnes em conserva. Alguns copos de um bom vinho francês coroaram a refeição. A este propósito, Michel Ardan fez notar que as vinhas lunares, aquecidas por aquele ardente sol, deviam produzir vinhos dos mais generosos - se é que lá existiam. Em todo o caso, o francês não se esquecera de incluir na sua bagagem algumas preciosas cepas do Médoc e da Côte D’Or, nas quais depositava grandes esperanças.

O aparelho Reiset e Regnault funcionava com extrema precisão. O ar mantinha-se num estado de perfeita pureza. Nenhuma molécula de ácido carbônico resistia à potassa, e quanto ao oxigênio era certamente de primeira qualidade, dizia o Capitão Nicoles. O reduzido vapor de água existente no projétil misturava-se com o ar, atenuando-lhe a secura. Muitas das casas de Paris, Londres ou Nova Iorque, tal como muitas salas de teatro, não possuíam decerto condições tão higiênicas.

Contudo, para funcionar cem por cento era necessário que o aparelho fosse mantido em perfeito estado, pelo que todas as manhãs Michel inspecionava os reguladores de saída, experimentava as torneiras e regulava com o pirômetro a intensidade do gás. Até ali tudo tinha corrido bem, e os viajantes, imitando o respeitável J. T. Maston, começavam a ganhar carnes de tal forma que ninguém os reconheceriam se o seu encarceramento durasse mais alguns meses. Em uma palavra, sucedia-lhes o que acontece aos frangos na capoeira: engordavam.

Olhando através das vigias, Barbicane viu o cadáver do cão e os diversos objetos lançados do projétil, que o acompanhavam obstinadamente. Diana uivava em tom lúgubre ao pressentir os restos de Satélite. Todos aqueles despojos pareciam tão imóveis como se estivessem pousados em terreno sólido.

- Sabem, meus amigos - dizia Michel Ardan - que se um de nós não tivesse resistido ao abalo da partida, teríamos sido forçados, com muita pena, a enterrá-lo, ou em melhores termos, “eterizá-lo”, uma vez que aqui o éter substitui a terra! Imaginem que esse cadáver acusador nos seguisse pelo espaço como um remorso!

- Teria sido muito triste - disse Nicoles.

Repentinamente, os três companheiros de viagem, cujos pulmões estavam afetados por incompreensível causa, mais do que alucinados, queimados pelo ar que lhes incendiava o aparelho respiratório, caíram sem sentidos no pavimento do projétil.

Que se passava? De onde provinha a causa daquela estranha embriaguez, cujas consequências podiam ser desastrosas? De uma simples imprudência de Michel, que, com rara felicidade, Nicoles pode remediar a tempo.

Depois de um desmaio que durou alguns minutos, o capitão foi o primeiro a recuperar os sentidos e as faculdades intelectuais. Apesar de ter almoçado apenas há duas horas, sentia uma fome terrível que o atormentava como se não comesse há vários dias. Tudo nele, estômago e cérebro, estava excitado no mais alto grau.

Levantou-se e naturalmente pediu a Michel uma refeição suplementar. Michel, desmaiado ainda, não respondeu. Nicoles quis então preparar algumas chávenas de chá, destinadas a facilitar a ingestão de uma dúzia de sanduíches. Em primeiro lugar, tratou de arranjar lume, pelo que acendeu um fósforo. Foi enorme a surpresa ao ver brilhar o enxofre com um clarão tão intenso que os olhos só a custo podiam suportar. Do bico de gás, que acendeu também, jorrou uma chama comparável aos jatos de luz elétrica.

Uma revelação acudiu de imediato ao espírito de Nicoles. A intensidade da luz, as perturbações psicológicas, a excitação das faculdades morais e afetivas; tudo se explicava e ele já compreendia.

- O oxigênio! - exclamou ele.

E, curvando-se para o aparelho de ar, notou que a torneira vertia jorros de gás incolor, insípido e inodoro, eminentemente vital, mas que, no estado puro, ocasiona as mais graves perturbações no organismo. Por desatino, Michel deixara completamente aberta a torneira do aparelho!

Nicoles tratou de estancar o escoamento do oxigênio, de que a atmosfera estava saturada, e que teria causado a morte aos viajantes, não por asfixia, mas por combustão. Uma hora depois, o ar, menos carregado, permitia aos pulmões um funcionamento normal. Pouco a pouco, os três amigos restabeleciam-se da embriaguez, mas tiveram de curtir o oxigênio como o bêbado curte o vinho.

Quando soube qual era a parte de responsabilidade que lhe tocava no incidente, Michel nem por isso se mostrou muito preocupado. Afinal, aquela inesperada embriaguez quebrara a monotonia da viagem. Muitas tolices foram ditas sob o efeito dessa ebriedade, mas tão depressa se disseram como se esqueceram.

- Depois - acrescentou o alegre francês - não estou nada aborrecido por ter provado um pouco desse capitoso gás. Sabem, meus amigos, que seria curioso fundar um estabelecimento com salas de oxigênio, onde as pessoas de organismo débil pudessem viver uma vida mais ativa durante algumas horas... Imaginem reuniões em que o ar estivesse saturado desse fluido heróico, teatros cujas administrações o fornecessem em alta dose no decurso dos espetáculos. Que paixão, que fogo, que entusiasmo na alma dos atores e dos espectadores! E se, em vez de uma simples assembléia, se pudesse saturar um povo inteiro? Que acréscimo de produção e de vida o gás lhe proporcionaria! De uma nação esgotada talvez se fizesse uma nação cheia de vitalidade, e mais de uma conheço eu, na nossa velha Europa, que deveria ser submetida a um rigoroso regime de oxigênio, a bem da sua saúde!

Michel falava com tal animação que quase se acreditava está a torneira ainda demasiadamente aberta. Mas, apenas com uma frase, Barbicane esfriou-lhes o entusiasmo.

- Tudo isso está muito bem, amigo Michel - disse-lhe - mas és capaz de nos explicar de onde vieram estas galinhas que entraram na nossa representação?

- As galinhas?

- Sim.

De fato, uma meia dúzia de galinhas e um soberbo galo passeavam de um lado para o outro, esvoaçando e cacarejando.

- As desajeitadas! - exclamou Michel - Foi o oxigênio que lhes deu volta à cabeça!

- Mas, com a breca, que queres fazer destas galinhas? - perguntou Barbicane.

- Aclimatá-las à Lua, ora essa!

- Então por que às escondidas?

- Por brincadeira, meu estimado presidente, uma simples brincadeira que afinal se malogrou ingloriamente! O meu plano era largá-las na Lua sem vos dizer nada. Hem? Qual seria o vosso espanto ao ver estes voláteis terrestres debicando nos campos lunares?...

- Ah, garoto, eterno garoto! - replicou Barbicane - Nem precisas que o oxigênio te suba à cabeça! Estás sempre como nós estávamos sob a influência desse gás. És um lunático!

- Ah, sim! E quem te diz que não estávamos então no nosso perfeito juízo? - perguntou Michel Ardan.

Após esta reflexão filosófica, os três amigos trataram de arrumar o projétil. Galinhas e galos voltaram às gaiolas. Contudo, enquanto procediam a essa operação, Barbicane e os dois companheiros tiveram a nítida sensação de um novo fenômeno.

A partir do momento em que deixaram a Terra, tanto o peso deles como o do projétil e dos objetos que continha havia sofrido uma progressiva redução. Se não podiam verificar tal perda em relação ao projétil, chegaria o momento em que esse efeito se lhes tomaria sensível a eles próprios e aos utensílios e instrumentos de que se serviam.

Escusado será dizer que uma balança normal não poderia acusar tal redução porque o peso destinado a pesar o objeto perderia precisamente o mesmo que o próprio objeto. Todavia, por meio de uma balança de mola, por exemplo, cuja tensão é independente da atração, conseguir-se-ia a exata avaliação dessa perda.

Sabe-se que a atração, ou, dito de outro modo, a gravidade, é proporcional às massas e está na razão inversa do quadrado das distâncias. Daí a seguinte consequência: se a Terra estivesse sozinha no espaço, se os outros corpos celestes desaparecessem subitamente, o projétil, de acordo com a lei de Newton, haveria de pesar tanto menos quanto mais afastado estivesse da Terra, mas sem nunca perder por completo o peso, visto que a atração terrestre sempre havia de fazer-se sentir, fosse qual fosse a distância.

No caso presente, porém, havia de chegar o momento em que o projétil deixaria de estar sujeito às leis da gravidade, pondo de parte os demais corpos celestes, cuja ação se podia considerar como nula.

Realmente, a trajetória do projétil estava traçada entre a Terra e a Lua. À medida que se afastava da terra, a atração terrestre descrevia na razão inversa do quadrado das distâncias. Contudo, a atração lunar aumentava na mesma proporção. Assim, havia de chegar a um ponto em que, neutralizadas as duas atrações, o projétil deixaria de ter peso. Se a massa da Lua e a da Terra fossem iguais, esse ponto localizar-se-ia precisamente a meio da distância entre os dois astros. Porém, tendo em consideração a diferença de massas, fácil se tornava calcular que o tal ponto se situava aos 47/52 da viagem, ou seja, em números mais claros, a setenta e oito mil cento e quatorze léguas da Terra.

Nesse ponto, qualquer corpo que não contivesse em si mesmo meios de deslocação ou de velocidade ficaria eternamente imóvel, visto que a força de atração dos dois astros se equivaleria e não haveria, consequentemente, preponderância de nenhuma delas.

Ora, se a força de impulsão tivesse sido calculada com rigor, o projétil devia atingir esse ponto com uma velocidade nula e total ausência de gravidade, extensível aos objetos que transportava. Que aconteceria então? Três hipóteses e se apresentavam:

Ou o projétil, se porventura conservasse ainda certa velocidade que lhe permitisse transpor o ponto de igual atração, cairia na Lua em virtude da preponderância da atração lunar em relação à terrestre; Ou, por falta de velocidade para atingir esse ponto, voltaria a cair na Terra, graças ao predomínio da atração terrestre sobre a lunar; Ou, finalmente, animado de uma velocidade suficiente para atingir o ponto neutro, mas insuficiente para ir além dele, ficaria eternamente suspenso nesse lugar, como o pretenso túmulo de Maomé, entre o zênite e o nada.

Fonte: http://jv.gilead.org.il/rpaul/

Tal era a situação, cujas consequências Barbicane explicou de forma clara aos companheiros. A questão interessavalhes profundamente. Então, como haviam de saber se o projétil atingiria esse ponto neutro, situado a setenta e oito mil cento e quatorze léguas da Terra, No preciso instante em que eles e os objetos que os rodeavam deixassem de estarem sujeitos aos efeitos da gravidade?

Até ali os viajantes, embora verificando que tais efeitos decresciam progressivamente, ainda não tinham sentido a ausência total daquela força. Mas naquele dia, por volta das onze horas da manhã, Nicoles, ao largar um copo na mão, viu que o mesmo, em vez de cair, ficava suspenso no ar.

- Ah! - exclamou Michel Ardan - Ora aí está um passe de física recreativa.

E logo tratou de tirar dos apoios respectivos diversos objetos, como armas e garrafas, que, abandonados a si mesmos, se mantiveram suspensos como por milagre. Até Diana, uma vez colocada no espaço recriou, mas sem qualquer astúcia, a maravilhosa suspensão inventada pelos Gaston e pelos Rober-Houdin. A cadela, aliás, não parecia aperceber-se de que flutuava no ar.

Os três companheiros, eles próprios, transportados aos domínios do maravilhoso, experimentavam, entre surpreendidos e estupefatos, apesar dos raciocínios científicos, uma sensação de total leveza, que lhes era proporcionada pela ausência de peso. Se estendiam um braço, nada o impedia de ficar estendido. A cabeça vacilava sobre os ombros. Os pés já não se apoiavam no chão do projétil. Estavam como bêbados, com o sentido de equilíbrio desequilibrado. O fantástico criou homens sem imagem reflexa ou sem sombra. Mas no projétil, a realidade, mediante a neutralização das forças atrativas, criara homens sem peão e a quem nada pesava!

De repente, Michel, tomando impulso, deixou o projétil e ficou suspenso no ar, como o monge da Cuisine des Anges, de Murillo.

Poucos instantes depois se juntavam a ele os dois amigos, e os três, no centro do projétil, simbolizavam uma ascensão maravilhosa.

- É isto possível? É verossímil? É real? - perguntou Michel, respondendo a si mesmo – Não, e todavia é! Ah, se Rafael nos visse assim, que Assunção não teria esboçado na tela.

- A assunção não pode durar - disse Barbicane - Logo que o projétil passe o ponto neutro, ficaremos sujeitos à atração lunar.

- E apoiaremos os pés na cúpula do projétil - concluiu Michel.

- Não - emendou Barbicane - porque o projétil, cujo centro de gravidade é muito baixo, há de voltar-se pouco a pouco.

- Bom, já percebi. Vai ficar tudo de pernas para o ar.

- Descansa Michel - interveio Nicoles - Não há que temer a mínima desarrumação. Nenhum objeto sairá do seu lugar, porquanto a evolução do projétil far-se-á de um modo insensível.

- De fato - explicou Barbicane - quando o projétil passar para além do ponto em que as atrações se anulam, a sua base, porque é relativamente mais pesada, arrastá-lo-á para uma posição perpendicular à Lua. Mas para que este fenômeno ocorra é preciso que tenhamos passado a linha neutra.

- Passar a linha neutra! - exclamou Michel - Façamos como os marinheiros que passam o equador: festejemos condignamente o fato!

Um ligeiro movimento lateral levou Michel até a parede acolchoada. Ali, pegou numa garrafa e em copos, que foi colocar no espaço, diante dos companheiros. Em seguida, bebericando alegremente, saudaram a linha com um tríplice hurra.

O equilíbrio de atrações durou apenas uma hora, ao fim da qual os viajantes começaram a se sentir atraídos para o fundo do projétil. Barbicane julgou mesmo ver que a ponta cônica do projétil se afastava um pouco da posição precedente, que o apontava para a Lua, ao mesmo tempo em que a base, por um movimento inverso, se aproximava. Portanto, a atração lunar predominava sobre a terrestre.

A descida em direção ao astro da noite começava de uma forma ainda imperceptível. Mas, pouco a pouco, a força de atração acentuaria, a descida tornar-se-ia mais perceptível e o projétil, arrastado pelo peso da base, voltaria o cone superior para a Terra e desceria, com uma velocidade crescente, até a superfície lunar. O objetivo se- ria, portanto, atingido. Nesse momento nada podia impedir o êxito da empreitada, e Nicoles e Michel Ardan partilharam da alegria de Barbicane.
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